Setor de celulose e papel diz que crise ambiental é grave

Fonte: Valor Econômico (06 de outubro de 2020)

Paulo Hartung, presidente da Ibá: país enfrenta a crise com descoordenação — Foto: Ana Paula Paiva/Valor


 
A indústria brasileira de celulose e papel, reconhecida internacionalmente pelo manejo sustentável de suas florestas, está em estado de alerta por causa da crise ambiental em curso no país. Embora o setor ainda não tenha sido diretamente atingido, há risco de que a boa imagem e os negócios conquistados ao longo de anos sejam manchados pelo agravamento dos problemas nessa área.
 
“A crise é grave e afeta mercados abertos pelo país a duras penas nos últimos anos, assim como o acesso ao crédito internacional”, alertou o ex-governador do Espírito Santo e presidente-executivo da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Paulo Hartung, que teceu duras críticas às tentativas de enfrentamento da crise sanitária e econômica desencadeada pela covid-19 por parte do governo federal.
 
“Estamos atravessando a crise com muita descoordenação, infelizmente, e deixamos que outra fosse produzida, a crise ambiental. É um assunto ao qual precisamos dar atenção”, afirmou Hartung, durante apresentação no 53º internacional da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP). Também presente ao evento, o presidente da Suzano, Walter Schalka, reiterou o alerta. “O Brasil está a caminho do precipício ambiental”, voltou a dizer o executivo, que tem sido bastante ativo nas discussões sobre os rumos do país.
 
Com quase US$ 10 bilhões em receita com exportações no ano passado, o setor de base florestal brasileiro é superavitário e grande investidor: neste momento, tem três fábricas em construção e um total de R$ 35 bilhões em projetos em execução ou planejados para os próximos anos.
 
Hoje, enquanto a maior parte dos produtores do Hemisfério Norte tem operado no vermelho por causa dos baixos preços da celulose, de cerca de US$ 450 por tonelada na China, as empresas brasileiras, que estão entre as mais competitivas do mundo, conseguem gerar caixa, mas não retorno ao capital empregado – por isso, para Schalka, esses preços não são sustentáveis.
 
Nos últimos anos, porém, a indústria de celulose e papel foi capaz de gerar retorno ao acionista, observou Schalka, citando a recente saída do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) do capital da Suzano como exemplo desse ganho. O executivo lembrou que, quando consumada a fusão da Suzano com a Fibria, o BNDES já havia recebido R$ 9 bilhões por sua participação acionária. Agora, com a venda em bolsa dos 11,1% remanescentes, levantou outros R$ 7 bilhões. “Assim, em aproximadamente 20 meses, o BNDES conseguiu monetizar cerca de R$ 16 bilhões”, comentou.
 
Olhando para a frente, disse o presidente-executivo da Ibá, o prognóstico é o de que o Brasil sairá do momento difícil que enfrenta mais digitalizado e endividado, com desemprego elevado e queda de cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo as previsões mais recentes. Diante de uma crise dessa magnitude, avaliou Hartung, o papel das lideranças é cuidar da emergência – salvando vidas e empregos -, mas também olhar para o futuro.
 
Nesse sentido, algumas tarefas seriam óbvias, entre as quais ancorar o endividamento superior a 95% do PIB via “PEC Emergencial”, que tramita no Congresso, e implementar a reforma administrativa. “A PEC Emergencial reintroduz a ideia de que o setor público também pode reduzir jornadas e salários e esse é um dos instrumentos para que se mantenha a percepção de solvência das contas públicas”, explicou.
 
Outra providência está relacionada à reforma administrativa. Para Hartung, é positivo que o governo federal já tenha possibilitado o início de tramitação, ao enviar a sua proposta. “Mas ainda é tímida. Ela precisa ser complementada por debate na sociedade e no Congresso. Não podemos nos dar ao luxo de fazer uma reforma apenas para os futuros concursados”, comentou, acrescentando que o tratamento a servidores atuais e futuros poderia ser diferente.
 
Alguns conceitos que serão válidos para os futuros concursados poderiam ser aplicados aos servidores atuais, como, por exemplo, a avaliação de desempenho e a suspensão em definitivo da promoção automática. Tais medidas podem injetar produtividade no setor público brasileiro, observou o dirigente. Segundo Hartung, o governo deveria ainda reorganizar os programas de transferência de renda sem “furar o teto [de gastos]”. “É preciso unificar os programas sociais e buscar dinheiro no próprio orçamento”, afirmou.
 
Para Schalka, que preside a maior produtora de celulose de eucalipto do mundo, parte da responsabilidade pela situação atual do Brasil é da sociedade, seus empresários e executivos, que ainda têm se mostrado omissos. “Todo mundo reconhece que o Brasil precisa de reformas, mas não adianta ficar falando e não fazer nada. Temos de ser propositivos e construir pontes para o diálogo”, afirmou.