CCR vê lentidão do governo em apoio a rodovias

Fonte: Valor Econômico (17 de junho de 2020)

Vianna, que deixará cargo em um mês: governo demora em apresentar medidas de apoio ao setor, atingido pela pandemia — Foto: Ana Paula Paiva/Valor


O novo presidente da CCR, Marco Cauduro, assumirá o grupo em meio a uma crise que atinge em cheio todas as áreas de atuação da companhia: rodovias, aeroportos e mobilidade urbana. O executivo, cujo nome foi anunciado na última sexta-feira (12), após um processo seletivo de oito meses, começa no dia 6 de julho.
 
A ideia era que a troca de comando fosse o marco de um novo ciclo de crescimento para a concessionária, mas a passagem de bastão deverá ocorrer já em meio a uma série de problemas urgentes e negociações com governos e órgãos reguladores.
 
A principal preocupação hoje são as concessões rodoviárias, que respondem pela maior parte da receita do grupo. A avaliação é que o governo demora em apresentar medidas de apoio para o setor, que tem sido duramente atingido pela pandemia, segundo Leonardo Vianna, atual presidente da companhia.
 
“A perda de receita é muito forte, de 35% a 45% dependendo da rodovia. Não há empresa que aguente três, quatro meses com essa queda. Não vejo muita rapidez em apresentar soluções para o setor de rodovias”, disse ele, em conversa com o Valor.
 
A companhia propõe um remédio de curto prazo para garantir o caixa das concessionárias: a ideia é criar um critério simples e rápido de calcular a perda de receita, por exemplo, comparando com o período anterior. Assim, as empresas já poderiam receber a compensação de ao menos uma parte dessa perda. “Seria uma solução de emergência. Para que o cálculo definitivo seja feito daqui a seis meses, oito meses, um ano. Mas que já haja um remédio para a fase crítica”, explica.
 
O pagamento, diz o executivo, poderia ser feito não necessariamente com recursos, mas também por meio de títulos, que pudessem ser usados, por exemplo, em futuras licitações ou no pagamento de outorgas ao governo. “É isso que estamos tentando negociar hoje”, afirma Vianna.
 
Os setores de aeroportos e mobilidade urbana, que têm sofrido quedas de passageiros ainda mais drásticas, também há preocupação quanto aos reequilíbrios no longo prazo, mas já existem soluções imediatas: no caso de aeroportos, houve a postergação do pagamento de outorgas e, em mobilidade, os próprios contratos da CCR já possuem mecanismos de compensação.
 
Apesar das dificuldades impostas pela crise atual, o presidente vê oportunidades, tanto em novos projetos quanto em aquisições de ativos. “A gente sempre acompanha o mercado secundário. Já havia oportunidades antes e, agora, é mais evidente que alguns projetos virão a mercado. Continuamos a prestar atenção”, afirma.
 
O executivo avalia que a empresa está preparada para participar de novos leilões de infraestrutura, nos quais prevê boa competitividade, diante da fragilidade de alguns de seus competidores, inclusive internacionais.
 
“Só faz sentido crescer com projetos de qualidade, e temos uma disciplina de capital rígida. Ao mesmo tempo, vemos uma competitividade muito boa. O mercado está debilitado, alguns concorrentes passam por problemas maiores que nós. É um momento adequado para leilões.”
 
Como exemplo, ele cita a relicitação da rodovia Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, e que o governo federal diz que levará a leilão ao fim de 2020. A concessão atual é uma das maiores na carteira da CCR, mas chegará ao fim em breve. “É um ativo importante, que conhecemos como ninguém. Isso é bom e ruim, porque também conhecemos problemas que os outros não veem”, afirma.
 
Para Vianna, a renovação do portfólio e expansão do grupo continua a principal meta da nova gestão. “Temos contratos em fase final e que precisam ser renovados. Sem dúvidas, será o maior desafio do Marco [Cauduro]”, diz.
 
Com a troca da presidência, a CCR encerra um processo de substituição de todo o comando da empresa. As mudanças internas já vinham sendo planejadas desde 2014, mas se aceleraram principalmente a partir de 2018, quando vieram à tona escândalos de corrupção envolvendo dezenas de ex-executivos, inclusive o então presidente do grupo, Renato Vale.
 
Vianna, que está no grupo desde sua fundação e assumiu a presidência logo após a saída de Vale, quer se aposentar após o período de transição, que ele estima durar um mês. Há oito meses ele foi incumbido de encontrar um profissional para substituí-lo.
 
O novo presidente, Cauduro, encerra neste momento sua gestão como presidente da empresa de logística Log-in. Antes disso, ele teve a maior parte de sua carreira no mercado financeiro.