No Brasil, aéreas reduzem voos
Fonte: Valor Econômico (19 de abril de 2021)

A segunda onda de covid-19, que faz o Brasil bater novos recordes a cada dia na pandemia, tem frustrado qualquer tentativa do setor aéreo de voltar à normalidade. Desde fevereiro, as companhias aéreas que operam no país estão revisando para baixo sua oferta de assentos. A Latam pretende operar neste mês com apenas 190 voos por dia no Brasil -eram 345 estimados para março. A Gol planeja 185 decolagens por dia – em março eram 245. Até mesmo a Azul, que tem mantido mais rotas, planeja em abril cerca de 450 voos diários – a estimativa anterior era de 600.
A malha aérea doméstica do Brasil neste mês, até sexta-feira, correspondia a 36,8% da oferta de voos registrada no início de março de 2020, antes das medidas de isolamento social, segundo levantamento da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). Atualmente, as empresas aéreas nacionais registram uma média de 882 partidas diárias, menor nível desde setembro do ano passado, quando havia 864 decolagens.
O dado mostra uma piora no cenário, uma vez que a pesquisa anterior, dos primeiros cinco dias de abril, apontou média diária de 960 voos. É o terceiro mês consecutivo de encolhimento da malha.
A Gol, maior companhia aérea do Brasil, planeja para abril 185 decolagens por dia. Em março, foram 245 voos diários, queda de 23% na comparação com fevereiro. “A companhia suspendeu temporariamente o serviço próprio para nove cidades, que começam a ser parcialmente retomadas já em maio”, informou a empresa ao Valor. Para maio, a empresa planeja 234 decolagens por dia – número que em igual mês de 2019, quando não havia pandemia, foi de 635.
No mês passado a Gol já havia sinalizado que abril seria difícil, ao convidar seus clientes a remarcar passagens. Em março, a taxa de ocupação foi 71,8%, um percentual elevado ao se analisar o indicador ao redor do mundo (na casa de 64% em fevereiro, segundo dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo, Iata), mas baixo para a média da empresa, que costumou voar na pandemia com ocupação mais próxima de 80%.
Com a crise, a estimativa da Latam é operar até 190 voos diários em abril dentro do Brasil. O número representa uma guinada pessimista nas projeções da empresa. Sua última estimativa publicada, no dia 12 de março, previa 345 voos domésticos por dia – quase o dobro do que deve operar em abril. A empresa pretende operar 16% da sua capacidade internacional por aqui, mesmo nível de março.
A Azul espera operar entre 420 e 450 voos por dia em abril. No início de março, o presidente da companhia aérea, John Rodgerson, disse que a empresa foi obrigada a rever sua estratégia diante da segunda onda de covid-19. Na época, a estimativa era operar cerca de 600 voos por dia em março e abril.
Mesmo com a crise, a Azul tem sido a empresa a manter o maior número de voos no país. Em conversa na quarta-feira passada com a equipe de analistas do Goldman Sachs, os executivos da Azul disseram que a resiliência na demanda vem sobretudo da maior diversificação das suas rotas, não tão limitadas aos eixos Rio-SP e SP-Brasília, que foram mais afetados durante a segunda onda de covid-19.
A analista de bens de capital e transportes do Itaú BBA, Thais Cascello, destacou que a estratégia da Azul de pôr mais capacidade pode representar um risco caso o cenário se agrave ainda mais. “A Gol tem feito isso aos poucos”, disse a analista ao Valor. Por outro lado, a Gol teria a oportunidade de crescer no mercado diante do encolhimento da Latam, que está em recuperação judicial nos Estados Unidos. “No pré-crise, a sobreposição de rotas de Gol e Latam era de 90%”, disse.
A estimativa é de um aumento de capacidade com mais força apenas em 2022. “A gente acredita que as duas empresas [Gol e Azul] terão de acessar o mercado de capitais mais uma vez”, disse.
A Latam entrou em recuperação judicial nos Estados Unidos e conseguiu US$ 2,4 bilhões com acionistas e credores. A Gol precificou no ano passado uma colocação privada de dívida sênior no valor principal de US$ 200 milhões.
Já a Azul captou de R$ 1,7 bilhão no quarto trimestre do ano passado por meio de emissão de debêntures conversíveis, tendo como investidores âncoras a Knighthead Capital e a Certares Management. Os investidores já se comprometeram a submeter uma ordem no valor adicional de US$ 100 milhões caso a Azul decida realizar uma nova oferta pública. A empresa tem até outubro para tomar essa decisão.
A demanda no mercado brasileiro mostra o descompasso do país com regiões do mundo em que a vacinação tem caminhado mais rapidamente. Na semana passada, a American Airlines disse que está se preparando para operar com programação perto da normalidade no verão no hemisfério Norte (meio do ano).
A também americana Delta ressaltou, em balanço sobre o primeiro trimestre, que sua operação começou a gerar caixa novamente em março, pela primeira vez em um ano, e sinalizou que o pior da pandemia ficou para trás.
A Qantas, maior empresa aérea australiana, projetou que a capacidade doméstica no segundo trimestre deve atingir 90% do nível pré-covid, sustentado pela retomada da demanda de turismo e corporativa.