Headhunters se reinventam e ampliam atuação

Fonte: Valor Econômico (17 de novembro de 2020)

Luiz Valente, da Talenses, entrevistava pessoalmente 30 executivos por mês e agora faz reuniões on-line de até duas horas — Foto: Divulgação


 
Os headhunters precisaram se reinventar na pandemia. O distanciamento social baniu desde os almoços reservados com potenciais candidatos à presidência de empresas até as sempre úteis trocas de cartões, com possíveis “alvos”, em eventos corporativos. Para continuar no garimpo de currículos, eles reforçaram a aproximação pelas redes sociais e usam as videoconferências como principais ferramentas de trabalho. Por outro lado, com a maioria dos profissionais disponíveis em casa, as abordagens on-line ficaram mais objetivas, com os executivos desejados longe dos olhos das equipes e chefias.
 
Mesmo com revisões para baixo, de até 36%, nas metas de contratação no ano, por conta da crise, algumas companhias de seleção aproveitaram os últimos oito meses de escritórios fechados para desenhar novas verticais de negócios e acertar parcerias com marcas globais de recrutamento.
 
Em seis consultorias ouvidas pelo Valor, todas concluíram pelo menos uma contratação estratégica, para o comando de grandes corporações, durante a pandemia. As principais demandas foram para gestores nos ramos de digitalização de negócios, saúde e logística. Luiz Valente, CEO do Talenses Group, holding que inclui as empresas Mappit, Talenses e Talenses Executive, diz que a falta de encontros presenciais com os candidatos embaralhou, pela primeira vez, sua rotina de mais de 20 anos no setor. “Mais do que identificar um profissional pelo histórico de realizações, o nosso negócio envolve sutilezas percebidas no contato pessoal”, diz.
 
Antes da pandemia, Valente costumava encontrar cerca de 30 pessoas, ao mês, entre clientes ativos, potenciais e candidatos. Somente entre aspirantes a cargos, eram quase 20, diz o recrutador, que além da gestão do grupo, se envolve diretamente na captação de talentos C-Level em segmentos como bens de capital, petroquímico, papel e celulose.
 
“No período mais crítico da pandemia, entre março e agosto, as agendas presenciais foram praticamente a zero e todas passaram para o virtual.” Por outro lado, o número de contatos remotos aumentou acima de 50%, em comparação ao pré-covid.
 
Atualmente, os consultores da Talenses “encontram” entre 45 e 50 candidatos ao mês. Em média, as conversas on-line duram 60 minutos, podendo se estender a duas horas, em processos que envolvem o topo da pirâmide. Valente explica que as interações estão mais objetivas e tratam, sem rodeios, de temas que precisam ser explorados para definir uma vaga. “Nas abordagens iniciais, há um uso cada vez maior do WhatsApp e redes sociais, especialmente o LinkedIn.”
 
Em 2019, a Talenses ajudou a preencher mais de 500 posições, sendo 15% no C-Level. Em 2020, a meta de “placements” (colocações), que era de 700 no início do ano, foi reajustada para 450, 36% abaixo do esperado. “Com exceção das companhias dos setores considerados essenciais, todas sentiram a crise que estava por vir e congelaram vagas.” Nos primeiros três meses da quarentena, cerca de 60% dos processos ativos foram cancelados. “Hoje, começamos a enxergar um movimento de retomada, ainda cauteloso, indica um 2021 melhor”.
 
Mesmo durante o confinamento, Valente conseguiu preencher três posições estratégicas, de enfrentamento da crise sanitária: um CFO e um diretor de operações de uma rede de hospitais, além de um vice-presidente de assuntos regulatórios, para a América Latina, em uma multinacional farmacêutica. Também entrevistou, via WhatsApp, um candidato PcD (Pessoa com Deficiência), portador de problema auditivo severo. O Talenses Group também caminha para consolidar dois projetos. Uma nova empresa, a Assigna, que recruta temporários e terceirizados, entrou em operação no final do ano passado. Possui 18 contratos ativos e já representa 15% do faturamento total do grupo. Já a plataforma Jovool, lançada este mês como uma HRtech (startup da área de recursos humanos), permite que candidatos interajam com entrevistadores por meio de vídeos ou ao vivo.
 
O headhunter Joseph Teperman, no mercado há 15 anos, também aproveitou um ano atípico para ampliar atividades. Em outubro, como sócio-fundador da Inniti, comprou o braço brasileiro, mas de alcance global, da multinacional de recrutamento Amrop, com 67 escritórios em 45 países. “Temos clientes locais com operações na América Latina, Europa, Ásia, América do Norte e Austrália”, diz o executivo, agora sócio-fundador da Amrop Inniti. “Os clientes pediam que fôssemos internacionais.”
 
Durante mais de 30 anos, a Amrop teve como parceiro brasileiro a consultoria Panelli Motta Cabreira. Depois de 2017, a marca passou para a 2Get, vendida para a americana Heidrick & Struggles, em 2019. Estava sem sócio local há um ano. Em agosto, Teperman também convidou o headhunter André Nolasco, que trabalhou por mais de 12 anos na consultoria de RH Michael Page, para cuidar das carteiras do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e região Centro-Oeste. A ideia é integrar dois sócios seniores em 2021.
 
Na opinião de Luis Gustavo Giolo, diretor da prática de tecnologia e comunicação para a América Latina da Egon Zehnder, de escolha de executivos na alta direção, o momento não é para adiar planos. Este ano, o grupo passou a oferecer novos serviços, como projetos de diversidade & inclusão e workshops virtuais de dinâmica de grupo, para unir times ou integrar CEOs recém-contratados, que não conhecem as equipes pessoalmente.
 
A Egon Zehnder deve finalizar o ano com um aumento de 30% no quadro de consultores, mas suspendeu um projeto de ampliação do escritório local, que já estava contratado. A partir de 2021, teremos um espaço físico mais “fluido”, onde nem todos trabalharão diariamente, explica Luis Gustavo Giolo, há 19 anos no setor de seleção.
 
O executivo diz que está nos ajustes finais de uma parceria com uma multinacional de coaching e que vai acelerar a oferta de serviços de advisory (aconselhamento). O segmento tem apresentado alta demanda, principalmente para revisões de performance em conselhos, por exigência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), redesenhos organizacionais e ações de transformação cultural. Globalmente, a Egon Zehnder inaugurou um novo escritório na Alemanha, em Colônia, mas seguirá reduzindo a metragem das unidades em operação.