Empresas do agronegócio vislumbram novo modelo de trabalho no pós-pandemia
Fonte: Valor Econômico (27 de novembro de 2020)
Acostumadas a gerenciar processos, rotinas e colaboradores com soluções e aplicativos que se tornaram populares nesse período de isolamento imposto pela pandemia, grandes grupos do agronegócio começam a receber em seus escritórios, aos poucos, gente que estava em home office desde março.
Essa volta, lenta e gradual, tem sido considerada necessária, para preservar a saúde mental de algumas pessoas mais incomodadas com as agruras do isolamento e também as culturas e o comprometimento nas empresas, forjados ainda às custas de muito contato humano. Mas nada será como antes. Quando tudo isso acabar, modelos mais flexíveis para presenças acabar, modelos mais flexíveis para presenças físicas deverão prevalecer, já que em alguns casos o home office ser mostrou mais eficiente.
Na segunda-feira, cerca de 10% dos 550 funcionários da sede da Bunge em São Paulo voltaram a suas mesas. No escritório central da Cargill na capital paulista, a reabertura das portas para também 10% dos colaboradores já aconteceu, em esquema de rodízio. Como outras empresas do setor, as gigantes americanas não puderam suspender atividades e deixar os funcionários em casa em suas dezenas de unidades de produção de alimentos espalhadas pelo Brasil. Mas poderá haver mudanças mesmo em fábricas, armazéns em polos agrícolas e terminais portuários dessas que estão entre as maiores processadoras e exportadoras de grãos como soja e milho do país se as pessoas acharem por bem e a produtividade não for comprometida.
“Em algumas áreas, não haveria problema em manter o home office, ao menos do ponto de vista de resultados. Mas não é o momento de decidir isso. As pessoas estão cansadas, há uma ameaça de segunda onda de covid-19 no país e já estamos perto do recesso de fim de ano. Vamos esperar um pouco mais”, diz Andrea Marquez Fontes, vice-presidente de Gente & Gestão da Bunge no Brasil.
A múlti tem, no total, cerca de 8 mil funcionários no país, espalhados por mais de 100 unidades. O home office na sede e a adoção de protolocos de cuidados e monitoramento em todas as unidades, com o afastamento dos funcionários de grupos de risco, começaram em março.
Reuniões virtuais diárias da alta cúpula passaram a ser realizadas, bem como reuniões da cúpula com diferentes grupos de funcionários e de gestores com suas equipes.
Ao mesmo tempo, conta Andrea, novos serviços de apoio aos colaboradores entraram em ação, com a orientação da equipe que ajudou a criar todos os demais protocolos e foco em questões físicas, jurídicas e psicológicas. Parcerias com clínicas foram firmadas para agilizar testes e o leão foi domado — embora, é claro, pessoas tenham adoecido e outras tenha sido afastadas temporariamente como prevenção, o que inclusive levou à contratação de funcionários para substiui-las enquanto as demissões foram a tônica em outros setores.
A volta à sede, que começa nesta segunda-feira, foi decidida a partir de uma pesquisa que mostrou que cerca de 10% dos colaboradores já não aguentavam mais ficar em casa, por diferentes motivos. Algumas reuniões presenciais de executivos de alto escalão serão retomadas, e mais gestores se encontrarão pessoalmente com suas equipes. Mas sob controle rígido para evitar contaminações.
Na Cargill, maior empresa de agronegócios do mundo, mais ou menos os mesmos cuidados começaram a ser adotados em março, e a volta ao “novo normal” também é parecida. Na pesquisa realizada pela empresa com seus quase 3,5 mil funcionários que foram para o home office, 86% disseram que ainda preferem continuar assim. No total, a múlti tem 11 mil funcionários no país, distribuídos em escritórios e unidades localizadas em 150 municípios.
“As pessoas estão em primeiro lugar, e houve – e há – uma preocupação grande tanto com quem tem que ficar em casa quanto com o colaborador que tem que continuar comparecendo na unidade em que trabalha”, afirma Simone Beier, diretora de Recursos Humanos da Cargill Brasil. Segundo ela, benefícios foram ajustados nas áreas de alimentação e transporte, por exemplo, e o “0800” EssenciCall foi fortalecido para atendimento de funcionários e seus familiares durante a pandemia.
Para quem continuou sendo obrigado a deixar a segurança de suas casas para ir ao trabalho, diz Simone, foi fundamental o entendimento de que a Cargill é uma produtora de alimentos e que a população não poderia ser prejudicada por desabastecimentos. “O propósito de fornecer alimentos é nobre, e isso ajuda no comprometimento das pessoas”.
De acordo com ela, já havia na Cargill uma política de flexibilidade para o trabalho presencial em alguns casos, e, depois da experiência dos últimos meses, essa tendência poderá ganhar força em algumas áreas. Mas não há nada definido e qualquer mudança só será adotada com a concordância das pessoas. E aqui, também, a preocupação é em preservar a cultura da empresa, que levou mais de 150 anos para ser construída.
Na Yara do Brasil, subsidiária do grupo norueguês que lidera o segmento de fertilizantes no mundo, o home office também já fazia parte do dia a dia quando a pandemia expôs suas garras. Mas era “modesto” perto do que poderá se tornar: 20% da jornada de trabalho semanal dos funcionários podia ser feita de casa. “Quando mudamos para o trabalho remoto por completo havia dúvida sobre como seria a interação entre os trabalhadores ou mesmo a produtividade, o que foi sendo derrubado”, disse Carlos Lienstadt, vice-presidente de Recursos Humanos e Comunicações da empresa. Dos 6,2 mil colaboradores da múlti no Brasil, 1,8 mil tiveram que ir para casa.
Lienstadt afirma que a migração para o trabalho remoto até mudou positivamente a relação com os clientes, por causa de um a maior disponibilidade para atendimento. E a medida reduziu custos com viagens, o que nunca é demais.
Para garantir a “infra-estrutura” necessária para o home office, a Yara investiu R$ 1,5 milhão em uma convênio com uma varejista para que os funcionários pudessem preparar um espaço para trabalhar em casa, com a compra de cadeiras, monitores, apoio para os pés e outros itens “Os funcionários receberam um voucher para adquirir os itens e podiam completar o valor se desejassem produtos de custo maior”, afirma o executivo.
A empresa também adotou medidas para facilitar a gestão do trabalho em casa, como o bloqueio do horário entre 12h30 e 13h30 e uma redução da carga horária às sextas-feiras, para que as pessoas possam compensar horas extras, e lives de ginástica laboral. Dessa forma, nos planos para a retomada das atividades nos escritórios da companhia — o que ainda não tem data para acontecer, mas não será antes do segundo semestre de 2021 — está uma política de trabalho remoto muito mais agressiva, o que deverá incluir uma reconfiguração dos espaços físicos de trabalho. “O home office veio para ficar”.
Já na SLC Agrícola, uma das maiores empresas produtoras de grãos e fibras do país, o trabalho remoto inexistia antes da pandemia no escritório central, em Porto Alegre, e em 16 fazendas que contam com 2,6 mil funcionários fixos, além de mil “safristas”. “Em três dias preparamos um guia para os funcionários para permitir o home office e 240 pessoas passaram a trabalhar de casa”, disse Álvaro Dilli, diretor de Recursos Humanos e Sustentabilidade da SCL.
Isso foi em março. Em outubro, 25% da equipe voltou a trabalhar no escritório, o que excluiu pessoas de grupos de risco ou que precisam de muito tempo no transporte público para chegar à empresa, que já está preparada para receber metade da equipe. O êxito das atividades da empresa com o trabalho remoto deve mantê-lo na estratégia depois que as tão esperadas vacinas contra a covid-19 se tornarem uma realidade acessível a todos. “Entendemos que o trabalho será híbrido, em um processo de rodízio”, afirmou Dill.
Nas fazendas, no entanto, não dá para se afastar do trabalho. O jeito foi aperfeiçoar o time de enfermagem, reduzir o número de pessoas no transporte das propriedades às cidades, ampliar a o horário de almoço para evitar aglomerações e tornar mais rígida a entrada de pessoas nas propriedades.
Um modelo híbrido também entrou de vez na agenda da subsidiária da francesa Tereos no país, que emprega 8 mil colaboradores, boa parte empregada nas oito usinas sucroalcooleiras da empresa. E pode se tornar o futuro do trabalho, em um formado que ainda está em discussão. Com a pandemia, parte das equipes que trabalhavam em escritório migrou para o home office, e desde o mês passado a companhia já começou a experimentar uma jornada híbrida. Para isso, foi adaptado o centro de serviços compartilhados da Tereos em São Jose do Rio Preto (SP).
Por enquanto, a Tereos está trabalhando em um plano para a retomada “gradual e planejada” para o início do próximo ano, “se a pandemia continuar em recuo nas cidades onde atuamos”, ressaltou Carlos Leston, diretor de Recursos Humanos do grupo. A transição para o trabalho remoto no início da crise foi facilitado pela elevada digitalização das operações e pelo fato de que 95% das informações já estarem em nuvem.
Mas o home office acelerando alguns projetos, como o desenvolvimento de uma ferramenta de reconhecimento facial para evitar o toque das mãos. Com o sucesso do trabalho remoto nos últimos meses, a Tereos decidiu entregar um andar inteiro em seu escritório administrativo de São Paulo.

