Pandemia agrava fraquezas em IDH e competitividade

Fonte: Valor Econômico (22 de dezembro de 2020)

Dois novos estudos globais ajudam a dimensionar os gigantescos desafios que o Brasil terá que enfrentar assim que superar a crise sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus. Um deles é o do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), calculado pela Organização das Nações Unidas (ONU); e o outro é a avaliação de como um grupo de quase quatro dezenas de países podem emergir da crise, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês).
 
O levantamento feito pela ONU mostra que o Brasil já entrou em desvantagem na pandemia na comparação com os demais países, no ranking do IDH, que leva em consideração saúde, educação e distribuição de renda. Apesar de ter melhorado ligeiramente sua pontuação, de 0,761 de 2018 para 0,765 pontos em 2019, o Brasil caiu cinco posições no ranking atual, recuando do 79º para o 84º lugar entre 189 países avaliados. O simples motivo é que os outros países avançaram mais.
 
A Colômbia, por exemplo, que estava empatada com o Brasil em 2018, ficou um posto à frente no ano passado. Até a Argentina em aguda crise econômica, fica à frente, no 46º lugar. O IDH do Brasil é também menor do que o do Chile, do Uruguai e do Peru. Na América Latina, está à frente apenas do Suriname, Paraguai, Bolívia, Venezuela e Guiana.
 
Os dados da ONU mostram que é a falta de avanços na educação que está afetando o desempenho do Brasil. O período em que as pessoas ficam na escola estagnou em 15,4 anos desde 2016. A média de tempo de estudo foi de 7,8 anos em 2018 para 8 anos em 2019. Já a expectativa de vida era de 75,9 anos em 2019, um pouco maior que a registrada um ano antes (75,7). Em 2015, eram 75 anos. A renda per capita anual também não ajuda: era de US$ 14.775 em 2015, quando começou o recente período recessivo, desabou para US$ 14.182 em 2018 e recuperou um pouco para US$ 14.263 em 2019.
 
Quanto o ranking é ajustado levando em conta a igualdade social de acordo com o índice de Gini, a posição do Brasil despenca 20 pontos, para o 104º lugar. O índice de desigualdade de renda do Brasil é maior do que a média da América Latina, aponta o levantamento. A parcela dos 10% mais ricos do país concentra 42,5% da renda total; e o 1% mais rico abocanha 28,3% da renda. É a segunda maior concentração do mundo, ficando atrás apenas do Qatar, que tem 29% da riqueza nas mãos de 1%.
 
O Fórum Econômico Mundial complementa a análise ao expor como executivos avaliam que 37 países vão sair da crise sanitária, levando com conta o ambiente, novos mercados, inovação e capital humano, desdobrados em onze áreas. O Brasil fica abaixo da média em todos os pontos, segundo as entrevistas. O Brasil é o segundo pior país, quando se examina o currículo abordado na educação e sua preocupação em oferecer a qualificação necessária para o mercado de trabalho do futuro, ficando à frente só da Grécia.
 
Segundo o relatório do WEF, os países têm que oferecer uma educação focada nas habilidades necessárias para os empregos e “mercados de amanhã”. Requalificação, aprimoramento e atualizações de currículos de educação são fundamentais para preparar os trabalhadores e alcançar a prosperidade inclusiva, sublinha o WEF. A educação formal tradicional não é mais suficiente para fornecer oportunidades de emprego e construir capital humano. Os sistemas educacionais devem ser atualizados para fornecer habilidades digitais e de pensamento crítico, bem como aprendizagem contínua e qualificação por meio de programas públicos e privados.
 
O Brasil também fica entre os três piores países em termos de confiança no governo e corrupção, só atrás do México e da Rússia. A pesquisa do WEF constatou que os executivos avaliam que as instituições públicas não possuem princípios de governança sólidos e visão de longo prazo, nem inspiram confiança entre os cidadãos. Para o Fórum, as instituições precisam ser cada vez mais transparentes e eficientes e trabalhar pela equidade.
 
A pandemia terá impacto devastador nesses números, que já partem de patamares ruins. Pela primeira vez, o Programa da ONU para Desenvolvimento (Pnud) prevê uma queda no IDH global e o Brasil não será exceção. A pandemia afetou fortemente as três dimensões analisada — saúde, educação e PIB. Tudo reforça a necessidade de mudanças, que já deveriam ter começado, especialmente no campo da educação, que tem a vantagem de repercutir diretamente na redução da desigualdade.