Cota para trigo na mira do Canadá

Fonte: Valor Econômico (15 de outubro de 2019)

O Canadá quer uma fatia da cota de 750 mil toneladas de trigo sem tarifa de importação que o Brasil pretende abrir em novembro para países de fora do Mercosul e, nesse sentido, se prepara para questionar os detalhes sobre a distribuição dessa cota no Comitê de Agricultura da Organização Mundial do Comércio (OMC).
 
A decisão brasileira de estabelecer essa cota foi anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro em Washington, em março. O volume que superar o limite estabelecido será taxado em 10%. Os Estados Unidos sempre foram o principal interessado em aproveitar a cota, mas certamente não vão abocanhá-la sozinhos – a Rússia é outro grande produtor interessado no mercado brasileiro.
 
Pelas discussões em curso em Brasília, a distribuição do volume será na base do “primeiro que chega é o primeiro que se serve”. Argentina, Paraguai e Uruguai, que já podem exportar com tarifa zero para o Brasil, não serão beneficiados. Produtores dos Estados Unidos consideram que poderão conquistar pelo menos 70% do volume total de 750 mil toneladas. Mas fornecedores canadenses e russos entrarão na briga, e a fatia de cada um nesse comércio dependerá dos preços pelos quais vão querer exportar.
 
O governo Trump tinha dado prazo até novembro para o Brasil estabelecer a cota de trigo, um antigo compromisso brasileiro que passou por diversos governos sem ser implementado. Ficou acertado que o país faria isso após a eleição presidencial na Argentina, para não causar eventuais dificuldades à combalida candidatura de Mauricio Macri.
 
Em meio a essas conversas, os Estados Unidos também vêm sinalizando que, uma vez implementada a cota do trigo, poderão finalmente levantar o embargo sobre a carne bovina in natura brasileira, que já dura dois anos.
 
Para isso, uma missão sanitária de técnicos do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) já esteve no Brasil em junho, inspecionando frigoríficos de seis Estados: São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. E, de acordo com uma fonte que acompanhou os trabalhos, foi boa a impressão dessa missão.
 
Por outro lado, o governo de Donald Trump continua pressionando o Brasil em relação ao etanol. O governo brasileiro elevou neste ano, de 600 milhões para 750 milhões de litros, a cota anual para importação de etanol sem alíquota, por um prazo de 12 meses. Acima desse volume, há uma taxação de 20%.
 
Mas Washington continua cobrando o governo Bolsonaro a simplesmente acabar com a cota, já a partir do próximo ano. Com grande participação de tradings brasileiras, os EUA são os principais exportadores de etanol de milho para o Brasil, ao mesmo tempo em que importam volumes de etanol brasileiro de cana e vendem parte ao Japão, de acordo com fontes do segmento.
 
O Brasil continua a trabalhar, também, na abertura do mercado japonês para a carne bovina, um desejo que já dura décadas. E outro produto que o país quer passar a exportar é abacate, a depender de negociações com os exigentes japoneses.