Dreyfus vende participação de 45% para fundo de Abu Dhabi
Fonte: Valor Econômico (12 de novembro de 2020)
A Louis Dreyfus Company (LDC) acertou a venda de uma participação de 45% em seu capital ao fundo soberano de Abu Dhabi (ADQ), o que abriu a empresa, uma das maiores do setor de agronegócios no mundo, a um acionista de fora da família pela primeira vez em seus 169 anos de história.
O negócio tornará viável uma injeção de capital necessária para o grupo de origem francesa e com sede em Genebra – assim como para Margarita Louis-Dreyfus, que havia absorvido grandes dividendos nos últimos anos para pagar os cerca de US$ 1 bilhão que captou para assumir o controle da companhia.
O valor da venda não foi divulgado, mas a LDC informou que uma parte dos recursos – no mínimo US$ 800 milhões -, será injetada na LDC. “A transação constitui um marco em uma estratégia de dez anos […] que começou com a consolidação da estrutura acionária da controladora da LCD”, disse Margarita Louis-Dreyfus, em comunicado.
A LDC faz parte do mítico grupo das “ABCD”, que também inclui as americanas ADM, Bunge e a Cargill e domina há décadas o fluxo internacional de commodities agrícolas. Margarita, nascida na Rússia, é viúva de Robert Louis-Dreyfus, cuja família fundou a empresa na França em 1851.
Os esforços para encontrar um investidor estratégico foram acelerados depois que ela gastou quase US$ 1 bilhão, em 2018, para comprar a parte de outros membros da família na LDC. O processo de venda teve um início complicado, já que os investidores ficaram receosos com os valores pedidos, tendo em vista que a situação geral do segmento estava enfraquecida naquele momento.
Neste ano, porém, as commodities agrícolas surfaram uma onda de alta, em especial soja e milho, em parte influenciada pelo esforço dos governos para reforçar as reservas estatais em meio à pandemia. A China também tem sido uma compradora ativa, especialmente em função da recuperação de seu rebanho de suínos depois dos impactos negativos na produção doméstica provocados pela peste suína africana.
O cenário ajudou a impulsionar os resultados da LDC, cujo lucro líquido no primeiro semestre chegou a US$ 126 milhões, ante US$ 71 milhões do mesmo período de 2019.
Ao mesmo tempo, a pandemia da covid-19 reforçou a preocupação de importadores de alimentos quanto à garantia de abastecimento. Os países do Golfo Pérsico, que dependem pesadamente das compras no exterior, estão entre os que vêm procurando investir em empresas agrícolas e de alimentos.
O próprio ADQ recentemente já havia comprado uma participação de 50% em uma das maiores empresas de agronegócios da região, a Al Dahra. “Alimentos e agricultura é um setor essencial atrativo para o ADQ gerar retornos financeiros”, disse o CEO do fundo, Mohamed Hassan Alsuwaidi. “A LDC acelerará ainda mais o progresso que já tivemos neste ano para expandir significativamente o portfólio”, afirmou.
Como parte da transação, a LDC assinou um contrato de longo prazo com o ADQ para a venda de commodities agrícolas aos Emirados Árabes Unidos.
Segundo Jean-François Lambert, da Lambert Commodities, o negócio com a ADQ foi excelente para a LDC por vários motivos. “Um mínimo de US$ 800 milhões será reinjetado nas operações e isso é altamente necessário para acelerar a transformação da LDC de um modelo essencialmente de comercialização para um mais integrado, de agronegócios e alimentos”, disse.
“Indireta e crucialmente, o fato de que o principal acionista terá que pagar suas dívidas significa que a política de dividendos da LDC provavelmente se normalizará. E, não menos importante, a LDC terá acesso privilegiado aos Emirados Árabes Unidos, um presente de boas-vindas para a empresa”, afirmou Lambert.