Uso de reconhecimento facial cresce na China

Fonte: Valor Econômico (28 de outubro de 2019)

Nas lojas chinesas, cada vez mais tem sido comum clientes pagarem pelos produtos apenas com um movimento de cabeça — Foto: Qilai Shen/Bloomberg


A tecnologia de reconhecimento facial está mudando a maneira como os consumidores na China pagam por suas compras, assim como aconteceu com os pagamentos via celular em anos recentes. Nas lojas, são cada vez mais comuns os clientes que pagam pelos produtos com apenas um movimento de suas cabeças, enquanto os usuários do metrô “pagam com sua cara” os bilhetes nas estações.
 
Em um país onde o uso de pagamentos via celular se difundiu muito rapidamente nos últimos dois anos, cerca de mil lojas de conveniência já instalaram o sistema de pagamento por reconhecimento facial, e mais de 100 milhões de chineses se registraram para usar a tecnologia.
 
Para se beneficiar disso, no entanto, os usuários precisam primeiro registrar uma imagem de seus rostos nos aplicativos de smartphones dos provedores de serviços de pagamento por reconhecimento facial. Uma nova regulamentação, que entrou em vigor em dezembro, exige dos consumidores que registrem fotos de seus rostos ao contratarem um provedor de serviços móveis. Embora a rápida expansão da tecnologia de reconhecimento facial ofereça mais comodidade aos consumidores chineses que a usam, muitos alertam que Pequim está ampliando a escala do sistema no país e seu grau de invasão para manter sob vigilância cidadãos em níveis que devem alarmar qualquer pessoa que se preocupe com privacidade e direitos humanos.
 
A rede de lojas de conveniência Seven-Eleven introduziu a tecnologia de pagamento facial em suas unidades em maio, principalmente no sul da China, o que inclui a província de Guangdong. Cerca de mil lojas da Seven-Eleven já usam o sistema, que permite que os clientes paguem por suas compras simplesmente com o escaneamento de seus rostos pelos tablets dos pontos de venda.
 
Para usar esse sistema, os consumidores precisam apenas registrar fotos de seus rostos em um aplicativo de smartphone. Cerca de 10% dos clientes das lojas Seven-Eleven nos distritos comerciais de Guangzhou já fazem compras com o sistema de pagamento por reconhecimento facial, de acordo com a operadora da rede.
 
Até pequenos restaurantes estão recorrendo a essa tecnologia, que também é usada em um número cada vez maior de máquinas de venda automatizadas.
 
Dentro da ofensiva do governo na área de reconhecimento facial, o software foi adotado nas estações de metrô para permitir que os passageiros usem os rostos como bilhetes. Desde que foi instalado nas estações de metrô de Guangzhou, em setembro, o novo sistema proporcionou “uma passagem tranquila pelas roletas até nas horas de pico”, disse uma mulher de 23 anos que trabalha na cidade.
 
Os passageiros podem passar pelas roletas ao simplesmente olhar para os painéis incorporados no topo dos verificadores automáticos da estação. Eles não precisam estar com um celular, desde que tenham feito antes o registro da imagem de seus rostos com seus smartphones. A emissão de passagens via reconhecimento facial também está sendo introduzida em outras cidades, como Pequim e Xangai. A expectativa é a de que o sistema comece a se difundir amplamente no ano que vem.
O valor dos pagamentos feitos por meios móveis na China está perto de 200 trilhões de yuans (US$ 28 trilhões) por ano. Mas alguns analistas preveem que o celular será substituído pelo reconhecimento facial como método de pagamento preferido pelos consumidores chineses em dois anos.
 
O Alipay, o aplicativo de pagamentos operado pelo grupo Alibaba, o gigante do comércio eletrônico, e seu principal rival, o WeChat Pay, oferecido pela Tencent, têm impulsionado essa tendência. Cada um desses dois serviços de pagamento via celular tem cerca de 1 bilhão de assinantes. Na maioria das vezes, os novos sistemas de pagamento por reconhecimento facial estão vinculados a esses aplicativos. Os assinantes do Alipay e do WeChat Pay podem usar os sistemas simplesmente ao registrar as imagens de seus rostos.
 
O pagamento por reconhecimento facial é ainda mais rápido, fácil e descomplicado que o pagamento por celular ou por biometria, pois o software não requer nenhuma operação do smartphone ou colocar a ponta de um dedo sobre um escâner para gravar sua impressão digital. Essa tendência também é alimentada por um grupo de startups chinesas de inteligência artificial que oferecem uma tecnologia de reconhecimento facial sofisticada, entre elas a Megvii Technology, que foi fundada em 2011.
 
Cada vez mais, porém, essa tecnologia tem provocado temores sobre um Estado distópico de vigilância, com o desaparecimento da privacidade e um grande potencial de abusos.
 
Em setembro, a Megvii se comprometeu a aceitar a supervisão da sociedade sobre seus esforços para proteger a privacidade, depois de provocar críticas públicas por causa da viralização de uma foto que mostra uma solução da empresa para monitoramento de sala de aula por meio do reconhecimento facial que analisa o comportamento dos alunos. O sistema usa câmeras instaladas nas salas de aula para monitorar de perto o comportamento dos alunos e verificar, por exemplo, se eles estão prestando atenção. A mídia chinesa criticou o sistema, acusando-o de colocar os estudantes sob demasiada pressão.
 
Além disso, sob a nova Lei de Inteligência, que entrou em vigor em 2017, o governo chinês tem o poder de obter quaisquer dados privados que sejam de propriedade de empresas. A lei determina que as empresas na China devem fornecer as informações que têm ao governo quando existe ameaça à segurança nacional. A China tem sido criticada internacionalmente por usar essa lei para extrair das empresas informações pessoais de todo tipo. Se for usada de maneira ampla, a tecnologia de reconhecimento facial vai ajudar a tentativa de Pequim de construir uma rede que possa monitorar de perto as atividades de todos os seus 1,4 bilhão de cidadãos.
 
Essa perspectiva tem implicações significativas para o resto do mundo. Os EUA e a Europa caminham para impor restrições regulatórias ao uso da tecnologia de reconhecimento facial, motivados por preocupações sobre violação de privacidade e de direitos humanos. O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados da União Europeia, que entrou em vigor em 2018, proíbe, em princípio, a coleta de informações biométricas sensíveis, o que inclui dados de reconhecimento facial que podem ser usados para identificar indivíduos.
 
Nos EUA, quatro cidades, entre elas San Francisco, decidiram este ano restringir o uso de sistemas de reconhecimento facial pela polícia e outras organizações públicas. Mas é improvável que essas medidas dissuadam o governo chinês de promover a tecnologia de reconhecimento facial como uma ferramenta de segurança nacional.
 
Aparentemente, a situação na China prenuncia uma era de reconhecimento facial onipresente, em que a privacidade paga o custo de maior comodidade oferecida pela tecnologia. Na China, no entanto, o que vale no momento é que é “fácil de usar”. Não há críticas especialmente estridentes no país, pelo menos por enquanto, sobre o uso do software pelo governo ou pelas empresas.