Bunge cria projeto de apoio à agricultura regenerativa no país

Fonte: Valor Econômico (20 de abril de 2023)

A multinacional americana Bunge está dando o pontapé inicial em um projeto de incentivo a práticas regenerativas entre produtores brasileiros. A companhia está de olho na demanda crescente por produtos mais sustentáveis e, com a iniciativa, quer também avançar nos esforços para cumprir sua meta de redução de emissões de gases de efeito estufa.

 

Na fase-piloto, a companhia ajudará 26 produtores de soja, milho e trigo do Cerrado a iniciarem a transformação de seus modelos produtivos. Juntos, eles têm 250 mil hectares de terras. A empresa, que tem 12 mil produtores em sua cadeia no Brasil, quer dar escala ao projeto com rapidez, embora ainda não tenha traçado metas para os próximos anos. “O sonho é atender todos”, diz Rossano de Angelis Jr, vice-presidente de agronegócio da Bunge na América do Sul.

 

Na etapa inicial, as fazendas passam por uma análise que avalia 30 critérios produtivos, como análise de solo, uso de químicos e biológicos, adoção de rotação de cultura, consumo de água e energia, práticas de integração entre lavoura, pecuária e floresta. A partir do diagnóstico de cada local, a Bunge apresenta um plano de ações para tornar o sistema produtivo mais saudável. A ideia é que cada plano seja customizado para a situação de cada propriedade. Técnicos vão acompanhar a adoção do plano, e uma auditoria terceirizada vai avaliar o andamento do produtivo mais saudável. A ideia é que cada plano seja customizado para a situação de cada propriedade. Técnicos vão acompanhar a adoção do plano, e uma auditoria terceirizada vai avaliar o andamento do programa.

 

Nesse ponto, entra em ação da Orígeo, joint venture que Bunge e UPL formaram no ano passado para fornecer soluções tecnológicas e sustentáveis aos agricultores do “Matopibapa” (confluência das regiões agrícolas de Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia e Pará). Hoje, a empresa fornece insumos, assistência técnica, consultoria em sustentabilidade e certificações em agricultura regenerativa e de baixo carbono.

 

Em paralelo, a Bunge também está criando uma agfintech que vai ser um “braço digital” dos serviços e produtos financeiros da múlti no Brasil. Essa operação terá um papel central na captação de recursos para os agricultores adotarem soluções regenerativas.

 

A seleção dos 26 primeiros produtores ocorreu em 2022, e o diagnóstico de suas fazendas deve ficar pronto nas próximas semanas. Com o levantamento em mãos, a Bunge quer traçar um roteiro mais claro para a expansão do projeto, afirma Angelis Jr.

 

A estratégia é garantir uma diferenciação quando os produtos da Bunge oriundos de práticas regenerativas chegarem ao mercado. “Estamos ouvindo [a demanda], e sabemos que cada vez mais produtos regenerativos e de baixas emissões vão fazer parte do escopo das indústrias, que, com isso também poderão descarbonizar suas cadeias”, afirma. “Queremos deixar o produtor pronto para quando essa demanda vier mais agressiva”.

 

Práticas regenerativas
Segundo Angelis Jr, “grande parte” da agricultura brasileira já adota práticas regenerativas, como rotação de culturas e plantio direto. Ele aposta que as tecnologias de precisão no campo, que melhoram o uso de insumos, vão ajudar a reduzir as emissões e ainda garantir “mais rendimento e rentabilidade” nas lavouras.

 

Os produtores que aderirem ao programa terão que cumprir todas as demais políticas de sustentabilidade da Bunge. Isso inclui a meta da companhia de eliminar o desmate em suas cadeias, mesmo o legal, até 2025.

 

A avaliação anual dos resultados vai permitir que a Bunge também incorpore em suas contas o quanto a ela está mitigando suas emissões de carbono do escopo 3, aquelas relacionadas à cadeia de fornecimento. Atualmente, a multinacional tem como meta cortar suas emissões do escopo 3 em 12% até 2030 (o cálculo usa como base as emissões de 2020, além de reduzir suas emissões dos escopos 1 e 2 (relacionados à sua própria produção) em 25% no mesmo período de tempo, conforme compromissos alinhados à Science Based Targets Iniciative (SBTI).

 

Outras grandes tradings do agronegócio também já apresentaram iniciativas para promover a agricultura regenerativa. A Archer-Daniels Midland (ADM), por exemplo, já anunciou uma meta de levar essas práticas a 17 milhões de hectares globalmente, o que deve ajudá-la em sua meta de cortar em 25% suas emissões do escopo 3. A Cargill, por sua vez, já se comprometeu com o incentivo a práticas regenerativas em 10 milhões de acres (4 milhões de hectares) na América do Norte até 2030. A meta da empresa é cortar as emissões do escopo 3 em 30% no mesmo prazo.