Fabricante nacional teme invasão de importados

Fonte: Valor Econômico (08 de junho de 2020)

Marino, da Abiquim: este não é um momento de mercado normal devido à covid-19, e isso pede regulação governamental — Foto: Divulgação


Fabricantes nacionais de vários setores da indústria de transformação veem com preocupação a ampliação da entrada de produtos asiáticos, principalmente da China, no mercado brasileiro. O temor ocorre a despeito da valorização do dólar frente ao real, dizem representantes da Abiplast, Abiquim e Abimaq. A invasão de material chinês, lembram, não para por aí – setores como o têxtil, de calçados, autopeças, alumínio e outros também são alvos.
 
Os segmentos mais vulneráveis a uma potencial enxurrada de produtos importados nos próximos meses são aqueles que utilizam matérias-primas dolarizadas e cujos competidores internacionais já começaram a deixar a pandemia de covid-19 para trás, diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz Coelho.
 
“Enquanto a indústria local está sem capital de giro, nos demais países ela está voltando mais rápido e sem o peso de anos de crise nas costas”, afirma.
 
Em transformados plásticos, afirma Roriz, há risco “enorme” de aumento das importações do produto final, independentemente da desvalorização do real, em um momento de forte queda dos preços internacionais das matérias-primas. No Brasil, os poucos fornecedores de resinas – a maior parte da produção local está concentrada nas mãos da Braskem – têm repassado o câmbio aos preços praticados no mercado doméstico, informa.
 
Com isso, explica ele, a deflação do petróleo e das matérias-primas, que tem alcançado fabricantes de plásticos no mercado internacional, não chegará ao transformador brasileiro. “A demanda não está aquecida. Mas o Brasil é um grande mercado e quem tiver produção para vender, vai olhar para cá”, diz.
 
Entre janeiro e abril deste ano, a balança comercial do setor ficou negativa em US$ 1 bilhão, um déficit 40,5% maior que no mesmo período de 2019.
 
A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), junto com outras entidades setoriais que estão reunidas na Coalização Indústria, já sugeriu ao Ministério da Economia a interferência do Estado, em um primeiro momento de retomada das atividades pós-pandemia. O grupo já levou ao governo os desafios de cada indústria e, internamente, tem discutido medidas que poderiam amparar as empresas brasileiras neste momento, diz o presidente da entidade, Ciro Marino.
 
Ele cita como exemplo a fixação de cotas de importação. Outra medida seria o aumento do Reintegra, da mesma forma que fez a China logo após o início da flexibilização das medidas de isolamento social. O governo chinês concedeu, como estímulo à exportação, “Rebate” de até 13%.
 
“Não pregamos o protecionismo. Mas este não é um momento de mercado normal devido à covid-19, e isso pede regulação governamental”, afirmou Marino.
 
No setor químico, o avanço dos concorrentes importados já vinha acontecendo e pode se agravar nos próximos meses uma vez que outros países produtores, em especial a China, entraram e saíram antes da pandemia.
 
Em um ano, até abril, apesar da demanda nacional deprimida devido à crise, a fatia de químicos importados no consumo aparente nacional chego chegou a 45%, a maior na história. Nos quatro primeiros meses de 2020, o déficit comercial do setor foi de US$ 9 bilhões.
 
Marino ressalta que o setor têm operado com baixa capacidade, portanto, com menor diluição do custo fixo, e com custos variáveis mais altos do que os de produtores internacionais, apesar da queda do petróleo. Isso ocorre porque os contratos da indústria no país repassam com desfasagem de até seis meses o movimento das cotações internacionais.
 
Assim, embora o petróleo tenha recuado a US$ 20 o barril, e indústrias químicas estrangeiras tenham se beneficiado disso imediatamente, as brasileiras só sentirão esse alívio à frente – até lá, o produto importado seguirá ainda mais competitivo.
 
O real desvalorizado ante o dólar pouco contribui para barrar a entrada dos importados ou para impulsionar a competitividade do produto nacional, diz Marino, já que o grande custo em reais é mão de obra, e o setor não é intensivo nisso. Por outro lado, matérias-primas e insumos energéticos são dolarizados e a queda dos preços do petróleo ainda não chegou aos contratos nacionais. “No curto prazo, e podemos estar a poucos meses dessa retomada, as empresas vão precisar de capital de giro e é preciso haver alguma iniciativa regulatória”, afirma.
 
José Velloso, presidente da Abimaq, do setor de máquinas e equipamentos, reitera a visão dos seus pares da indústria. “Países como a China estão prontos para exportar, e o Brasil é o candidato natural para o destino dos produtos chineses. Importamos muito produto acabado e, mesmo com dólar em torno de R$ 5, o país poderá ver a entrada de muitas máquinas chinesas”.
 
No início deste ano, o déficit na balança comercial do setor de máquinas já teve um salto. Entre janeiro e abril, o saldo ficou negativo em US$ 5 bilhões, contra US$ 1,68 bilhão registrados no mesmo período de 2019.
 
Para Velloso, as importações poderão ter um estímulo maior ainda até o fim do ano, com a perspectiva de que o dólar fique entre R$ 4,40 e R$ 4,50. “O processo de desindustrialização do Brasil está em franco aumento, e os chineses e coreanos estão com sede de ganhar esse mercado”, afirma o representante da Abimaq. “O governo brasileiro tem tido uma atuação mais pró-importadores, o que estimula a chegada de produtos, principalmente chineses ao Brasil”, diz o dirigente. (Colaborou Ivo Ribeiro)