Petrobras levanta US$ 3,25 bi no exterior
Fonte: Valor Econômico (29 de maio de 2020)

Felipe Wilberg, diretor de renda fixa do Itaú BBA: não tem mercado no Brasil para operação de 10 e 30 anos — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Apesar do cenário de crise sem precedentes, a Petrobras encontrou forte demanda no mercado internacional para uma emissão de bônus. A companhia captou ontem US$ 3,25 bilhões, ao atrair perto de US$ 16 bilhões em ordens de investidores. Os recursos serão usados para reforçar seu caixa.
A operação, liderada pela Petrobras Global Finance, foi feita em duas séries. A tranche com vencimento em dez anos somou US$ 1,5 bilhão e saiu com remuneração (“yield”) de 5,60%. A outra, com prazo de 30 anos, levantou US$ 1,75 bilhão, a um taxa de retorno de 6,90%.
Os coordenadores conseguiram reduzir as taxas inicialmente sugeridas em 0,40 ponto – a sinalização inicial era de 6% (10 anos) e 7,30% (30 anos). As taxas da operação saíram com prêmio entre 5 e 10 pontos-base sobre os títulos da Petrobras de prazo equivalente negociados no mercado secundário. Em emissões soberanas recentes na América Latina, esse prêmio ficou entre 40 e 50 pontos.
“O sucesso da operação, a primeira de uma empresa brasileira pós-covid, mostra o reconhecimento e apoio que a Petrobras tem entre os investidores hoje. Diferentemente de outros países da região, ela abriu o mercado antes mesmo de uma emissão soberana”, diz André Silva, diretor da área de mercado de capitais internacional para a América Latina do BNP Paribas. O banco coordenou a operação juntamente com Bank of America, Itaú BBA, J.P. Morgan, Scotia Capital e SMBC Nikko.
O êxito da oferta da Petrobras, avalia Silva, deve impulsionar outras grandes empresas brasileiras com receitas em moeda estrangeira a acessar o mercado. “Num momento de cenário incerto, em que o caixa é relevante, estar atento a essas janelas é fundamental”, diz.
Felipe Wilberg, diretor de renda fixa e produtos estruturados do Itaú BBA, destaca que no mercado doméstico o financiamento para empresas passou a ser de curto prazo. “Para uma operação nesse tamanho e com prazo de 10 e 30 anos não tem mercado hoje no Brasil”, diz Wilberg, lembrando que os fundos de crédito privado vêm sofrendo resgates, e falta demanda por aqui hoje. O executivo afirma que outras empresas preparam emissões externas, mas sem euforia. “Não serão 10 ou 20 operações, mas uma ou outra empresa que precise dar andamento a investimentos, por exemplo.”
A explicação para a demanda pelos papéis da Petrobras passa pelo cenário de juros muito baixos pelo mundo, e a busca dos investidores por um incremento de remuneração. “Existe muita liquidez, mas não é para todo mundo. Está concentrada em empresas de porte maior, que acessam o mercado com frequência”, diz Silva, do BNP. Segundo ele, a Petrobras pensava inicialmente numa oferta de US$ 2,5 bilhões e queria preservar a melhor condição de taxa possível. “Pela demanda, a operação poderia ter sido ainda maior, mas a opção foi por preservar os custos. As taxas saíram praticamente nos níveis pré-covid”, afirma.
A Petrobras aproveitou uma janela de mercado, em função da recuperação dos preços do petróleo. O mercado externo de dívida chegou a fechar na crise, por conta de taxas disfuncionais. Mas reabriu rapidamente depois que o Fed anunciou um programa trilionário de compra de papéis no secundário, o que acalmou os spreads. As taxas foram caindo para os papéis ‘high grade’ (menor risco) e ‘high yield’ (alto risco); e agora os investidores têm voltaram a atenção também para emergentes.
Já há expectativa no mercado para que a operação de Petrobras também contribua para reduzir as taxas no mercado doméstico. Nas contas de um investidor, se a empresa buscasse a conversão para reais, as remunerações seriam equivalentes a CDI + 3% no papel de 10 anos e CDI + 4,35% no de 30 anos – grandes empresas têm captado nessas taxas aqui, mas com prazo de um ou dois anos. A própria Petrobras, segundo fontes, sondou o mercado para emitir uma debênture de infraestrutura, cuja remuneração rondaria IPCA + 6%. A Petrobras não deu entrevista.