Port Community Systems vão além de apenas sistemas tecnológicos, afirmam responsáveis pela implantação no Brasil

Fonte: Brasil Export (25 de agosto de 2020)


 
Os Port Community Systems (PCS), apesar da denominação oficial, não devem ser encarados apenas como sistemas tecnológicos mas sim como plataformas de integração entre agentes privados e públicos na construção de uma comunidade portuária real, com informações compartilhadas, e que proporcionam maior eficiência nas operações.
 
A afirmação é de responsáveis pela implantação dessas tecnologias em portos brasileiros durante webinar desta segunda-feira, dia 24, sobre o tema organizado pelo Fórum Nacional Brasil Export e realizado em parceira com a Zero Treze Innovation Space integra. O evento virtual integra a série de debates do Brasil Hack Export, e contou com o apoio técnico da Abtra (Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados).
 
Segundo Marcelo D’Antona, líder de modernização portuária do consórcio Palladium, o maior desafio para a implantação de um PCS é conseguir que os vários empreendimentos que operam em um porto se convençam de que atuar de forma colaborativa é uma necessidade real e um benefício de competitividade para todos os players envolvidos.
 

“A gente brinca que [o PCS] não é um projeto de tecnologia, é um projeto sociológico”, afirma D’Antona

 
Jonas Mendes Constante, consultor sênior e diretor do Projeto da Fundación Valenciaport, disse que costuma denominar o PCS de uma “mesa virtual”, onde cada participante conecta seu sistema a essa plataforma única, fornecendo e obtendo as mais variadas informações. “Em vez da Receita Federal, por exemplo, se integrar com a Autoridade Portuária ou com um terminal específico, poderá se conectar ao PCS e disseminar informações de forma mais inteligente”, afirmou.
 
Saiba o que é Port Community Systems
O PCS é definido pela International Port Community Systems Association (IPCSA) como uma plataforma eletrônica neutra, aberta, inteligente e segura que viabiliza a troca de informações entre as partes interessadas, sejam elas públicas ou privadas, com o objetivo de melhorar a posição competitiva das comunidades dos portos.
 
O ambiente digital é voltado para otimizar, gerenciar e automatizar processos eficientes de portos e logística por meio de um único envio de dados.
 
D’Antona acrescentou que o objetivo específico do trabalho desenvolvido pela Palladium – consórcio contratado pelo governo do Reino Unido para a implantação de PCS nos portos de Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ), Suape (PE) e Itajaí (SC) – no eixo “portos” é o de reduzir o custo do transporte de cargas pelos portos brasileiros e o tempo do processo em dois dias nas operações de importação e em um dia nas exportações.
 
Em sua apresentação, ele destacou o estudo “As Barreiras da Burocracia – Setor Portuário” produzido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), cujo diagnóstico foi de baixa qualidade na integração entre sistemas e a falta de coordenação entre os agentes envolvidos nas operações portuárias no Brasil.
 
Durante a fase inicial do projeto coordenado pela Palladium e encomendado pelo Prosperity Fund UK, no período de outubro de 2019 e março de 2020, foram definidas como prioridades otimizar os processos de entrada e saída de embarcações dos portos, aperfeiçoar os processos para acessos de veículos terrestres para o embarque e desembarque de cargas, e coordenar as inspeções físicas de mercadorias e embarcações.
 
D’Antona destacou que a implantação do PCS pode se constituir em diferencial de competitividade para um porto, com o objetivo final de beneficiar os usuários. “O exportador brasileiro que usar um porto mais eficiente terá um custo menor. Essa é a racionalidade por trás do programa”,disse.
 
Além de convencer os stakeholders sobre as vantagens de adesão a um PCS, outro grande desafio apontado por D’Antona é o de definir o modelo do custeio para manutenção e evolução do sistema mais adequado para cada porto. Entre as possibilidades estão o financiamento pela própria comunidade empresarial, aos moldes de um condomínio, ou mesmo pela própria Autoridade Portuária.
 
Neste momento, o programa de implantação nos quatro portos selecionados está mapeando os processos portuários e aferindo os sistemas de tecnologia de informação e requisitos essenciais. No terceiro e quarto ano do projeto é que as soluções serão implementadas e o piloto do sistema começará a rodar.
 
O quinto porto brasileiro a iniciar o desenvolvimento de um PCS é o de Paranaguá (PR), que recentemente assinou um abrangente acordo de colaboração técnica com a Fundación Valenciaport. Presente no webinar, o diretor-presidente da Portos do Paraná, Luiz Fernando Garcia, afirmou que a contratação para a implantação do sistema, já consolidado em portos europeus e asiáticos, irá colaborar com o planejamento estratégico para o Porto estar preparado para os desafios do futuro.
 

“Nosso escopo de trabalho é abrangente e o encaminhamento será inovador. Estamos conversando com a Valenciaport por um longo tempo”, afirmou o diretor-presidente da Portos do Paraná.

 
Diretor do Projeto da Fundación Valenciaport, Constante disse que o trabalho de engajamento na implantação do PCS necessita fazer com que os agentes da comunidade portuária compreendam que o porto é um prestador de serviços.
 
Ele ressaltou que fatores como eficiência, segurança, confiabilidade e transparência dependem da ação de todos os atores do conjunto. “Isoladamente ninguém resolve nada nem torna um porto mais competitivo. A maioria dos governos e dos empresários ainda não têm esse conceito claro”, disse Constate.
 

Conselheiros e parceiros de negócios do Fórum Brasil Export durante webinar


 
O executivo afirmou ainda que a transformação digital dos portos vai além. A implantação do PCS é a terceira das quatro fases dessa transformação, e precede o estágio de uma comunidade portuária globalmente conectada. “Esse é um movimento que tem acontecido com mais intensidade nos últimos cinco anos. Estamos vendo plataformas das comunidades portuárias integrando-se a outras plataformas, públicas ou privadas”.
 
Como exemplo, ele apontou a integração entre o Porto de Valência e a TradeLens, plataforma digital criada pelas gigantes IBM e Maersk baseada em blockchain. “Também podemos ter o Porto de Paranaguá integrado ao de Valência. A ideia é receber informações de forma antecipada para que as operações sejam melhor planejadas”, afirmou Constante.
 
Um PCS, observou o diretor da Valenciaport, também proporciona a estandardização e a otimização do fluxo de processos de informação entre os diversos stakeholders de uma comunidade portuária. “O atual emaranhado de sistemas e a sobreposição de processos dificulta a manutenção e a evolução de tecnologias. O PCS vem para organizar isso e garantir maior eficiência na comunicação”. Entre as fragilidades ainda habitualmente encontradas nos portos brasileiros que podem ser amenizadas com os Port Community Systems estão a baixa visibilidade do fluxo de informações das cargas, o excesso de transações baseadas em papeis e até mesmo a inexistência de comunidades portuárias com agentes devidamente conectados.
 
Encerramento
Moderador do webinar, o diretor-executivo da Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados (Abtra), Angelino Caputo e Oliveira, anunciou ter sido a última videoconferência organizada pelo Brasil Hack Export, do qual é presidente do Conselho orientador.
 
O ciclo de apresentações abordaram importantes temas como Internet das Coisas e inteligência artificial, além de sistemas como o Portal Único do Comércio Exterior.
 

“Trabalhamos aqui com temas que estão mudando a sociedade em linguagem mais acessível para todos. Agora vamos focar no desenvolvimento dos hackathons”, afirmou diretor-presidente da Abtra ao anunciar fim das videoconferências do Brasil Hack Export.

 
super maratona tecnológica será promovida via internet e contará com cinco seletivas regionais e uma grande final com o objetivo de encontrar soluções para os principais desafios da cadeia logístico-portuária.