Vale vai recompor estoques na China, apesar de coronavírus

Fonte: Valor Econômico (11 de fevereiro de 2020)

A Vale vai manter a política de recomposição de estoques no mercado chinês, apesar das projeções de que o coronavírus pode reduzir o crescimento da China no 1º trimestre. Em 2019, os estoques de minério de ferro da empresa caíram uma vez que houve cortes na produção depois de Brumadinho (MG) e porque havia compromissos assumidos com clientes.
 
Em 2020, a recomposição de estoques é o “caminho natural” para a Vale. Até o momento não houve efeitos negativos do coronavírus para a companhia em termos de vendas e de movimentação nos portos chineses. A formação de estoques, portanto, está mantida.
 
Trata-se de uma estratégia comercial uma vez que a companhia tem interesse de vender para as siderúrgicas asiáticas o BRBF, produto resultante da combinação do ferro de Carajás (PA) com minérios de qualidade intermediária. Essa mistura (blend) é feita em um terminal portuário que a empresa tem na Malásia e em portos da China. Estimativas de mercado indicam que, em 2019, a companhia consumiu 14 milhões de toneladas de seus estoques. Daí a conclusão de que a recomposição dos volumes estocados é necessária. O limite dos estoques da Vale é a capacidade de fazer a mistura (“blendagem”) na China, principal mercado da mineradora brasileira.
 
Em 2019, pela primeira vez em muitos anos, a Vale divulgou meta de vendas e não de produção. Foi uma mudança assumida depois de Brumadinho. Analistas consideram que, no ano passado, a empresa vendeu acima do que produziu. Os números oficiais serão conhecidos hoje quando a Vale divulgar o relatório de produção do quarto trimestre de 2019. Para 2020, a empresa tem meta de produção de minério de ferro de 340 milhões a 355 milhões de toneladas. Essa meta está mantida mesmo com o coronavírus e com as previsões de desaceleração da economia chinesa no primeiro trimestre.
 
No começo do ano, a Vale enfrentou outra dificuldade que foram as chuvas em Minas Gerais. O <strong>Valor</strong> apurou que, apesar disso, a empresa opera em condições quase normais, com pequenas reduções nos embarques no Espírito Santo. Até agora, portanto, a empresa não teria maiores motivos de preocupação. Um efeito a ser sentido pela Vale neste primeiro trimestre, no entanto, será a parada da mina de Brucutu (MG) em função da suspensão da deposição de rejeitos na barragem de Laranjeiras, ligada à mina. Brucutu é a principal mina de minério de ferro da Vale em Minas. Há expectativa que Brucutu volte a operar em março, mas depende das autoridades.
 
Outro efeito sentido pela Vale e concorrentes desde a eclosão do coronavírus foi a queda dos preços. O minério de ferro caiu mais de US$ 10 por tonelada desde janeiro, situando-se ontem na casa dos US$ 82 por tonelada no mercado à vista da China. Para analistas, o preço estava alto e é preciso considerar que o minério de ferro tem também um componente especulativo, representando pelo mercado futuro de Dalian. Há entre especialistas quem não espere uma grande queda nos preços uma vez que a relação entre oferta e demanda continua equilibrada. Em parte, isso ocorre justamente pelas limitações que a Vale tem para aumentar a produção por causa de suas barragens em MG. Houve também, neste ano, problemas climáticos na Austrália, outro grande produtor mundial da commodity.
 
Ontem o banco Itaú BBA divulgou relatório sobre commodities em que continua a trabalhar com uma estimativa de preço médio para o minério de ferro de US$ 75 por tonelada em 2020, US$ 18 por tonelada abaixo de 2019. Apesar disso, o banco projeta que a Vale pode ter neste ano uma geração de caixa superior a US$ 4,6 bilhões, o que se transformaria em uma taxa de retorno de 8% ao ano. O banco também espera que a Vale retome o pagamento de dividendos e chegue a acordos adicionais com as autoridades ainda neste ano.
 
Yuri Pereira, analista da XP Investimentos, vê o cenário de controle do coronavírus no primeiro semestre. Ele disse que o governo chinês está, desde o ano passado, disposto a dar incentivos que estimulem a economia do país. Foi o que os chineses fizeram nas últimas crises: a da Sars (2003) e a financeira internacional (2008), dando estímulos para aportes em infraestrutura. Há expectativa que o fenômeno possa se repetir. Se houver de fato novos estímulos governamentais, as mineradoras poderão se beneficiar, disse fonte.