Setor de rodovias vê onda de novos operadores
Fonte: Valor Econômico (19 de abril de 2024)
Concessões de rodovias atraem novos grupos, como EPR, Starboard, INC, Vinci, Acciona, OHLA, Azevedo & Travassos, entre outros

O mercado de rodovias começa a observar uma nova onda de investidores no setor, que hoje não depende mais dos operadores consolidados para viabilizar novas concessões.
Esse movimento ficou claro nos dois leilões rodoviários realizados nos últimos dias – da BR-040 em Minas Gerais e do Lote Litoral Paulista -, em que diversos atores relativamente novos no setor participaram ou chegaram perto de apresentar oferta: EPR, Acciona, OHLA, Azevedo & Travassos e outros dois consórcios de empresas de engenharia.
Nos últimos dois anos, também houve a entrada de novos atores: a Starboard levou o contrato do Rodoanel Norte em São Paulo; a italiana INC conquistou o Rodoanel de Belo Horizonte; e, no mercado secundário, a francesa Vinci comprou 55% de uma concessão do Pátria.
Para analistas do setor, trata-se de um movimento relevante, principalmente considerando o grande volume de leilões em estruturação pelos governos. No entanto, ainda há desafios, como a dificuldade de captação de recursos e a oscilação cambial. Além disso, há dúvidas sobre quantos desses novos atores recentes de fato vão persistir no mercado e consolidar plataformas de longo prazo.
A EPR, formada pelo grupo brasileiro Equipav e pela gestora Perfin, é apontada como principal exemplo de um novo grupo que demonstra ter vindo para ficar. Desde 2022, a empresa já conquistou três concessões estaduais do governo de Minas Gerais e dois contratos federais (da BR-040 em Minas e do Lote 2 de rodovias do Paraná).
Mas há um leque variado de investidores que conquistaram ou compraram concessões de rodovias nos últimos anos, e que ainda têm atuação mais tímida: a espanhola Sacyr, com um projeto no Rio Grande do Sul; a Simpar, que tem um contrato no Piauí; a Monte Partners, que adquiriu contratos da Odebrecht no Nordeste; a Starboard; a INC; além de diversos consórcios formados por diferentes construtoras.
Mercado observa novos interessados, como Starboard, EPR, Acciona, INC, OHLA e Vinci
“Ainda é cedo para dizer que alguns desses grupos estão criando plataformas de continuidade para investir no setor. Será necessário observar melhor o apetite daqui para frente. Mas o que já é possível confirmar é que os grandes operadores tradicionais que figuravam como sempre os mesmos nos leilões agora passam a não participar ou a participar discretamente, e vemos outros atores, o que é positivo”, afirma Marcos Ganut, sócio-diretor da A&M (Alvarez & Marsal).
Entre 2019 e 2022, a CCR e a Ecorodovias dominaram os leilões do governo federal. De seis leilões federais realizados no período, cinco tiveram uma das operadoras como vencedora, e praticamente não houve outros concorrentes. Porém, nos últimos dois anos, a participação dos dois grupos tem sido baixa.
Para Natália Marcassa, presidente da MoveInfra e ex-secretária do Ministério de Infraestrutura, o alto volume de projetos de rodovias em estruturação favoreceu a vinda de novos atores nos últimos anos. “Esse movimento é também fruto de um trabalho dos governos de mostrar que tem um ‘pipeline’ extenso de projetos. Então o investidor sabe que se não
movimento é também fruto de um trabalho dos governos de mostrar que tem um ‘pipeline’ extenso de projetos. Então o investidor sabe que se não conseguir um contrato aqui, vai ter outras oportunidades para entrar no mercado”, diz ela.
“Operadores mais tradicionais não têm participado, e há novos atores” Marcos Ganut
“Hoje vemos uma nova onda, com uma multiplicidade de grupos, com diferentes estilos e portes, que vão se interessar por ativos com perfis específicos. Não voltaremos a ver leilões como no início dos anos 1990, em que havia seis, sete interessados. Mas acredito que bons projetos vão atrair interessados”, avalia Rodrigo Campos, sócio do Vernalha Pereira Advogados.
Outro aspecto positivo apontado por especialistas é o avanço na qualidade dos contratos, que passaram a incorporar mecanismos de compartilhamento de riscos e mecanismos de resolução de problemas. “Os contratos de rodovias estão cada dia melhores. Hoje o que reduz o interesse é menos o aspecto regulatório do setor no geral e mais problemas específicos de determinados projetos, como foi o caso do leilão da BR-381 [que não atraiu interessados e teve que ser cancelado, no fim de 2023]”, afirma Letícia Queiroz, sócia do Queiroz Maluf Advogados.
Por outro lado, a percepção é que desafios macroeconômicos ainda afastam novos operadores de peso. “A taxa de retorno dos contratos, quando medida em dólar, é um problema. São projetos que demandam capital intensivo, mas com receita em real, em um país onde a variação cambial é significativa. Qual será a taxa em dez anos? Ninguém consegue responder. Então muitos investidores internacionais preferem um retorno mais previsível”, diz Ganut. Para Marcassa, a taxa de juros ainda elevada é também um desafio, não só para a atração de grupos, mas também para operadores presentes no país.