Com a bioeconomia, um impulso de US$ 284 bi
Fonte: Valor Econômico (25 de janeiro de 2023)

Imagem: Valor Econômico
Estudo organizado pela Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI) prevê que a adoção completa da bioeconomia na indústria nacional pode gerar um faturamento anual adicional de US$ 284 bilhões até 2050. O potencial seria atingido com a implementação mais robusta de ações complementares para a mitigação de emissões de gases de efeito estufa, a consolidação da biomassa como principal matriz energética do país e a intensificação das tecnologias biorrenováveis, que demandariam investimentos de US$ 45 bilhões.
O cenário mais otimista do estudo aponta que as emissões de carbono podem ser reduzidas em cerca de 550 milhões de toneladas de 2010 a 2050 com a “construção de uma bioeconomia ampla”, focada principalmente na conversão das áreas de pastagens degradadas em cultivos de cana-de-açúcar e florestas, para geração de biomassa e expansão da produção dos biocombustíveis, bem como a intensificação do uso de bioquímicos e outros produtos de origem biológica. A publicação alerta, no entanto, que o movimento depende de uma série de ações e políticas públicas conjuntas.
O estudo apontou várias soluções e tecnologias para a otimização do uso do solo na agropecuária e na produção de biomassa com emissão negativa de carbono, como a intensificação sustentável, confinamento de gado, fixação de carbono no solo, proteínas alternativas, variedades de vegetais de alto rendimento, fixação biológica de nitrogênio e controle biológico. Também são citadas técnicas para produção de etanol de segunda geração e bioinsumos de alto valor agregado.
Relevância
Segundo a publicação, que contou com a colaboração de pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Brasil pode ser um produtor relevante de alguns bioquímicos, como bioeteno, biopropeno, biobutadieno e bioBTX, com uma produção total de quase de 15 milhões de toneladas em 2050.
No cenário mais otimista traçado pelos pesquisadores, os biocombustíveis atingem, em 2050, uma produção de 373 bilhões de litros – dos quais cerca de 89% são biocombustíveis avançados. Se a bioeconomia for implementada por completo no país, cerca de 6,1 milhões de hectares de pastagens serão substituídos por eucalipto e cana-de-açúcar para comportar a expansão sustentável da produção de biocombustíveis e bioquímicos.
Proteínas alternativas
Para isso, a pecuária tradicional também será complementada com á produção de proteínas alternativas, inclusive para exportação. “Para liberar esta área de pastagem, é necessário substituir 7% da produção de carne bovina por carne cultivada. São produzidas cerca de 2 milhões de toneladas de carne cultivada, o que equivale a 13% da demanda brasileira de carne em 2050”, diz o estudo. A publicação também prevê a exportação de 8,2 milhões de toneladas de bioquímicos e 159 bilhões de litros de biocombustíveis em 2050, gerando receitas brutas de cerca de US$ 392 bilhões.
Com a manutenção das políticas já existentes, o estudo aponta que a indústria nacional fature, em 2050, US$ 108,3 bilhões, mas sem alcançar a neutralidade de emissões prometida. Já o cenário potencial da bioeconomia, com as implementações completas apontadas, prevê receitas de US$$ 364,9 bilhões mais um adicional de US$ 27,4 bilhões como bônus pela mitigação das emissões, o que resulta em US$ 392,2 bilhões – US$ 284 bilhões a mais que o quadro das ações correntes. Para isso, são estimados investimentos de US$ 45 bilhões e a precificação do carbono de US$ 50 por tonelada de CO2.
“O cenário potencial da bioeconomia é apenas uma ilustração das potencialidades do Brasil associadas à biotecnologia. A construção dessa trajetória só será possível através de um esforço coordenado na promoção de políticas públicas que considerem as particularidades e vantagens competitivas brasileiras no contexto de transição para uma economia de baixo carbono”, ressalta a publicação. “É necessária uma estratégia nacional que pense a bioeconomia de forma sistêmica, desde a busca de ofertas sustentáveis de biomassa até o incentivo à produção e ao consumo de bioprodutos e de bioenergia”, acrescenta.