Navios saem da China mais vazios, aponta levantamento

Fonte: Valor Econômico (06 de fevereiro de 2020)

Para Luigi Ferrini, vice-presidente da Hapag-Lloyd no Brasil, haverá desabastecimento caso a crise se prolongue — Foto: Silvia Zamboni/Valor


A crise global do coronavírus deverá provocar uma queda nas exportações da China para o Brasil dentro de três a quatro semanas, quando os navios com a carga que deixaram o país asiático nos últimos dias começarão a chegar à costa brasileira, segundo executivos e analistas do setor.
 
As embarcações têm saído da China com uma ocupação bastante abaixo da registrada no passado, segundo dados preliminares de um levantamento da Solve Shipping sobre a crise.
 
“O feriado do Ano Novo chinês foi estendido e diversas fábricas estão fechadas, com dificuldade para produzir ou escoar seus produtos até os terminais portuários. Há também portos fechados”, diz Leandro Barreto, sócio da consultoria.
 
Tradicionalmente, as empresas de navegação reduzem de forma significativa sua operação nos terminais chineses durante o feriado do Ano Novo no país, que é comemorado no dia 25 de janeiro. Para compensar, as duas semanas que antecedem a data e as duas seguintes são, em geral, fortes – o que, no entanto, não tem ocorrido neste ano, devido ao prolongamento forçado do recesso.
 
Armadores também veem uma clara redução nos últimos dias. “É um fato que o volume caiu”, afirma Luigi Ferrini, vice-presidente da empresa de navegação Hapag-Lloyd no Brasil.
 
Para ele, ainda é cedo para falar em um possível desabastecimento no país, mas, caso a parada nas fábricas chinesas se estenda por mais uma semana, o risco passa a ser maior, diz o executivo. “No Brasil, a logística é menos precisa que nos Estados Unidos e na Europa, e os estoques são maiores. Mas caso a situação se prorrogue por mais uma semana, há risco de desabastecimento.”
 
Nos últimos dias, fabricantes de veículos nos EUA e Europa já têm anunciado que a crise poderá levar ao fechamento de fábricas.
 
Em relação à exportação de produtos brasileiros para a China, o impacto já tem se concretizado, aponta a Solve Shipping. O problema é o mesmo: além de parte dos terminais terem fechado ou reduzido sua operação, a paralisação de fábricas reduziu a demanda por matérias-primas importadas do Brasil.
 
Um sinal concreto disso, segundo Barreto, é que o frete do Brasil para a China teve queda de 30% nesta semana, em comparação com a passada.
 
Há ainda um temor adicional: uma vez que a crise se encerre e as fábricas e terminais chineses voltem à normalidade, poderá haver um congestionamento. “Hoje, algumas cargas estão sendo descarregadas em portos alternativos, mas pode haver um efeito dominó”, afirma Ferrini.
 
Por conta desse possível efeito, algumas companhias já avisaram que só aceitarão alguns tipos de carga – como as refrigeradas, químicos, entre outros – daqui a um mês, segundo Barreto.
 
Para executivos e analistas consultados, a grande questão é qual será a duração da crise.
 
Para Antônio Carlos Sepúlveda, presidente da Santos Brasil, ainda é cedo para dimensionar o impacto. A companhia, que opera um terminal de contêineres no porto de Santos, não enxergou qualquer redução na movimentação até agora, diz ele, que avalia que a epidemia do coronavírus será “temporária”.
 
“Hoje, é aguardar para ver, é uma incógnita. Mas se a crise acabar na semana que vem, o impacto é zero”, afirma o executivo.
 
O porto de Santos também afirma que não percebeu qualquer queda na movimentação de carga, segundo nota da Santos Port Authority (SPA, ex-Codesp).
 
Já Ferrini, da Hapag-Lloyd, avalia que a crise pode se tornar muito grave a depender de seus desdobramentos.
 
Para Leandro Barreto, só com o efeito das atuais paralisações, já é certo que haverá prejuízos. “A questão é se esse rombo será recuperável, por ser apenas um represamento, ou se vai se tornar uma perda de vendas, o que parece ser o cenário atual”, diz.