Exportações do setor agropecuário são recordes

Fonte: Valor Econômico (31 de julho de 2023)

De janeiro a junho, vendas externas do setor chegaram a 87,7 milhões de toneladas, com receitas de US$ 79,2 bilhões, contra US$ 75,2 bilhões em igual período de 2022

O esperado novo recorde na safra brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2023 impulsiona as exportações do setor agropecuário. Os volumes de soja e milho comercializados no mercado externo atingiram níveis sem precedentes no primeiro semestre deste ano. Até junho, os embarques de soja em grão somaram 62,8 milhões de toneladas,18,4% acima das quantidades de janeiro a junho de 2022. As vendas externas de milho atingiram 11,7 milhões de toneladas, mais 134% em relação aos primeiros seis meses do ano passado, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

O Brasil exportou no primeiro semestre deste ano 87,7 milhões de toneladas de grãos, 18,2% acima dos 74,2 milhões de toneladas de janeiro a junho de 2022. Além da soja e do milho, destacaram-se os 2,3 milhões de toneladas de trigo, produto com previsão de produção recorde de 10,6 milhões de toneladas.

Segundo projeções de mercado, as exportações seguirão firmes até o fim do ano, baseadas em quantidades crescentes, porque os preços médios de venda estão abaixo dos praticados em 2022. Na soja, por exemplo, o preço médio de exportação neste ano, até junho, caiu para US$ 532 a tonelada, contra US$ 576 no ano passado.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta para uma produção de grãos de 305,4 milhões de toneladas neste ano,16,1% maior que em 2022, equivalente a mais 42,2 milhões de toneladas. Somente a safra de soja, carro-chefe das vendas externas do país, deve chegar a 156 milhões de toneladas, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que se aproximam das estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de 155 milhões de toneladas. Ou seja, 19,2% acima dos 130 milhões de toneladas obtidas em 2022.

As previsões da Abiove indicam recorde nas quantidades exportadas de soja neste ano, com 97 milhões de toneladas, acima dos 78,7 milhões de toneladas de 2022, e 21,9 milhões de toneladas de farelo de soja, diante dos 20,3 milhões de toneladas. No caso do óleo de soja, a estimativa é de recuo nas vendas externas para 2,3 milhões de toneladas, frente a 2,6 milhões de toneladas do ano anterior, devido ao crescimento da demanda interna, provocado pela maior mistura do biodiesel.

Neste ano, a soja brasileira está sendo vendida também para a Argentina, que, com a quebra de safra, lançou mão de importações para honrar contratos. O grão passou para o primeiro item de exportações do Brasil para os argentinos, com US$ 1,5 bilhão até junho.

Com safra estimada em 122,8 milhões de toneladas, 11,5% maior que a de 2022, o milho também ampliou presença nas exportações, com a abertura do mercado da China, em novembro de 2022, ocupando espaços deixados pela Ucrânia, em guerra com a Rússia. Até junho, as exportações do cereal alcançaram US$ 3,4 bilhões, alta de 88% ante US$ 1,8 bilhão de janeiro a junho de 2022.

As boas notícias do campo contribuíram para que a Secex revisasse para cima os números da balança comercial. Agora, a expectativa é de que as exportações totais do país atinjam US$ 330 bilhões em 2023, acima das previsões anteriores, de US$ 324,7 bilhões.

importações de US$ 6,7 bilhões no primeiro semestre, o agronegócio garantiu superávit comercial de US$ 72,5 bilhões. “É o grupo que mais contribui para saldos na balança”, observa José Augusto de Castro, presidente da AEB.

“Temos um ano muito bom para as exportações de grãos, com soja e milho estabelecendo novos recordes de produção”, diz Andréia Adami, pesquisadora de macroeconomia do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), da Universidade de São Paulo (USP). Ela confirma, contudo, que o impulso da balança comercial será dado pelas quantidades exportadas.

Nos primeiros seis meses, os embarques do agronegócio somaram 126 milhões de toneladas, 14,4% acima de igual período de 2022. Pelas estimativas da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), as exportações do setor neste ano superam os 233 milhões de toneladas de 2022.

Pedro Rodrigues, assessor de relações internacionais da CNA, acredita que, com preços mais baixos, compensados por maiores volumes, as exportações do agronegócio ficarão próximas dos US$ 159 bilhões de 2022.

“Para este ano, grandes destaques na pauta, além dos tradicionais grão e farelo de soja, são o milho, com a abertura do mercado chinês, e a carne bovina, que, depois da suspensão temporária de vendas para a China no início do ano, vem numa recuperação muito forte”, avalia Rodrigues.

Até junho, as vendas externas de carne bovina somam US$ 4,3 bilhões, com 880 mil toneladas, o segundo maior volume embarcado para um semestre. Com isso, as exportações do complexo carnes (que inclui também frango e suíno) registraram US$ 11 bilhões de janeiro a junho. A China foi o maior destino da proteína brasileira.

Líder da pauta, representando 20% das exportações totais do país, o grão de soja alcançou US$ 33,4 bilhões no primeiro semestre deste ano (alta de 9,6% sobre igual período de 2022). Os preços do produto, no entanto, caíram cerca de 8% na comparação semestral. “E provavelmente cairão mais, devendo ficar na faixa de US$ 500 por tonelada no segundo semestre deste ano”, prevê Castro, com base nos preços de exportação praticados em junho.

Os dados da Abiove são mais favoráveis, com preço médio projetado para a tonelada da soja em grão neste ano em US$ 550, farelo em US$ 480 e óleo em US$ 1.200. No ano passado, o preço médio da tonelada do grão ficou em US$ 591, do farelo em US$ 508 e do óleo em US$ 1.512. “O preço cai em 2023, mas o volume aumenta. A demanda continua muito forte”, destaca Daniel Furlan Amaral, diretor de economia da Abiove.

As exportações de farelo de soja somaram este ano, até junho, US$ 5,8 bilhões, com 10,8 milhões de toneladas escoadas, e o óleo US$ 1,6 bilhão, com 1,5 milhão de toneladas. Com isso, o complexo soja garantiu receitas de US$ 40,8 bilhões, aumento de 8% sobre US$ 37,8 bilhões de janeiro a junho de 2022, e participação de 24,6% nas exportações globais do país.

Amaral prevê receitas este ano de US$ 65,5 bilhões com o complexo soja, acima dos US$ 64 bilhões de 2022, sendo US$ 52,6 bilhões com soja em grão, US$ 10,3 bilhões com farelo e US$ 2,6 bilhões com óleo. A Ásia se mantém como principal destino das exportações de soja, com a China absorvendo mais de 70% dos volumes vendidos pelo Brasil este ano. No milho, cerca de 50% das quantidades comercializadas foram para os asiáticos.

Os números da Abiove estão em linha com os da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), que prevê exportações este ano de 99 milhões de toneladas de soja e cerca de 52 milhões de toneladas de milho. Para o farelo de soja, são esperados embarques de 22 milhões de toneladas, contra 20,4 milhões de toneladas em 2022.

Sergio Mendes, diretor-geral da Anec, diz que “será a primeira vez que teremos recordes em volumes de exportação de soja e milho, simultaneamente”. No entanto, ele alerta para possíveis gargalos na emissão de certificados fitossanitários para as exportações, devido ao atual déficit de mão de obra no Ministério da Agricultura e Pecuária, responsável pela área.

Mendes acompanha de perto as cotações. “Em 12 meses, os preços do mercado recuaram 33%, contra 20% em Chicago, de acordo com o relatório Rabobank Agroinfo”, diz ele, de olho no comportamento da safra de soja americana, com influência nas cotações do segundo semestre do ano.

O desempenho do agronegócio ajudou a Secex a elevar para US$ 84,7 bilhões suas estimativas de superávit da balança comercial em 2023, aumento de 37,7% ante 2022. Se confirmado, será o maior saldo comercial já obtido pelo país. A grande contribuição virá dos produtos agropecuários, com saldo projetado pela AEB de US$ 70 bilhões em 2023, acima dos US$ 68,4 bilhões de 2022.

Daiane Santos, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), lembra que os produtos do agronegócio sempre garantiram, historicamente, saldo positivo na balança, porque as exportações do setor sempre foram relevantes, e as importações, relativamente pequenas.

Adotando uma classificação mais ampla, que inclui produtos da indústria de transformação, além de alimentos e bebidas, a Funcex projeta para este ano superávit no agronegócio de até US$ 126,3 bilhões, com exportações de US$ 142,6 bilhões e importações de US$ 16,3 bilhões.