Este é o momento de se testar o poder do hábito

Fonte: Valor Econômico (29 de outubro de 2020)

Charles Duhigg diz que os melhores executivos pensam muito e não decidem rápido — Foto: Divulgação


Uma crise como a que enfrentamos hoje com a pandemia pode ser um bom gatilho para repensarmos nossos hábitos. Um vez que estamos sendo forçados a mudar as nossas rotinas, esta é a hora certa de rever quais são as nossas prioridades no trabalho e na vida.
 
Isso poderia soar óbvio, não fosse pelo fato de ter sido dito por Charles Duhigg, 46, autor do best seller “O Poder do Hábito” (editora Objetiva). Escrito em 2012, o livro explora a ciência da formação dos hábitos, no cotidiano, nas empresas e na sociedade. Embora tenha escrito apenas dois livros, o segundo é “Mais Rápido e Melhor” (2016), ele já vendeu 4 milhões de exemplares.
 
Duhigg estudou história em Yale e fez o MBA na Universidade de Harvard, mas seguiu carreira como jornalista. Foi vencedor do prêmio Pulitzer de reportagem explicativa por uma série no “New York Times” sobre a “The iEconomy”, onde trata da influência da Apple na economia global. Atualmente, escreve para as revistas “The New Yorker” e “The New Yorker” e “The New York Times Magazine”. Na pandemia, tem trabalhado do escritório que mantém perto de casa, em Santa Cruz, na Califórnia. “Meus filhos estavam me enlouquecendo”, brinca.
 
No próximo dia 10, ele participa da HSM Expo e lamenta que desta vez não possa palestrar no Brasil presencialmente. Em entrevista ao Valor, fala sobre a importância de escolhermos os hábitos certos para incorporar no pós covid-19. Duhigg diz que os gestores devem dar mais feedback e oferecer segurança psicológica se quiserem manter os funcionários produtivos. E que pensar mais e agir sem pressa é o segredo. A seguir, os principais trechos da entrevista:
 
Valor: Essa crise pode ser importante para as pessoas quererem mudar seus hábitos?
Charles Duhigg: Muito. Trabalhar de casa muda os hábitos das pessoas. A necessidade de mudar nos força a rever as nossas prioridades, tem um impacto enorme.
 
Valor: Como podemos começar a mudar nossos hábitos agora?
Duhigg: Temos que decidir e deliberar quais hábitos desejamos mudar. Muitas vezes as pessoas caem direto em novos hábitos ruins porque passam pouco tempo pensando sobre o que gostariam de mudar. Nos Estados Unidos e acredito que no Brasil também as pessoas estão bebendo mais álcool agora. Isso pode ser um mau hábito a menos que as pessoas simplesmente reconheçam o que está acontecendo e digam: OK, eu preciso disso para me ajudar a relaxar. Então, vou tomar só um drink todos os dias depois do trabalho. Mas as pessoas têm mais tempo para se exercitar porque não precisam se deslocar para o trabalho. É mais fácil do que ir à academia. Então, é uma oportunidade para adquirirem é um bom hábito. Elas podem dizer que mesmo depois de voltar ao trabalho, se as coisas mudarem, gostariam de continuar com esse hábito. A chave é reconhecer quais são os gatilhos, as rotinas e as recompensas que nos cercam. Quando alguém toma uma bebida, o que as leva a fazer isso? Quando relaxam e fazem um exercício, qual é a recompensa que estão se dando?
 
Valor: As empresas devem construir uma segurança psicológica para ajudar os funcionários a mudarem seus hábitos?
Duhigg: Sim, acho que a segurança psicológica é crítica porque com ela aprendemos a confiar uns nos outros. Se você não confia nas pessoas ao seu redor, será muito assustador tentar mudar. Se você não criar condições que permitam às pessoas ter uma sensação de conforto para mudar, não vai funcionar.
 
Valor: O distanciamento torna mais difícil se estabelecer essa relação de confiança?
Duhigg: É definitivamente mais desafiador. Mas eu acho que uma das coisas que podemos fazer é nos treinarmos para experimentar. Há uma maneira de ver a vida em que você diz vou ver cada escolha que faço como um experimento. E espero que eles sejam bem-sucedidos. Então, a primeira coisa é tentar descobrir qual é o experimento que estou conduzindo, o que estou realmente tentando descobrir. Uma vez que você sabe disso, a segunda pergunta é, se as coisas não correrem como o planejado vai ficar tudo bem, vou sobreviver? Se eu achar que vou ser demitido, nunca vou experimentar. Se as pessoas vão ser punidas por cometer um erro, nunca mais vamos vê-las tentando algo novo. A questão é: como treinar as pessoas e criar uma cultura onde as pessoas possam experimentar e não serem punidas se algo der errado?
 
Valor: O senhor defende que as pessoas bem-sucedidas têm o hábito de pensar profundamente antes de agir. Como fazer isso quando temos que tomar decisões cada vez mais rápidas em um cenário que muda constantemente?
Duhigg: Acho que muito do que sabemos sobre pensamento profundo é que você deve ser capaz de se treinar para parar quando as coisas estão difíceis. Os psicólogos se referem a isso como rotinas cognitivas, algo que interrompe o seu dia e o força a pensar. Um bom exemplo disso é quando você chega em casa e alguém pergunta como foi o seu dia e você fica 15 minutos respondendo, contando todos os detalhes. A razão de você fazer isso é porque o ajuda a rever o seu dia e a descobrir onde foi bem e o que deveria ter feito diferente. Esse ato de revisar é muito poderoso, o ensina a pensar mais profundamente. Alguém pode manter um diário e anotar tudo. Em reuniões, alguém diz: OK, vamos conversar sobre isso amanhã e não tomar uma decisão agora. Isso acontece porque a pessoa desenvolveu o hábito de dizer isso quando uma decisão difícil surge. Ela pode fazer isso porque sabe que pode não estar pensando claramente por se sentir oprimida por tantas informações que recebeu. Muitas vezes, as melhores decisões são tomadas quando temos a a chance de pensar mais devagar sobre elas.
 
Valor: Para melhorar a produtividade das equipes, os gestores deveriam repensar seus hábitos?
Duhigg: Muitos gestores procuram maneiras fáceis de medir a produtividade. Pensam com que frequência a pessoa envia um memorando, em vez de perguntar se o memorando está ótimo. Ou ainda quantas horas alguém está no escritório, quantas vezes ele vem até minha mesa e me faz uma pergunta ou com que frequência o vejo. É importante que alinhemos a forma como medimos a produtividade e como damos feedback aos nossos funcionários sobre a produtividade.
 
Valor: Agora que muitos profissionais estão remotos esse feedback ganha mais importância?
Duhigg: O feedback é crítico porque sem ele não sabemos o que estamos fazendo ou como fazer. Ele nos dá a chance de entender o que deveríamos fazer de maneira diferente. Sem isso, muitas vezes ficamos perdidos. Uma das coisas que sabemos sobre os high performers, por exemplo, é que eles querem mais feedback do que outras pessoas, porque eles sabem que é fundamental para fazerem melhor o seu trabalho. Quando estamos juntos em um escritório, temos a capacidade de obter feedback com mais facilidade. Podemos olhar para o outro lado da mesa e ver alguém e dizer o que ele está pensando apenas olhando. Precisamos encontrar novas maneiras de obter feedback dos gestores e uma das maneiras é pedindo a eles que nos digam o que estão pensando. Como gestor, tenho que gastar muito mais tempo dando feedback, porque não esbarramos mais nas pessoas nos corredores. Temos que ser mais explícitos.
 
Valor: Como podemos nos sentir mais produtivos nesse momento?
Duhigg: Acho que a primeira coisa é definindo o que a produtividade significa para você. Ela significa escrever mais memorandos, retornar mais e-mails, ou encontrar alguma grande ideia e, em seguida, executá-la? Todos temos o instinto de tentarmos nos sentir produtivos. Por isso é tão fácil responder e-mails, porque parece que você está fazendo algo. Mas, se você responder 30 e-mails hoje, significa que você terá 40 e-mails para tratar amanhã. Muitas vezes, a resposta é não tentar fazer o que parece que será facilmente produtivo porque está na sua frente. Em vez disso, melhor dar um passo para trás e se forçar a pensar e a se perguntar: o que posso fazer hoje? Essa é a coisa mais importante? O que eu poderia fazer hoje que mudaria o resto da semana ou do mês? Em seguida, deveria me concentrar nisso em vez de me deixar distrair pela necessidade de me sentir produtivo. A chave é encontrar as coisas que mais importam e ignorar aquelas que podem fazer você se sentir bem, mas que não te levam a realizar nada.