O lado B dos executivos durante a quarentena
Fonte: Valor Econômico (30 de abril de 2020)

Adriana Ueno, diretora de gestão e planejamento de pessoas da Vivo, depois de muito estresse na quarentena, voltou a tocar piano e até montou uma banda com os filhos — Foto: Divulgação
Tão logo o home office foi recomendado em São Paulo, Carlos Miranda, CEO da X8 Investimentos, percebeu que teria algumas horas livres todos os dias com a redução dos deslocamentos pela cidade e a ausência da habitual conversa improdutiva no começo de cada reunião – o que tende a diminuir nos encontros virtuais, que acabam sendo mais diretos. Surgiu, então, a ideia de disponibilizar gratuitamente esse tempo livre em mentorias para empreendedores que precisassem de auxílio neste momento. “Foi uma forma que vi de continuar cumprindo o nosso propósito de apoiar os pequenos e médios a crescerem e causarem impacto positivo”, diz. “O empreendedor médio é sozinho, não tem com quem dividir, mais ainda em momentos de crise.”
Miranda anunciou a iniciativa para seus contatos e nas redes sociais e teve uma surpresa. “Percebi a quantidade enorme de pessoas querendo fazer o mesmo, querendo ser voluntário como mentor”, conta. Isso fez com que o número de voluntários somasse o dobro do número de pessoas que pediram mentoria. Hoje há 50 mentores envolvidos, sendo 10 da X8 Investimentos, e 25 empresas mentoradas.
Com o tamanho que a iniciativa tomou, Miranda estruturou o programa em fases. Primeiro, a equipe da X8 Investimentos seleciona quem vai receber a mentoria e na triagem inicial identifica as competência que dispõe internamente para dar o apoio. Assim, o primeiro encontro é feito com um mentor da X8 Investimentos e em um segundo momento, com as primeiras questões do empreendedor já detectadas, um voluntário com experiência naquele assunto entra para uma segunda rodada de mentoria. Nos próximos passos, há encontros entre todos os mentorados e mentores, para uma troca mais ampla de informações e conhecimento. “Já saiu até negócio entre as empresas”, diz Miranda.
Todas as conversas estão sendo gravadas e vão gerar uma espécie de manual de sobrevivência para outros empreendedores usufruírem do conteúdo. “Estamos em contato com muitas empresas, aumentando nosso ‘pipeline’. Quem sabe alguma delas vira investida no futuro.”
A X8 Investimentos nasceu a partir da BR Opportunities, que investiu em empresas como Mãe Terra, depois vendida para a Unilever, e Flores Online. A mudança de nome da gestora marca a mudança de foco do fundo, que agora é 100% destinado a negócios de impacto.
Além das mentorias durante a quarentena, Carlos, que é maratonista, continua encontrando tempo para se exercitar, e encontrou um novo prazer: cozinhar com o filho de 15 anos. “É almoço e jantar todo dia. Estou adorando”, diz. A filosofia dele neste momento é “fazer o melhor dentro do que a gente tem”.
“A maior diferença é que estou há seis semanas descalça”, diz Cristina Palmaka, presidente da SAP
A rotina intensa com os filhos também fez a diretora de gestão e planejamento de pessoas da Vivo resgatar um prazer antigo: a música. Com três crianças pequenas em casa – 9, 7 e 5 anos -, Adriana Ueno se viu de repente no papel de professora, assim como muitos pais nesta quarentena. “Voltei a estudar e a tocar piano para ajudá-los com as aulas de música”, conta. O entrosamento rendeu até uma banda em família. “Temos bateria, guitarra e piano em casa, então tocamos juntos”, diz. “Estou até me aventurando a aprender guitarra.”
O relato acima não significa, no entanto, que o isolamento social foi calmo e tranquilo desde o início. “No começo eu me sentia culpada por não dar conta de tudo e isso gerava ansiedade, estresse. Foi então que pensei: preciso me cuidar mais para passar por essa quarentena.”
A música entrou um pouco por isso na rotina de Adriana, “pois acaba trazendo calma. É como um exercício de mindfulness”. A meditação, aliás, também foi incluída no dia a dia da executiva. “Meus filhos mais novos já tinham essa prática na escola e eu adotei agora”, relata Adriana. Ela também levou algumas técnicas do mundo corporativo, como a metodologia ágil, para organizar a rotina em casa. Cada um dos cinco integrantes da família tem o seu “kanban” – um quadro cheio de post-its com anotações que ajudam a controlar as tarefas. No café da manhã, uma espécie de reunião matinal dá um caminho do que as crianças precisam fazer naquele dia, e como os pais podem ajudá-las. “Isso os ajuda a ter foco”, diz. “Eles estavam com um atraso gigantesco na rotina escolar, e isso os auxilia a ter mais disciplina.”
Também com filhos pequenos em casa – 8 e 9 anos -, Marcos Matias, presidente da Schneider Electric no Brasil, já se acostumou com as interrupções dos pequenos vez ou outra, seja na sala dele ou na sala das pessoas de sua equipe. “A gente está conhecendo mais como cada um é no dia a dia”, diz.
Nos primeiros dias de home office, Matias se sentiu sobrecarregado. Logo percebeu o porquê. “Eu me dei conta que não estava bloqueando o horário do almoço na agenda, então, claro, as pessoas marcavam reunião nesse intervalo. Nos primeiros 20 dias teve a sensação de não ter tempo para mais nada. Com o passar do tempo, ele conta que conseguiu ter mais clareza sobre quais momentos deve estar conectado.
A rotina, aliás, continua sendo mantida na casa do executivo. “Percebi que disciplina e rotina eram fundamentais para que tudo funcionasse, então as crianças continuam dormindo no mesmo horário.” O tempo que ele gastava para levar os pequenos na escola continua sendo dedicado aos filhos. “Participo do café da manhã com eles e tenho recomendado o mesmo para a minha equipe.”
O hábito de praticar atividade física também levou um tempo de ajuste. Matias diz que já tinha os exercícios em sua rotina, mas nas duas primeiras semanas não conseguiu encontrar tempo para isso. “Preparei um espaço em casa e voltei a colocar os exercícios na minha rotina.” Tomar sol agora também entra na lista de coisas a fazer ao longo do dia. “Coloco o computador perto do sol. É uma coisa que a gente não se dava conta no escritório.”
Marcos Matias, presidente da Schneider Electric, voltou a se exercitar depois de 20 dias se sentindo sobrecarregado
As reuniões na hora do almoço, um costume de Cristina Palmaka, presidente da SAP, também tiveram que ser revistas – assim como aconteceu com Matias, da Schneider Electric. “Agora eu tenho que fazer o almoço ou buscar a comida que a gente pede no delivery parar para comer com meu marido e minha filha, então tive que reajustar”, diz. De resto, a rotina de Cristina continua regrada. “Sou uma pessoa organizada, já tinha uma rotina estabelecida e continuo acordando no mesmo horário, às 5h45, faço meu exercício e tomo café com calma.”
Maratonista, Cristina e o marido alugaram uma esteira ergométrica logo que o isolamento social foi decretado. “Mudamos a disposição das coisas na varanda e nos exercitamos lá.” Além das caminhadas e corridas, a executiva segue fazendo musculação e continua se arrumando e se maquiando diariamente. “Apenas a roupa está mais casual. A maior diferença é que estou há seis semanas descalça”, brinca.
A questão da roupa também foi mencionada por Matias, da Schneider Electric. “As pessoas estão mais descontraídas no jeito de se vestir. Eu mesmo nunca fiz tantas reuniões de chinelo”, brinca. “Antes já se falava disso, de tirar o formal da maneira de se vestir, e hoje estamos vendo que as pessoas são produtivas com qualquer vestimenta.”
Embora tenha uma agenda de trabalho que vai das 8h às 20h, Cristina tem encontrado algum tempo livre, que está sendo aproveitado principalmente com leitura. “Resgatei os livros da minha ‘wish list’”.
Nos encontros virtuais com a equipe, uma mudança: se antes não existia o hábito de ligar a câmera nos “calls”, agora isso é regra. “Coloquei como diretriz, para ter o olho no olho. É uma possibilidade de captar como a pessoa está, saber se alguém está precisando de ajuda”, diz.
A atenção com o estado psicológico das pessoas também é uma preocupação de Gabriela Viana, diretora de marketing da Adobe para a América Latina. “Temos que ter um entendimento melhor da questão emocional”, afirma. “Tem dia que a pessoa não produz tão bem, é preciso respeitar e entender o que está acontecendo. Já era importante, mas agora é especialmente relevante.” A executiva conta que metade das ligações com os líderes de sua equipe é para conversar sobre o dia a dia. “É um espaço para que eles possam compartilhar.”
Happy hours virtuais com a equipe também têm sido frequentes. “Todo mundo está inseguro, ninguém tem controle da situação, então esses encontros são legais, porque estamos sentindo falta da interação.”
Gabriela, que já praticava meditação com auxílio de um aplicativo, continuou com esse hábito durante o isolamento social e ampliou a prática ao entrar em um grupo de WhatsApp sobre o tema. Novos hábitos, no entanto, ainda não encontraram espaço na vida da executiva. Com duas filhas em casa -17 e 8 anos – e uma pós em neurociência em andamento, Gabriela assume que, no seu caso, não está sobrando tempo.