Crise argentina sinaliza queda de exportação

Fonte: Valor Econômico (28 de julho de 2022)

 

O recrudescimento da crise na Argentina deve respingar no Brasil, com previsões negativas para o comércio exterior entre os países. Frente à escassez de dólares que a economia argentina enfrenta, a perspectiva dos analistas é de redução de 20% do volume das vendas brasileiras ao vizinho nos próximos meses.

 

Em junho, o Brasil exportou US$ 1,5 bilhão (FOB) para a Argentina, uma alta de 55,1% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Em volume, as vendas para o Brasil foram 31,3% maior do que em junho do ano anterior.

 

No primeiro semestre, o Brasil exportou US$ 7,5 bilhões para a Argentina, ante US$ 5,6 bilhões da primeira metade de 2021, crescimento de 33,3%. Em volume, tratou-se de alta de 12,4%. O Brasil hoje responde por quase 20% das importações da Argentina e pelo terceiro maior déficit comercial do país, atrás da China e dos EUA.

 

No acumulado do ano até junho, o maior crescimento das exportações brasileiras foi para a Argentina, com alta de 12,4%. As importações totais da Argentina cresceram em junho 44,6%, devido à alta de 26,4% dos preços e de 14,6% do volume, segundo a consultoria Abeceb, atingido recorde histórico de US$ 8,5 bilhões. Esse cenário, contudo, não deve se manter.

 

“A tendência era de aprofundamento do déficit comercial com o Brasil, mas não devemos ver isso até o fim do ano”, afirma Soledad Pérez Duhalde, diretora da consultoria Abeceb, em Buenos Aires. “A perspectiva é que isso se reduza por causa das restrições às importações. Vamos importar menos e continuar exportando o mesmo.”

 

Segundo a economista, esse cenário indica que a Argentina terá de conduzir a relação bilateral com o Brasil com cautela para administrar seu balanço de pagamentos. “Hoje claramente não há uma boa relação. Vai depender do que ocorrerá nas eleições de outubro”, acrescenta. “Além disso, prevemos que o Banco Central da Argentina estenderá as restrições. Portanto, não é um problema que se resolve no curto prazo.”

 

Relatório da Abeceb mostra que a corrente de comércio entre os países chegou a US$ 2,9 bilhões em junho. A cifra é a mais alta para junho desde 2013 e representa crescimento de 46,8% na variação interanual. O déficit da Argentina com o Brasil ficou em US$ 248 milhões (ver gráfico), pelo crescimento de 55% das importações ante alta de 38,2% das exportações.

 

Dentre os principais produtos vendidos para a Argentina em junho estão combustíveis de petróleo e minerais betuminosos, veículos de passageiros e autopeças.

 

“As exportações do Brasil para a Argentina deram um pulo maior em junho. Houve crescimento forte em bens de capital, onde entram veículos que não são automóveis, cujas vendas cresceram 47,5%, e de bens duráveis, que tiveram crescimento de 54,5%”, afirma Lia Valls, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). “Mas a crise se acentuando pode começar a reter isso.”

 

A perspectiva é que o volume das exportações brasileiras para a Argentina caiam 20% por conta da crise no país vizinho, afirma José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

 

Ele afirma que medidas de restrição cambial devem ter efeito sobre as vendas do Brasil e lembra que o setor automobilístico representa 40% das vendas brasileiras ao vizinho, seguido por calçados, que respondem por 1%. “Estimo que as restrições alcancem 20% das exportações do Brasil para a Argentina e do restante do mundo para a Argentina. Mas só vamos saber isso em dois ou três meses, quando as estatísticas começam a aparecer.”

 

Castro argumenta que a crise pode ser oportunidade para o Brasil recuperar espaço no mercado argentino. “Estamos acostumados com atraso de pagamento, enquanto um fornecedor europeu ou americano pensará duas vezes antes de vender para a Argentina.”

 

Andrés Borenstein, da consultoria Econviews, afirma que o BC argentino tem hoje US$ 40 bilhões de reservas brutas e US$ 3 bilhões de líquidas, ou seja, que excluem depósitos compulsórios, ouro e swap. “As exportações vinham voando, mas de julho em diante a história muda um pouco”, diz.

 

A Argentina não tem de onde tirar mais dólares, diz Soledad. O governo vem tomando medidas tentando conter as importações e para promover as exportações. “ Mas não há mais taxas e cepos (controle cambial) aos quais pode recorrer”, diz. Ela afirma que a crise é distinta da de 2018, porque hoje há menos margem de manobra.

 

No fim de junho, o Banco Central endureceu controles cambiais e anunciou a diretriz A7532, que dificulta o acesso a dólares a importadores, ao impor teto equivalente a 5% superior à média importada por mês em 2021 ou 70% superior à de 2020. Compras de energia e medicamentos ficam isentas. A medida foi anunciada para frear o que a vice-presidente Cristina Kirchner chamou de “festa das importações”.

 

Hoje o empresário na Argentina tem que ultrapassar três obstáculos para poder importar, diz Fernando Furci, gerente geral da Câmara de Importadores da República Argentina. Além da questão cambial, há uma lista de requisitos administrativos e financeiros.

 

“O ritmo do comércio nos próximos meses pode sofrer desequilíbrios, e não apenas com o Brasil”, diz. A diferença é que efeitos com o Brasil aparecem rapidamente, diz. Com a União Europeia pode levar 40 dias, com a China, 60, diz. Mas com o Brasil é quase imediato, pois o transporte é rápido.

 

Ele conta que as expectativas do empresário argentino hoje não são boas, e isso gera incerteza.

 

“Estamos atravessando uma das piores fases. Os empresários não sabem qual vai ser seu custo de reposição, se haverá reposição, como se moverão financeiramente no futuro. Por isso tomam posições conservadoras, revisando preços, cuidando de estoques, buscando ferramentas financeiras para comprar no exterior”, diz, ao lembrar que 86% do que a Argentina importa vai para a indústria. “Esses desequilíbrios têm efeito na produção e quem acaba pagando esses custos são os argentinos.”