Europa acelera criação de novas regras na reabertura das economias
Fonte: Valor Econômico (15 de junho de 2020)
Depois de ler com atenção as mais de cem páginas de regras pós-quarentena das autoridades italianas, Roberto Bruno sabia exatamente o que fazer. Ele as imprimiu e as colou por toda sua pizzaria, juntamente com uma faixa por cima.
“Basta Carta!”, estava escrito. “Chega de papel!”.
“Meu sócio e eu vivemos à base de uma dieta de pão e decretos”, diz Bruno, que por medo de infringir as regras ainda não retomou o serviço de mesa, embora isso agora seja permitido. “Num dia eles nos dizem uma coisa, no seguinte, outra completamente diferente”, disse.
Entre as regras que o deixam mais perplexo: Os fregueses precisam usar máscaras enquanto estiverem de pé, mas não quando sentados.
Então, há a exigência — ou seria recomendação? — de que o azeite de oliva seja fornecido em sachês descartáveis, em vez de em garrafas. “Isso me dá vontade de chorar”, diz Bruno, que se orgulha de seu azeite de oliva extra virgem de produção local.
A Europa vem levantando suas quarentenas, mas as novas regras de combate ao novo coronavírus têm desconcertado muitos europeus à medida que o continente entra num ambiente que lhe é bem familiar: o de acelerada marcha regulatória.
Governos nacionais, autoridades locais e órgãos reguladores de segurança e de saúde têm direito, todos, a voz. E o usam com frequência. O resultado é uma colcha de retalhos de regras em constante mutação, que variam de país a país, de cidade a cidade e, algumas vezes, até de bairro a bairro.
O uso de máscaras é obrigatório em alguns distritos de Bruxelas, mas não em outros. Você pode ser multado na ponta de uma rua, por não usá-la, enquanto outras pessoas perambulam na ponta oposta sem nada cobrindo o rosto.
Os órgãos reguladores agora estudam em que lugares as pessoas podem se deitar para tomar banhos de sol. Também estão determinando se as pessoas já podem comprar casquinhas de sorvete. Mas o tema que é alvo de mais regras é com quem os europeus têm permissão para socializar.
No Reino Unido, pessoas de famílias diferentes podem se encontrar, mas apenas em parques ou em quintais particulares.
Na Escócia, as autoridades recomendam que, ao visitar casas de amigos, as pessoas não toquem em nada até chegar ao quintal nem usem o banheiro; e que levem os próprios talheres se forem comer um churrasco.
Bolha Social
Na Bélgica, as pessoas podem voltar a visitar as casas dos amigos, mas precisam fazer uma lista com determinado número de pessoas e podem convidar apenas essas mesmas pessoas para que venham comer outras vezes. A regra da “bolha social”, como vem sendo chamada, tem frustrado amigos e parentes, que precisam escolher quem fará parte de sua bolha.
Nos últimos três meses, Geoffrey Roucourt, funcionário público em Bruxelas, não conseguiu visitar a mãe, no sul da Bélgica. Primeiro, foi pela quarentena. Depois, em 10 de maio, a Bélgica instituiu a bolha, limitando as visitas a quatro amigos. Sua mãe não podia decidir entre qual dos cinco filhos e netos deixar de fora, “então, nenhum de nós a viu ainda”, disse Roucourt.
“Eu não entrei em nenhuma outra bolha, porque quero guardar minha bolha para minha mãe”, disse.
Na segunda-feira (8), a Bélgica reformulou as regras. Elevou para dez o número de pessoas que podem fazer parte de cada bolha. Roucourt rapidamente decidiu marcar um encontro para domingo (14) com a mãe e outros parentes no quintal dela.
“É bom que eles tenham abrandado as regras da bolha social, mas elas ainda são complicadas”, disse. “Você precisa ficar contando o tempo todo com quem está se encontrando, a cada semana.”
A Bélgica também está bastante ocupada refinando outras de suas regras. Recentemente, permitiu que os residentes façam compras em países vizinhos — desde que consigam provar que a loja belga equivalente mais próxima deles está ao menos 15 quilômetros distante.
Na cidade de Baarle-Nassau, a fronteira entre Bélgica e Holanda passa no meio de uma loja de roupas. A loja agora precisa respeitar regras pós-quarentena diferentes em cada metade. As autoridades holandesas permitiram a abertura das lojas antes que as belgas, de forma que o dono abriu metade do estabelecimento, mas bloqueou o acesso às prateleiras no lado belga.
Mais ao norte da Europa, a Dinamarca afrouxou as restrições fronteiriças para viagens pessoais no fim de maio, permitindo que casais vivendo separados em países vizinhos pudessem se visitar, desde que um deles fosse dinamarquês e mostrassem fotos provando que estavam no relacionamento há pelo menos seis meses.
Protestos de ativistas por direitos de privacidade levaram o governo a rever a regra. “Se você disser que está num relacionamento e colocar isso por escrito, já é suficiente”, disse o ministro da Justiça, Nick Haekkerup, à TV dinamarquesa.
Vai dar praia neste verão?
No sul da Europa, de clima mais quente, uma das principais preocupações é tornar o litoral seguro neste verão europeu. O plano inicial italiano de encerrar os banhistas em paredes de vidro plástico foi engavetado diante da indignação pública. Então, se chegou a uma alternativa mais ecológica, feita de bambus.
Quando as praias italianas reabriram no fim de maio, era permitido o windsurfe, mas não o banho de sol. A não ser em algumas praias, onde era o oposto.
Ambas as atividades agora são permitidas na maioria das praias. O governo federal encarregou as autoridades locais de definir como impedir uma superlotação.
Em Lerici, uma cidade marcada pelas casas em tom pastel na Riviera italiana, o prefeito Leonardo Paoletti passou meses bolando um plano. As regras são simples: “Algumas praias estão reservadas para os proprietários de casas. Algumas, apenas para hóspedes de hotéis. As restantes podem ser compartilhadas por todos”.
Todos os banhistas precisam reservar antecipadamente um lugar na areia por meio de um aplicativo de telefone celular.
Em praias sem areia, cujo acesso ao mar é em meio a rochas, não se precisa de reserva. Mas as rochas são apenas para um número limitado proprietários de casas e seus parentes. Eles precisam mostrar o documento de identidade, dar o número de seguro social e mostrar uma declaração assinada de que tem direito a sentar nas rochas.
“Se há vírus ou não é irrelevante. O que importa é que há regras, e nosso trabalho, como prefeitos, é fazer com que essas regras sejam cumpridas”, disse Paoletti.
Casquinha ou copo?
Algumas regras confundem até o prefeito. Vejamos o caso das casquinhas de sorvete. Há variações gigantescas nas determinações ao longo da Europa. Muitos não sabem se podem ou não tomar um sorvete na casquinha.
Em Lerici, alguns sorveteiros foram repreendidos pelo escritório do representante local do governo federal por servi-los em casquinhas, em vez de usar copos de papel.
“Não vejo por quê”, disse Paoletti. Pelo que ele sabe, o sorvete pode ser servido em casquinhas.
“A esta altura nada mais faz sentido para mim”, disse.
Em meio a tantas novas regras, alguns poucos reclamam que os burocratas estão se esquecendo das pessoas. “Fomos os esquecidos durante esta crise”, escreveu o Sindicato dos Trabalhadores Organizados Independentes do Sexo, em carta aberta ao primeiro-ministro da Bélgica.
Na segunda-feira, para tentar voltar ao trabalho, o sindicato teve que propor suas próprias regras.
