CEOs globais estão mais pessimistas com 2020
Fonte: Valor Econômico (21 de janeiro de 2020)
A confiança dos investidores na aceleração da economia global desabou, e eles atribuem menos importância ao Brasil para o crescimento de seus negócios em 2020. É basicamente esse o diagnóstico da 23ª pesquisa feita pela consultoria Pricewaterhouse Coopers (PwC), desta vez com 1.581 CEOs de 83 países, divulgada anualmente em Davos como termômetro do humor empresarial e um “esquenta” das discussões no Fórum Econômico Mundial.

O primeiro achado relevante da pesquisa tem uma dimensão internacional: aumentou de 5% para 53%, nos últimos dois anos, a proporção de executivos que acreditam em uma expansão mais lenta da atividade econômica no planeta ao longo dos 12 meses seguintes. No mesmo período, aqueles que apostam em uma aceleração do crescimento diminuíram de 57% para 22%. Nunca, desde 2012, esse viés de baixa esteve tão aguçado.
A segunda constatação pode causar preocupação no governo Jair Bolsonaro: o Brasil caiu, de sexto no ano passado para nono agora, na lista dos países considerados mais importantes pelos CEOs para a ampliação das operações de suas próprias companhias. Austrália, Japão e França ultrapassaram o mercado brasileiro como prioridade dos executivos nos próximos 12 meses.
O Brasil já chegou a dividir o pódio com Estados Unidos e China, dupla que tradicionalmente é apontada como preferência das empresas, atingindo o terceiro lugar em 2013. Desde então, vem perdendo espaço para europeus e outros emergentes, como a Índia.
“O investidor internacional considera o Brasil, mas prefere a efervescência da Ásia”, disse ao Valor o sócio-presidente da PwC Brasil, Fernando Alves, que também faz parte do conselho de estratégia global da empresa de consultoria. “Sempre seremos um destino importante [para os investidores] porque a escala do nosso mercado assim sugere, mas precisamos encarar com urgência o desafio da produtividade.”
No caso dos executivos brasileiros, 78% relatam estar confiantes no crescimento da receitas de suas próprias empresas em 2020 – eram 95% no início de 2019. “No ano passado, havia expectativa com a Previdência e as privatizações, com o novo governo como um todo. O número ainda é alto. São oito em cada dez. Hoje o otimismo está mais centrado no timing das reformas, que estão acontecendo, mas não na velocidade que se supunha. O pessoal tem mais senso de realidade.”
Para viabilizar o aumento de receitas neste ano, 84% dos CEOs no Brasil afirmam que vão recorrer à expansão orgânica de suas empresas. Isso sugere que novos investimentos ou ampliação da capacidade produtiva não parecem estar no radar – ao menos como a alternativa preferencial.
Na avaliação de Alves, não basta atacar questões como infraestrutura e reforma tributária depois da mudança de regras na Previdência. O que mais preocupa no Brasil, segundo ele, é o futuro da produtividade. “Isso passa inexoravelmente por investimento em tecnologia – inteligência artificial, automação, 5G, blockchain, internet das coisas – e em qualificação dos trabalhadores.”
Esses pontos estão assinalados, inclusive, como elementos-chave na análise dos líderes empresariais: a dificuldade de reter talentos, motivar os profissionais e até de encontrar mão de obra qualificada, como consequências da queda do desemprego nas economias centrais; e o possível surgimento de muros de contenção, regulações cada vez maiores no ciberespaço para temas como conteúdos, privacidade digital, comércio eletrônico.
Os dois outros pontos de atenção que emergiram na pesquisa da PwC foram as mudanças climáticas (começam a aparecer mais claramente os riscos e oportunidades associados à crise ambiental) e as incertezas no panorama econômica. Subiu em 25%, em relação a 2019, a quantidade de executivos que se declaram “extremamente preocupados” com o aquecimento global e com os danos ao meio ambiente. Na economia, os conflitos comerciais tornaram-se o segundo maior fator de risco nos próximos 12 meses, na opinião dos CEOs. Só perdem para o excesso de regulação – sempre um campeão de queixas nessa sondagem.
“No âmbito global, tensões entre as grandes potências criaram incertezas. Há questões geopolíticas também”, afirmou o presidente da petroleira colombiana Ecopetrol, Felipe Bayón, citado pela PwC no relatório. “Algumas pessoas dizem que estamos em uma tendência de desaceleração, especialmente em termos de demanda, o que nos afeta diretamente.”