Investimento de estatais é o menor em 20 anos
Fonte: Valor Econômico (16 de outubro de 2019)

A execução de investimentos das empresas estatais federais até agosto é a mais baixa da série iniciada em 2000. De acordo com dados do Ministério da Economia, o indicador ficou em 19,1% de janeiro a agosto deste ano, perdendo para os 21,2% verificados em igual período do ano passado e no ano 2000, os dois piores resultados da série. Mesmo em termos de volume financeiro, o montante aplicado neste ano agora é o mais baixo desde 2009, com R$ 23 bilhões.
A piora nos investimentos realizados pelas companhias federais ocorre no mesmo contexto em que o esse tipo de gasto por parte do governo também tem baixa execução, em decorrência do ajuste fiscal em curso comandado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
O menor volume aplicado em obras e projetos de ampliação de capacidade produtiva das empresas da União vem acompanhado, por outro lado, de uma forte expansão no lucro delas. No primeiro semestre, o resultado líquido do conjunto dessas companhias foi de R$ 60,7 bilhões, com aumento de quase 70% sobre igual período do ano passado. Após 2014, elas vinha registrando resultados negativos.
Questionado sobre a baixa execução dos investimentos das estatais, o Ministério da Economia respondeu ao Valor lembrando que o orçamento delas foi feito em meados do ano passado, com base em cenários e planos que foram traçados à época, em outro governo.
“Em relação a execução do orçamento até agosto de 2019, as empresas estatais federais, constantes do Volume VI da LOA, investiram o montante de R$ 23,0 bilhões, equivalentes a 19,1% da dotação prevista na LOA 2019. Ainda, a redução da execução do volume de investimento foi necessária para adequar o plano de negócios das empresas ao seu core business, bem como para adequar às orientações da nova gestão, com reavaliação das prioridades das empresas para 2019”, argumentou o ministério, lembrando que também houve redução na previsão de aporte de capital para investimentos nas empresas em decorrência da necessidade de ajuste fiscal do Tesouro.
Os dados do ministério mostram que o Grupo Petrobras continua sendo o líder dos investimentos das companhias do governo, embora também esteja em seu mais baixo índice de execução da série para os oito primeiros meses do ano.
O percentual de execução do Orçamento de Investimentos depende de estratégia da Petrobras, que está em processo de desinvestimento para reduzir o endividamento e concentrar sua atuação em operações mais rentáveis”, diz o ministério, que lista operações como as vendas da TAG, de participação na BR Distribuidora e da Stratura. “O Grupo Petrobras tem promovido uma reestruturação em seu plano de negócios que implica redução de sua participação no segmento de Refino e Gás Natural – RGN na Petrobras a fim de priorizar a atuação em seu core business, o segmento E&P”, completa a nota do ministério.
Para o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Rodrigo Orair, o movimento das estatais reflete a decisão do governo de rever o papel das empresas públicas, reduzindo seus quadros, endividamento e reforçando o caixa com vistas a privatizações. “Nesse contexto, é natural que haja queda nos investimentos”, comentou, destacando que a maior parte das obras refere-se a apenas duas empresas: Petrobras e Eletrobras. E as duas já vêm passando por ajustes desde 2015.
Segundo ele, parte desse processo refere-se à compensação de excessos cometidos no passado, até 2014, quando havia uma orientação de fazer com que as estatais puxassem os investimentos na economia.
Orair chama a atenção que as empresas públicas são instrumento poderoso de política econômica, pois respondem rapidamente aos comandos da estratégia de quem está no poder. Assim, lembra, as empresas nos anos 90 tiveram forte papel fiscal, passando para motores do investimento entre 2004 e 2014 e agora obedecendo à estratégia de enxugamento e redução do endividamento delas e também do setor público.
O governo tem deixado claro que considera importante reduzir o tamanho do Estado, e isso inclui enxugar e privatizar o maior número de estatais possível, para supostamente abrir espaço para o investimento privado.
Orair aponta ainda que esse modelo de menor investimento e maior lucratividade ajuda a reforçar o caixa não só das empresas, mas também do governo, devido ao pagamento de dividendos.