Pandemia reforça necessidade de revisões permanentes na carreira
Fonte: Valor Econômico (05 de abril de 2021)

O colunista Renato Bernhoeft afirma que, no âmbito profissional, a covid-19 gerou ainda mais impactos que demandam repensar autodesenvolvimento, educação formal, vida corporativa e ambiente de trabalho- Imagem: iStock
As abordagens sobre os impactos que a covid-19 tiveram sobre todos nós ampliam-se a cada dia. Inicialmente houve uma grande preocupação no preparo, tanto individual como tecnológico, sobre a continuidade do trabalho. Além das questões dos espaços até então domiciliares e exclusivos para redes de internet houve o desafio da adequação de espaços físicos. Salas de estar, quartos e até cozinha transformaram-se em “escritórios”. Ou seja, sem compartilhar ambientes e colegas de forma física e os cuidados para lidar, de forma eficaz, com toda a tecnologia disponível.
As próprias empresas criaram elementos de apoio para que as pessoas pudessem continuar suas tarefas ficando em casa. As orientações e recursos centravam no uso adequado da tecnologia e na manutenção do isolamento no ambiente residencial. Mas à medida em que os dias foram passando, com este novo cenário, surgiu também a necessidade de apoio psicológico e emocional para grande parte dos profissionais que sentiam falta do convívio com os colegas.
Como lidar com a convivência entre parceiros, filhos, família em geral, todos juntos no mesmo espaço físico? Como permitir que cada um, num ambiente mais restrito, possa continuar se sentindo produtivo, participativo e mantendo uma vida que preserve o sentido, frente aos novos desafios impostos pela pandemia?
Mas, neste artigo, gostaria de abordar uma questão mais ampla que vinculo a um projeto de vida. Ou seja, a uma revisão dos papéis que vivemos ao longo da nossa existência. É preciso reconhecer que este desafio não é novo, apenas se acentuou diante da fase atual. De maneira geral, tanto a educação família bem como o sistema formal não educam as pessoas para que se apropriem da sua história e personagem que irão desempenhar. É muito comum construir projetos e objetivos a partir de estímulos e comparações com outras pessoas, gurus, instituições, mecanismos de autoajuda, movimentos religiosos, entre outros.
Vale registrar que, paralelamente, o aumento da longevidade e a redução dos índices de natalidade provocam novos desafios que se acentuaram no início do século XXI. Ou seja, vivemos mais e isto requer uma revisão de planos para uma etapa com a qual poucos se preocupavam ou tiveram algum preparo. Quando falamos de projeto de vida nos referimos à importância de pensar de uma forma mais ampla nos papéis que vivemos.
Sem ser conclusivo ou abrangente, vale pensar em questões relativas à vida profissional, individual, familiar, social, educacional e até espiritual. Quanto ao papel profissional, a pandemia gerou ainda mais impactos que demandam repensar carreira, autodesenvolvimento, educação formal, vida corporativa e ambiente de trabalho. Sabemos, perfeitamente, que não existem mais profissões ou carreiras para a vida toda.
Paralelamente às diferentes etapas da vida o universo do trabalho vem sofrendo alterações radicais. Novas profissões, carreiras que se tornaram obsoletas, demandas muito mais complexas e profundas transformações no mundo corporativo exigem que cada um cuide do seu encaminhamento. Não mais as empresas, universidades, institutos e gurus vão resolver as questões que tocam cada um de nós. É nossa responsabilidade estar atento as novas demandas de maneira permanente e assumindo o autodesenvolvimento como responsabilidade própria.
No âmbito familiar também temos significativas mudanças. Os modelos familiares estão em profunda transformação, concordemos ou não com elas. A relação de parceiros, acompanhada pelo rever a questão de gênero e educação dos filhos representam um rol de novas e importantes demandas. A questão também da individualidade requer análise. E, por favor, não confundir com individualismo. Estamos falando daquilo que se refere a cada um em suas características, princípios, valores e conduta ética.
A vida em sociedade já não é a mesma dos séculos passados. Deslocamentos, compatibilidade de interesses, etapa de vida, diversidade e até aceitação das diferenças nos colocam frente a revisões de uma série de práticas que precisam ser revistas. Os papéis educacional e espiritual podem até mesmo serem agrupados. Ou seja, não basta ampliar conhecimento, é necessário encontrar um sentido para a vida à medida em que continuamos firmes em nossos propósitos.
Aqui está um conjunto de provocações para o início de algumas reflexões que cabem a cada um a realização. Assuma seu compromisso e aceite a importância de revisões permanentes.