ONU prepara metodologia que estima valor da economia além do PIB
Fonte: Valor Investe (03 de março de 2021)

As Nações Unidas estão finalizando uma nova métrica para os países calcularem sua riqueza. A estatística vai além do PIB e considera o capital natural — as contribuições das florestas, dos oceanos e outros ecossistemas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que a economia global cresceu quase cinco vezes nas últimas cinco décadas, mas a um grande custo ambiental. Guterres vem defendendo que é essencial dar preço ao carbono e valorizar a natureza.
“Os recursos da natureza ainda não aparecem nos cálculos de riqueza e bem-estar dos países”, disse Guterres, em nota à imprensa. “O sistema atual está voltado à destruição, não à preservação”.
“Devemos refletir o verdadeiro valor da natureza nas nossas políticas, planos e sistemas econômicos” , seguiu Guterres.
Mais da metade do PIB global depende da natureza. A estimativa da ONU é que o capital natural diminuiu 40% em pouco mais de 20 anos. A atividade humana alterou severamente 75% do planeta terrestre e 66% do ambiente marinho.
Um novo sistema de contabilidade, que relaciona dados econômicos a dados ambientais, pode ser aprovado pela Comissão Estatística das Nações Unidas na semana que vem.
Mais de 100 especialistas de diversas disciplinas e países estiveram envolvidos neste esforço. Cerca de 500 especialistas revisaram as versões finais em consulta global.
O System of Environmental-Economic Accounting-Ecosystem Accounting (SEEA EA) “marca um passo adiante para incorporar o desenvolvimento sustentável ao planejamento econômico e nas decisões de políticas públicas, e pode ter um impacto significativo na maneira em que se enfrentam emergências ambientais, incluindo mudança do clima e perdas de biodiversidade”, diz a nota.
Embora uma métrica como o PIB indique o valor dos serviços e das mercadorias e as trocas nos mercados, não reflete a dependência da economia à natureza, nem seus impactos como a poluição do ar ou as perdas florestais.
A intenção do novo sistema é considerar, por exemplo, o papel que floretas têm ao fornecer água limpa às comunidades.
O processo de aprovação inicia na sexta-feira e pode ser adotado na semana que vem. Se adotado, pode provocar uma grande diferença na maneira em que dados econômicos são reportados nos relatórios.
O relatório final da nova metodologia tem mais de 360 páginas.
“Tratamos a natureza como se fosse gratuita e ilimitada”, diz Elliot Harris, economista-chefe da ONU e secretário-adjunto para o desenvolvimento econômico. “Degradamos a natureza e a usamos sem estarmos realmente cientes do que estamos fazendo e quanto perdemos no processo”.
Os países gastam globalmente entre US$ 4 trilhões e US$ 6 trilhões ao ano em subsídios que causam danos ambientais, segundo estimativas da ONU.
Há 34 países que já vêm adotando uma contabilidade ecossistêmica.