Proposta de frentes de trabalho de Guedes é inspirada em asiáticos
Fonte: Valor Econômico (26 de maio de 2020)
Mencionada recentemente pelo ministro Paulo Guedes, a ideia de criar frentes de trabalho é uma estratégia em estudo na área econômica que teria um papel não só para gerar empregos, mas também para ajudar na reabertura das atividades em meio à pandemia nas grandes metrópoles. O Valor apurou que o mecanismo é inspirado na Coreia do Sul e Cingapura, que, com a experiência da Sars (Síndrome Aguda Respiratória Severa) em 2002, adotaram esse protocolo.
A visão é que o mecanismo possa gerar mais de 1 milhão de empregos a um custo baixo para o Tesouro, pois é baseado no pagamento de uma ajuda de custo, inferior a um salário mínimo, para pessoas que se voluntariarem a prestar serviços de limpeza, principalmente de transporte público, e informação.
A proposta começou a ser desenhada na área econômica ainda em março, quando se iniciaram as quarentenas nos Estados e nos cidades mais populosos do Brasil. Nessa mesma época, começaram os estudos de medidas para o enfrentamento da crise.
Os recursos seriam transferidos para as prefeituras, que fariam a contratação dos trabalhadores voluntários. E inicialmente a ideia seria fazer esse processo por pelo menos dois meses.
Concretamente, a ideia é colocar maciçamente pessoas para limparem ônibus, metrôs, bem como estações e pontos de embarque e desembarque e corrimões, em locais de maior movimentação de pessoas. Além disso, os trabalhadores seriam alocados também para limpeza de ruas e outras atividades.
Outro flanco é no campo da informação. Voluntários remunerados seriam direcionados para medição de temperatura nas ruas e para orientação de pessoas, especialmente os idosos, que são mais vulneráveis e com risco de morte pelo coronavírus.
A ideia de frentes de trabalho foi mencionada por Guedes na semana passada em reunião com representantes do setor de serviços. Nessa linha, também veio à tona na última sexta-feira que o governo pode mobilizar as Forças Armadas para gerar empregos de baixa remuneração e baixo custo fiscal para jovens.
Na reunião ministerial de 22 de abril, Guedes disse que estava conversando com o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, para absorver centenas de milhares de “jovens aprendizes” nas Forças Armadas na estratégia de retomada da crise.
“Quantos? Duzentos mil, 300 mil. Quantos jovens aprendizes nós podemos absorver nos quartéis brasileiros? Um milhão? Um milhão a R$ 200, que é o Bolsa Família, R$ 300, pro cara de manhã faz calistenia [conjunto de exercícios físicos], apresente OSPB [Organização Social e Política do Brasil]… É… voluntário pra fazer estrada, pra fazer isso, fazer aquilo. Sabe quanto custa isso? É R$ 200 por mês, um milhão de cá, duzentos milhões, pô! Joga dez meses aí, dois bi. Isso é nada!”, disse Guedes, na ocasião. “Então, nós vamos pegar na reconstrução, nós vamos pegar um bilhão, dois bilhões e contrata um milhão de jovens aqui. A Alemanha fez isso na reconstrução. Aí você também quer fazer estrada? Precisa de três, quatro bilhões a mais. Tem um orçamento de oito. Toma aqui seus quatro bilhões. Isso não faz falta”, completou o ministro da Economia.
O Valor apurou que a mobilização adicional de jovens para as Forças Armadas é uma ideia que o ministro já tinha antes mesmo da pandemia, como mecanismo de emergência para o enfrentamento de um aumento inesperado do desemprego.
Essas alternativas emergenciais, contudo, segundo fontes, não mudam a visão de que o caminho a se seguir no pós-crise é de intensificação das reformas.