Pandemia volta a derrubar bolsas no mundo
Fonte: Valor Econômico (29 de outubro de 2020)

Em Wall Street, o índice Dow Jones encerrou com desvalorização de 3,43%; novas restrições na Europa devem afetar economia — Foto: Courtney Crow/AP
A relativa indiferença com que os investidores globais vinham encarando a piora na trajetória da pandemia de covid-19 na Europa e nos Estados Unidos se transformou em pânico no pregão de ontem. A expectativa – que no fim do dia se confirmou – de que França e Alemanha iriam anunciar novas restrições à atividade econômica para frear o contágio do vírus disparou uma forte onda de aversão global ao risco, derrubando ações ao redor do mundo.
O cenário, segundo analistas, é agravado pelas incertezas políticas em Washington. A proximidade das eleições americanas e o fracasso de líderes eleitos nos Estados Unidos em aprovar novas medidas de estímulo à economia lançam ainda mais dúvidas sobre a recuperação da economia do país.
Na Bolsa de Valores de Nova York, o Dow Jones encerrou o dia em queda de 3,43%, a 26.519,95 pontos – menor nível desde julho -, enquanto o S&P 500 recuou 3,53%, a 3.271,03 pontos. O índice eletrônico Nasdaq fechou em baixa de 3,73%, a 11.004,87 pontos.

Em outro sinal dos receios dos agentes financeiros, o VIX, índice de volatilidade do S&P 500, disparou 20,78% e fechou o dia aos 40,28 pontos. O “termômetro do medo de Wall Street”, como é conhecido o indicador, não fechava em nível tão elevado desde junho.
“Até que o vírus seja contido, não deve haver uma direção clara de curto prazo para os mercados”, disse Laith Khalaf, analista financeiro da AJ Bell, à “Dow Jones Newswires”. “Podemos esperar movimentos bruscos de queda e de alta, em linha com as idas e vindas do vírus e os danos econômicos que ele deixa para trás.”
O número diário de novos casos nos EUA voltou a superar os 70 mil na terça-feira, depois de bater o recorde de mais de 80 mil na sexta-feira. O país registrou 500 mil novos casos na semana passada, segundo o “New York Times”, maior marca desde o início da crise.
“Os casos crescentes de covid-19 nos EUA ainda não levaram a novas restrições significativas, em contraste com o que tem ocorrido na Europa, mas eles se somam aos riscos de queda na atividade econômica decorrentes do enfraquecimento do estímulo fiscal”, afirmou o chefe de macroestratégia de EUA da TD Securities, Jim O’Sullivan.
Na Europa, a deterioração da situação de saúde pública culminou na adoção de novas medidas de restrição ontem. O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou um novo “lockdown” em todo o país a partir de sexta-feira, medida que ficará em vigor até 1º de dezembro. Na Alemanha, Angela Merkel confirmou que o país entrará novamente em confinamento para conter a alta de casos. A medida, que valerá por um mês, prevê que restaurantes, academias e teatros fiquem fechados. Escolas e creches, no entanto, seguem abertas.
A reação dos mercados à expectativa dos anúncios foi fortemente negativa. O índice Stoxx 600 fechou em seu menor nível desde maio – a queda foi de 2,95%. Em Londres, o FTSE 100 recuou 2,55%, em Frankfurt, o DAX caiu 4,17% e, em Paris, o CAC 40 perdeu 3,37%.
O movimento de aversão ao risco também elevou a diferença entre os rendimentos dos títulos considerados como seguros e arriscados da zona do euro. Enquanto a taxa do Bund alemão de 10 anos recuou a -0,623%, o juro do BTP italiano avançou a 0,767%, ante 0,708% do fechamento anterior.
Apesar dos desafios do continente para dar continuidade ao processo de recuperação da economia, o Banco Central Europeu (BCE) não deve anunciar novas medidas em sua decisão de hoje. Agentes financeiros, no entanto, ressaltam que a instituição pode abrir caminho para que uma flexibilização adicional seja anunciada na reunião de dezembro.
“Não esperamos nenhuma ação concreta da reunião do BCE desta semana, mas a preparação de uma expansão das compras de ativos no âmbito do PEPP [Pandemic Emergency Purchase Program, em inglês] para a reunião de dezembro é muito provável”, afirmou ao Valor o economista-chefe do Julius Baer, David Kohl.
“À medida que o BCE esgotou uma série de seus instrumentos tradicionais, como a fixação de taxas de juros de curto prazo, ele se esforça para garantir condições de financiamento favoráveis, reduzindo os níveis de rendimento e comprimindo os spreads. Em ambos os casos, o BCE tem conseguido até agora e fará isso nos próximos três meses”, afirma Kohl.
Outro fator que justifica a postura mais paciente da autoridade monetária europeia, segundo analistas, tem relação com o estilo de liderança de Christine Lagarde à frente do BCE. “É como se eles [autoridades do BCE] primeiro tentassem obter mais dados para ver o que realmente está acontecendo com a economia. Sabemos que há um aumento nos casos de covid-19, mas isso, por si só, não é suficiente para justificar mais flexibilização”, disse ao Valor o economista Davide Oneglia, da TS Lombard.
“Isso deve comprar mais tempo junto ao Conselho para que haja uma decisão o mais compartilhada possível”, afirmou Oneglia, apontando que a busca pelo consenso é uma das diferenças que já surgem entre o modo de gestão de Lagarde em relação a seu precursor, Mario Draghi.