Trigo “preso” em Santos pode afetar oferta de pão em São Paulo
Fonte: Valor Econômico (13 de abril de 2022)
Não bastasse a guerra da Ucrânia, que fez os preços do trigo subirem fortemente nos últimos dois meses no exterior e no país, uma “operação padrão” da Receita Federal mantém retidas 38 mil toneladas do cereal no porto de Santos. O problema pode afetar a moagem em São Paulo, afirma o Sindicato da Industria do Trigo do Estado (Sindustrigo), já que volume representa 27% do processamento mensal paulista.
Segundo Christian Saigh, vice-presidente da entidade, o trigo está parado em silos alfandegários apenas à espera de nacionalização. “Como os armazéns estão cheios, qualquer navio que chegar amanhã não tem onde descarregar, e o importador passará a pagar um custo de R$ 210 mil por dia pela demurrage”, afirmou ao Valor.
Segundo o dirigente, amanhã haverá uma reunião virtual, a pedidos dos moinhos, com o delegado da Receita Federal de Santos para discutir os motivos do atraso. “Essa carga presa é de origem argentina, dentro dos acordos do Mercosul, importada por moinhos que fazem esse movimento há mais de 20 anos. Ou seja, não temos um fator novo que justifique o atraso na operação que, em tempos normais, levaria de três a cinco dias para ser concluída.”
Liberação demorada
Se a reunião terminar sem solução, os moinhos entrarão com um mandato de segurança. “Nesse caso, o juiz tem 48 horas para deferir ou não o pedido dos moinhos, e a Receita tem oito dias para cumprir o mandato. Quer dizer, na melhor das hipóteses, serão mais dez dias para liberar a carga, que já está presa há dez dias”, afirmou.
Esse cenário traz mais um desafio para o segmento, que enfrenta preços elevados do cereal e dos frete marítimo. “A indústria atuou para não faltar trigo em São Paulo. Compramos mais caro e garantimos o abastecimento. Mas agora temos mais esse percalço”, reclamou Saigh.
Até a publicação desta matéria, a Receita Federal não havia respondido ao pedido de entrevista do Valor.
