Suzano reduz estoque e ações têm alta de 7,3% na B3

Fonte: Valor Econômico (04 de novembro de 2019)

A redução em 450 mil toneladas dos estoques de celulose da Suzano, que atingiram a marca histórica de 3 milhões de toneladas no começo do ano, levou as ações da companhia ao topo dos ganhos do Ibovespa na sexta-feira, a despeito de o mercado global da matéria-prima seguir pressionado e ainda não estar claro se a indústria tocou de fato o ponto de inflexão. Com a alta de 7,3% do papel, a R$ 35,01 a companhia ganhou R$ 3,45 bilhões em valor de mercado.
 
A boa notícia é que, depois de frustrar as expectativas de quem aguardava o início da desestocagem ainda no segundo trimestre, esse processo está de fato em curso e deve perdurar nos próximos trimestres. A companhia retirou a projeção de produção de 9 milhões de toneladas em 2019, um sinal de que o volume produzido deve ficar abaixo desse nível, e indicou que manterá a estratégia mais agressiva de vendas adotada já no terceiro trimestre, que resultou não só em inventários mas também em preços menores, perseguindo mais desestocagem.
 
A Suzano não revela quanto tem de celulose em estoque neste momento. Analistas estimam que o volume estava em torno de 3 milhões de toneladas o dobro do nível normal. Portanto, com a redução de 450 mil toneladas, a companhia resolveu um terço do seu problema de 1,5 milhão de toneladas, observaram Daniel Sasson e Ricardo Monegaglia, do Itaú BBA.
 
Os analistas Thiago Lofiego e Isabella Vasconcelos, do Bradesco BBI, notaram que a companhia produziu celulose a uma base anualizada de 8,4 milhões de toneladas, frente a 10,5 milhões de toneladas um ano antes. Contudo, há dúvidas quanto ao prazo durante o qual a companhia seguirá operando abaixo de 9 milhões de toneladas por ano. Do BTG Pactual, o analista Leonardo Correa comentou que a produção de celulose da companhia até setembro totalizou 6,5 milhões de toneladas e, no consolidado de 2019, deve ficar entre 8,5 milhões e 8,7 milhões de toneladas – portanto abaixo do guidance que foi retirado.
 
 
Ao mesmo tempo, a companhia foi rápida ao anunciar um pacote de medidas para adequar-se a sua política financeira, logo após a dívida líquida passar a corresponder a 4,3 vezes o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado em dólar – um aumento de 0,7 ponto percentual na alavancagem financeira em três meses. E o mercado tende a valorizar o comprometimento das empresas com higidez financeira.
 
A meta é levar a alavancagem de volta a três vezes, ou menos, ao longo de 2021 e são três as grandes iniciativas: restrição a novos investimentos, monetização de US$ 500 milhões em estoques de celulose até o fim do ano que vem e venda de até R$ 1 bilhão em madeira excedente nos próximos cinco anos.
 
O investimento em 2020, disse o diretor de finanças e relações com investidores Marcelo Bacci, será significativamente menor que o de 2019, embora essa medida não vá atrapalhar os planos de criação de valor da companhia, neste caso de aproximação das florestas às unidades fabris. A Suzano poderá comprar ativos florestais que ofereçam esse benefício, ao mesmo tempo em que vai se desfazer de madeira que está mais distante da fábrica.
 
Além disso, a Suzano foi enfática ao reafirmar que vai se beneficiar das sinergias estimadas da fusão com a Fibria, que ainda não estão refletidas no preço de sua ação porque ainda havia dúvidas no mercado quanto ao ritmo de captura desses ganhos e quanto ao tamanho da economia. Em teleconferência com analistas, Bacci afirmou que a companhia vai incorporar 90% do ganho anual de R$ 800 milhões a R$ 900 milhões ao ano a partir da integração das produtoras de celulose em 2020.
 
Fora dos muros da empresa, os sinais também parecem um pouco melhores. De acordo com o presidente da Suzano, Walter Schalka, é difícil garantir que a indústria tocou o fundo do poço e está iniciando uma curva de recuperação de preços e retorno ao acionista. Mas há sinais claros de que se o ponto de inflexão ainda não foi tocado, pode estar perto de ser.
 
Entre esses pontos estão queda dos estoques de celulose no sistema, resultados ruins reportados pelos produtores no terceiro trimestre e o conjunto de produtores que hoje opera com rentabilidade negativa, o que tende a levar a mais ajuste na oferta. “Há pouco risco de mais queda dos preços, mas um potencial importante de recuperação ao longo do tempo”, disse.