Investimento chinês no país manteve ritmo acelerado
Fonte: Valor Econômico (08 de janeiro de 2020)
Há pouco mais de um ano, em outubro de 2018, Jair Bolsonaro, ainda candidato à Presidência da República, foi bastante enfático nas suas declarações sobre o relacionamento entre o país e nosso principal parceiro comercial em muitos anos: “A China não compra no Brasil. A China está comprando o Brasil”. Cinco meses depois, em aula a formandos do Itamaraty, o chanceler Ernesto Araújo disse que o Brasil não iria “vender sua alma” para “exportar minério de ferro e soja” para a China comunista.
Essas afirmações – apenas uma pequena amostra do que vários governantes expressaram sobre a ‘invasão’ econômica e comercial da China – não foram suficientes para interromper o fluxo de capital vindo do país asiático para o Brasil.
Como mostrou a repórter Marta Watanabe, na edição do dia 23, no Valor, os investimentos chineses no Brasil devem ter terminado o ano passado com avanço em relação a 2018 e as perspectivas são de crescimento ainda maior para o futuro. A retomada do programa de privatizações e concessões a partir deste ano e a esperada melhora no ritmo de recuperação econômica devem garantir a participação dos chineses não somente em grandes projetos de infraestrutura como também viabilizar diversificação e investimentos em projetos novos.
Como pano de fundo, há a percepção de esforço do governo dos dois países para superar divergências políticas.
Dados da Câmara de Comércio Exterior (Camex), ligada ao Ministério da Economia, mostram que os investimentos chineses no Brasil somaram até setembro US$ 1,87 bilhão, praticamente o mesmo valor registrado no mesmo período do ano anterior, de US$ 1,8 bilhão. Segundo Renato Baumann, da secretaria-executiva da Camex, no último trimestre foram fechados negócios importantes que devem ter engordado o valor do ano. Entre eles, o investimento do consórcio formado pelos grupos chineses CCCC e CR20 para a construção da ponte Salvador-Itaparica. O investimento total previsto é de R$ 5,3 bilhões, mas o governo da Bahia contribuirá com aporte de R$ 1,5 bilhão. Com as operações do último trimestre, os investimentos devem superar os US$ 3,5 bilhões em 2018.
Levantamento da PwC Brasil também mostra crescimento no número de operações de fusões e aquisições. Até novembro, foram anotadas dez operações em investimentos chineses, com a previsão de que até o dia 31 de dezembro tenha se chegado a 12. Em 2018 foram sete ao todo. A consultoria britânica Dealogic, que contabiliza também operações de fusões e aquisições, mostra que os investimentos chineses cresceram de US$ 195,5 milhões em 2018 para US$ 784,5 milhões até o início de dezembro.
Ironicamente diante do antagonismo diplomático do início do governo Jair Bolsonaro, um problema chinês acabou afetando positivamente e de uma maneira muito firme um dos principais setores da economia brasileira, o agronegócio. Reportagem publicada pelo Valor na edição do dia 30 informa que as 14 empresas do agronegócio com ações negociadas na bolsa de São Paulo tiveram valorização de 86% no ano passado e encerram o exercício com um valor de mercado conjunto de R$ 163,5 bilhões. Trata-se de um aumento de quase R$ 76 bilhões na comparação com 2018.
Grande parte das companhias que compõem o grupo se valorizou acima do Ibovespa, que subiu 32,6% no período. Com um faturamento combinado de quase R$ 300 bilhões, as quatro indústrias de carnes – JBS, BRF, Marfrig e Minerva – foram beneficiadas pela epidemia de peste suína africana na China, que dizimou metade do plantel do país asiático, fez os preços internacionais da carne dispararem e animou os investidores dos frigoríficos. Para 2020, espera-se a continuidade da tendência, reportaram os jornalistas Luiz Henrique Mendes e Camila Souza Ramos.
O protagonismo chinês como investidor no Brasil – e não apenas no Brasil, obviamente – também se manifesta nas relações comerciais. Como acontece há vários anos, também em 2019 a China foi o principal parceiro comercial brasileiro. Dados divulgados na quinta-feira pelo governo mostram que apesar da queda de 3,1% nas exportações as vendas para a China representaram quase 30% do total embarcado pelas empresas brasileiras no ano passado, um novo recorde. A queda na exportação de soja para os chineses foi parcialmente compensada pelo envio de carnes.