Dividir as decisões ameniza a solidão no poder

Fonte: Valor Econômico (18 de outubro de 2019)

O poder e a solidão é um tema que começou a ser estudado por filósofos, sociólogos, psicólogos e estudiosos do comportamento humano. O assunto está presente no cinema e na literatura, como no livro “O outono do patriarca”, escrito em 1975 pelo Nobel da Literatura Gabriel García Márquez, obra que ele define como um “poema sobre a solidão do poder”.
 
“Sempre acreditei que o poder absoluto é a realização mais alta e mais complexa do ser humano e que, por isso, resume ao mesmo tempo toda a sua grandeza e toda a sua miséria”, escreveu o escritor colombiano, inspirado nos ditadores latino-americanos e na reflexão sobre a solidão e a amargura resultantes de um ilusório poder total.
 
O impacto desse isolamento também é observado em ambientes corporativos, nos quais CEOs exerceram seu poder de comando e controle, tomando decisões e ordenando a execução.
 
Por não existir nesse cenário a tomada de decisão colegiada e a divisão de poder, criou-se a figura do executivo super-herói. A eles foi atribuído um poder quase mágico. CEOs se tornaram celebridades, recebendo prêmios que os enalteciam como protagonistas inatingíveis do sucesso.
 
Mas basta olhar para esta última década e ver o quanto uma nova realidade vem derrubando paradigmas, tirando salvadores da pátria do pedestal e desconstruindo mitos.
 
A síndrome da solidão no topo acontece geralmente quando o profissional é cobrado para ser esse super-herói que não pode errar, consultar e que precisa ter sempre as respostas corretas. Executivos que ainda se sentem afetados por tal sentimento precisam parar e fazer uma autorreflexão. Será que eles ainda estão liderando como no passado de forma controladora e pouco colaborativa? Esse é o modelo que devemos buscar?
 
Considerando que o mundo hoje é dominado pela interconectividade, pela economia colaborativa, pela disrupção e por mudanças rápidas, por quanto tempo resistirão as organizações que ainda entendem a hierarquia como valor? Como os executivos que não cresceram na era da internet serão capazes de rever sua forma de liderar, dando espaço para a escuta e colaboração?
 
As novas demandas da sociedade e o futuro do trabalho se mostram opostas à visão do isolamento no poder. Tais mudanças não significam, obviamente, que existirá menos pressão por resultados e inovações, mas uma estrutura em que caberão as decisões colegiadas. Já está comprovado que esse formato colaborativo gera mais debates, provocações, ideias e, assim, melhores resultados.
 
Há pouco tempo, ouvi um conselheiro criticar um presidente de conselho que palestrava em um evento porque, durante sua apresentação, esse chairman se dizia assustado com o mundo em que a organização que liderava se inseria. Dizia que tantas opções e mudanças o deixavam pensante. O conselheiro da plateia defendia que um chairman não podia se mostrar confuso. Mas, veja bem, neste momento quem não está?
 
Além de envolver mais seus pares e subordinados no processo de tomada de decisão, faço aqui algumas recomendações para executivos que desejam amenizar esse sentimento de solidão: insira-se em um grupo de referência que tenha como prática trocar experiências; tenha um network de pessoas que admira e que possam te ouvir; se não o pratica, aprenda o que é trabalhar em colegiado; busque a ajuda de um coach profissional cuja função é ouvi-lo e questioná-lo; converse com jovens e frequente ambientes de inovação; participe de grupos que proporcionem a experiência de um coaching reverso.
 
Com tudo isso, quero dizer: permita-se ser provocado e não seja arrogante por ser mais velho e ter mais experiência. Abra sua cabeça e vá descobrir que os jovens têm muito a ensinar.
 
Não pense que essas atitudes lhe tirarão o reconhecimento ou o poder. A honestidade e abertura para o novo serão capazes de trazer uma infinidade de aprendizados e transformá-lo efetivamente em uma gestor respeitado por suas atitudes, e não apenas por seu poder e autoridade.