Exportações sul-americanas têm forte queda, diz Cepal

Fonte: Valor Econômico (30 de outubro de 2019)

Comércio de bens em queda

Projeção anual para 2019, variação em %


As exportações da América do Sul devem cair 6,7% neste ano, depois de dois anos consecutivos de expansão, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). A queda acentuada tem causas externas, como a guerra comercial EUA-China e a desaceleração global, e internas, como o baixo crescimento da região.
 
Segundo o relatório Perspectivas do Comércio Internacional da América Latina e do Caribe 2019, divulgado ontem pela Cepal, as exportações da América do Sul podem cair mais de 6% neste ano, em comparação com 2018, depois de crescer 13,8% e 7,6% nos últimos dois anos. As importações, por sua vez, devem cair 6,9% neste ano.
 
Já exportações da América Latina devem cair 2,1% neste ano, depois de crescer 11,6% e 8,4% em 2017 e 2018. As importações da América Latina devem cair 3%.
 
O que explica maior queda das exportações da América do Sul em relação à América Latina é o fato de os países sul-americanos dependerem mais de exportações de matéria primas, que têm a China como principal destino. A demanda da China vem diminuindo frente às tensões comerciais que estão desacelerando sua economia.
 
Enquanto o Brasil responde por cerca de 45% das exportações latino-americanas para a China, o Chile responde por 18% e o Peru por 10%, observa Felipe Camargo, da consultoria Oxford Economics.
 
“Além disso, os preços da maior parte desses produtos primários, como açúcar, soja, banana, carvão, petróleo, cacau, tiveram queda no último ano. Os únicos que escapam desse padrão são ouro, carne de vaca e minério de ferro”, diz Sebastián Herreros, encarregado de assuntos econômicos na divisão de comércio internacional e integração da Cepal.
 
O cenário é menos pessimista para a América Latina porque o México exporta também manufaturados e se beneficiou da oportunidades de substituir os produtos chineses no mercado americano, afirma o relatório.
 
No aspecto doméstico, o que levará à queda mais forte do comércio na América do Sul, afirma Herreros, é o baixo crescimento dos países da região – quando não recessão – que afeta o comércio de manufaturados. “Os países da região exportam commodities para China, EUA e Europa. O único mercado para onde exportam manufaturados é a própria América Latina”, diz, ao acrescentar que as exportações da América Latina para países da região devem cair 10% no ano. “E isso é terrível porque trata-se do comércio de bens de maior valor agregado, importante para as pequenas e médias empresas.”
 
A queda do comércio na região acompanha a tendência global. Neste ano, o comércio mundial crescerá 1,2%, nível mais baixo desde a crise financeira de 2008. Dados do World Trade Monitor, do Escritório para Análise de Políticas Econômicas, da Holanda, mostram que a América Latina é uma das regiões onde houve maior queda do volume comercializado – no último ano até o mês de agosto, a queda foi de 3%.
 
No próximo ano, o crescimento dos países da região não deve ser muito maior do que em 2019, o que deixa o desempenho das exportações condicionado à escalada ou não da guerra comercial EUA-China, diz Herreros. “Em julho, projetamos crescimento de 0,2% para a América do Sul em 2019. Isso é um crescimento praticamente nulo e, se persistir, afetará ainda mais o comércio da região.”