Sem ‘lockdown’, Suécia tem pouco ganho econômico

Fonte: Valor Econômico (08 de maio de 2020)


 
A decisão da Suécia de não impor um confinamento obrigatória (lockdown) chamou a atenção de governos de todo o mundo, interessados em examinar o impacto dessa estratégia na saúde pública e na economia. Mas a verdade é que a situação econômica na Suécia não é tão diferente da dos países que adotaram medidas rígidas.
 
Mesmo sem uma ordem oficial, muitos suecos seguem as recomendações de distanciamento social do governo e limitaram suas viagens e atividades, o que reduzia o consumo interno. E o país não tem como se isolar do confinamento de seus parceiros comerciais. As exportações estão caindo.
 
O resultado: a economia da Suécia está em contração, embora não tanto como outras na Europa, mas similar à dos vizinhos nórdicos. Enquanto isso, o país registra um número per capita de mortes por covid-19 consideravelmente maior do que os países vizinhos – ainda que abaixo dos níveis da França, Itália e do Reino Unido.
 
Lojas, restaurantes e até boates tiveram autorização para continuar abertos na Suécia. Não há restrições nos setores de indústria e serviços. Mas isso não significa que a vida seja normal no país.
 
Apesar do clima quente dos últimos dias, as ruas estão mais silenciosas, e os negócios, menos movimentados, porque muitos suecos levam a sério as orientações do governo para evitar pegar o altamente contagioso coronavírus.
 
Tudo isso contribui para o que o governo da Suécia estime uma contração de 6% no consumo interno neste ano. Combinada com uma queda de 10% prevista nas exportações, as autoridades suecas avaliam que o resultado será um declínio de 7% na produção econômica de 2020. A Comissão Europeia prevê queda de 6,1% do PIB sueco este ano (veja o quadro), enquanto que a zona do euro como um todo deve contrair 8% no ano.
 
As mortes per capita pela covid-19 na Suécia são de 301 por milhão de habitantes, abaixo da França e do Reino Unido, mas muito acima dos vizinhas Dinamarca, Finlândia e Noruega, com 87, 46 e 40 mortes por milhão, respectivamente. Especialistas dizem que a taxa de infecção parece estar diminuindo.
 
O epidemiologista-chefe do governo da Suécia, Anders Tegnell, disse ao “Wall Street Journal” que as diretrizes de distanciamento social voluntário tinham o objetivo de garantir que o sistema de saúde pública não ficasse sobrecarregado e, ao mesmo tempo, de potencialmente criar imunidade de grupo no país no longo prazo.
 
A experiência da Suécia mostra que a iniciativa de outros países de relaxar as restrições pode não proporcionar uma recuperação econômica rápida, disse David Oxley, da consultoria Capital Economics. “Mesmo que lojas e restaurantes estejam abertos, as pessoas não consumirão em meio a uma assustadora crise de saúde global.”
 
No primeiro trimestre, a economia sueca teve uma contração anualizada de 1,2%, segundo a agência de estatística do país. Em comparação, a França teve uma queda anualizada de 21%, enquanto nos EUA a contração foi de 4,8%.
 
Economistas ressalvam que os números foram impulsionados pelo forte desempenho da Suécia em janeiro e fevereiro, antes de que o impacto do vírus fosse sentido completamente. Mas eles acreditam que a Suécia conseguiu alguns benefícios de curto prazo com sua abordagem mais leve.
 
O consumo das famílias caiu cerca de 30% desde meados de março, segundo Magnus Henrekson, diretor do Instituto de Pesquisa de Economia Industrial. É uma queda forte, mas menor do que a de 70% ocorrida na vizinha Finlândia, que aplicou o confinamento.
 
Os registros de carros novos caíram 37% em abril na Suécia. No Reino Unido, na Itália e na Espanha essa queda foi perto de 100%.
 
Embora a demanda doméstica na Suécia esteja resistindo melhor ao vírus do que em outros países da Europa até agora, Oxley, da Capital Economics, disse que a produção sueca será limitada pela situação em outros lugares. Os principais mercados de exportação da Suécia – países europeus vizinhos e os EUA – estão em contração.
 
As exportações são responsáveis por cerca de 30% do PIB da Suécia, segundo Henrekson.
 
Desde o começo de março, 122 mil pessoas na Suécia se registraram como desempregadas, e o governo estima que a taxa de desemprego pode chegar a 10%.
 
O setor industrial da Suécia sofre o impacto da pandemia. Em março, a fabricante de caminhões Scania informou que perdeu o acesso a cerca de 35 componentes cruciais, provenientes de países em confinamento, como a França.
 
“Isso é suficiente para parar a linha de produção”, disse Henrik Henriksson, CEO da Scania, controlada pela alemã Volkswagen.
 
No fim de março, a Scania fechou suas operações em todo o mundo, incluindo na Suécia, por duas semanas. Desde então, retotmou parte da produção e, com sua cadeia de fornecimento voltando a funcionar, espera voltar à produção plena até o terceiro trimestre
 
Mas reavivar a demanda não é tão fácil. Nas áreas de caminhões e ônibus, a Scania teve queda de 23% nas entregas e nas encomendas no primeiro trimestre, em comparação com um ano antes.