OMS diz que 'passaporte de imunidade' ainda é inviável

Fonte: Valor Econômico (27 de abril de 2020)

Foto: Martial Trezzina/AP


Os chamados “passaportes de imunidade” não devem ser usados como estratégia para flexibilizar as quarentenas contra o novo coronavírus, afirmou a Organização Mundial da Saúde (OMS) em novo relatório técnico, publicado na noite de sexta-feira (24).
 
O documento, que revê 20 estudos científicos, diz que “não há evidências de que as pessoas que se recuperaram de covid-19 (doença provocada pelo vírus) e tenham anticorpos estejam protegidas contra uma segunda infecção”.
 
O risco é que pessoas com resultado positivo no teste passem a ignorar conselhos de saúde público, por se considerarem imunes a uma segunda infecção.
 
“O uso de tais certificados pode, portanto, aumentar os riscos de transmissão continuada”, conclui a recomendação técnica.
 
Os “passaportes de imunidade” seriam baseados em testes para medir anticorpos (produzidos pelo corpo para combater e vencer um invasor) específicos para o novo coronavírus.
 
A OMS ressalta que a imunidade a um patógeno é um processo que envolve várias reações do organismo, em geral ao longo de uma ou duas semanas.
 
Ao ser infectado por um vírus, o corpo responde imediatamente com células chamadas de macrófagos, neutrófilos e células dendríticas, que retardam o progresso do vírus e podem até impedir que ele cause sintomas.
 
Essa resposta é inespecífica, ou seja, é uma reação a qualquer vírus invasor. Em seguida, o corpo produz proteínas chamadas imunoglobulinas, os anticorpos, que se ligam especificamente ao vírus.
 
O corpo também produz células T que reconhecem e eliminam outras células infectadas pelo vírus. Isso é chamado de imunidade celular.
 
Essa resposta adaptativa combinada pode eliminar o vírus e, se for forte o suficiente, pode impedir a progressão para uma doença grave ou reinfecção pelo mesmo vírus.
 
Esse processo é frequentemente medido pela presença de anticorpos no sangue.
 
Segundo a OMS, a maioria dos estudos feitos durante a pandemia mostra que as pessoas que se recuperaram da infecção têm anticorpos para o Sars-Cov-2 (nome do novo coronavírus).
 
No entanto, algumas dessas pessoas têm níveis muito baixos de anticorpos, o que pode indicar que as outras reações inespecíficas também podem ser críticas para a recuperação.
 
Imprecisão
Até esta sexta, segundo a OMS, nenhum estudo avaliou se a presença de anticorpos para o Sars-Cov-2 confere imunidade a infecções subsequentes por esse vírus em humanos.
 
Além disso, testes de laboratório que detectam os anticorpos específicos não tiveram sua precisão e confiabilidade comprovados até agora, alerta a organização.
 
Ainda não há certeza de que eles são capazes de distinguir com precisão infecções passadas por Sars-Cov-2 das infecções por algum dos outros seis coronavírus humanos (quatro de resfriados comuns e os que provocam a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave).
 
Segundo o relatório da OMS, “pessoas infectadas por qualquer um desses vírus podem produzir anticorpos que reagem de maneira cruzada com anticorpos produzidos em resposta à infecção por Sars-Cov-2″.
 
A imprecisão pode levar a dois erros: pessoas que foram infectadas podem ter um resultado falso negativo, e não infectados podem ter resultado falso positivo.”Ambos os erros têm sérias consequências e afetarão os esforços de controle.”
 
A OMS apoia os testes de anticorpos feitos em grupos específicos — profissionais de saúde, contatos próximos de casos conhecidos ou dentro das famílias — ou em estudos populacionais, para compreender a extensão e os fatores de risco associados à infecção.
 
Segundo a organização, porém, esses estudos não foram projetados para determinar se essas pessoas são imunes a infecções secundárias.