Brasil supera média global em relatórios de sustentabilidade, diz KPMG
Fonte: Valor Econômico (17 de junho de 2021)

A pesquisa identificou ainda que 73% das empresas relatam metas de redução de carbono, indicador superior aos 65% da média mundial — Foto: iStock
A publicação de relatórios de sustentabilidade já se tornou uma realidade entre as grandes companhias brasileiras, de acordo com pesquisa elaborada pela KPMG. Segundo o levantamento, 85% das empresas avaliadas elaboraram o documento, acima da média global de 80%.
A pesquisa analisou os documentos publicados entre julho de 2019 e junho de 2020 pelas 100 maiores empresas do país, com faturamento a partir de US$ 1 bilhão por ano. O recorte faz parte de um estudo global com 52 países. O Brasil é o 20º melhor posicionado, mas aparece à frente de países como Suíça (80%), China (78%), Portugal (72%) e Nova Zelândia (69%).
Não é de hoje que as empresas locais se preocupam em publicar esses documentos. O indicador de 85%, revelado na pesquisa atual, também foi alcançado pelas organizações nacionais nas duas últimas edições do estudo, em 2015 e 2017, quando a média mundial foi de 73% e 75%, respectivamente.
De acordo com a sócia líder da área de critérios sociais, ambientais e de governança (ESG, na sigla em inglês) da KPMG, Nelmara Arbex, um fator que tem contribuído para o país superar a taxa obtida mundialmente é o fato de que as maiores empresas brasileiras estão inseridas em segmentos altamente regulados, o que exige maior transparência na divulgação das informações.
“Esse é o caso das mineradoras, bancos e empresas de petróleo e gás. Além disso, muitas delas estão listadas na bolsa e precisam atender a uma regulamentação específica”, acrescentou a executiva.
Na visão da especialista, a regulamentação brasileira voltada às questões sustentáveis tem ganhado força, especialmente quando envolve as companhias de capital aberto, evidenciando que investidores e reguladores chamam à atenção das companhias para os aspectos ESG.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por exemplo, colocou em audiência pública, em dezembro do ano passado, uma proposta de reforma da Instrução CVM 480.
O documento com as manifestações públicas — que está em análise pelo órgão — inclui, por exemplo, maior destaque à divulgação de fatores de risco sociais, ambientais e climáticos por parte das empresas; exigência de posicionamento sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU), que sejam relevantes para o contexto do negócio, além da necessidade de justificativa pela companhia, caso deixe de elaborar o relatório de sustentabilidade.
“O que mostra como no Brasil a regulamentação do mercado financeiro tem sido bem consistente quando se trata do tema”, reiterou a especialista da KPMG.
O que também pode ser considerado um estímulo para que as companhias adotem práticas sociais ambientais e de governança é o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, criado em 2005, que exige uma série de critérios de sustentabilidade das empresas participantes.
No ano, o ISE registra valorização de 5%, menor do que o Ibovespa, que soma alta de 8,5%. Por outro lado o indicador costuma ter uma excelente valorização no longo prazo. “O que é um mecanismo motivador para as empresas participarem”, afirmou a especialista.
O estudo da KPMG revelou ainda que as empresas estão preocupadas em fornecer relatórios que sigam métricas internacionais. Não à toa, 72% usam as diretrizes da organização internacional Global Reporting Initiative (GRI) para a elaboração do documento. A taxa mundial é de 67%.
“Significa que essas empresas fazem parte de um diálogo global, já que esses indicadores são usados por empresas do mundo, inteiro em todos os setores”, acrescentou Nelmara.
A forma como os relatórios conseguem traduzir os problemas sociais e ambientais também foi abordado pela pesquisa. O levantamento da KPMG apontou que 67% conectam às informações apresentadas em seus relatórios aos ODSs da ONU – ante média global de 69%.
O que também chama a atenção é o fato de que 46% reconhecem as mudanças climáticas como um risco para os negócios em pelo menos algum relatório elaborado pela companhia. Porém, quando o assunto são os relatórios financeiros, o reconhecimento dos riscos cai para 32%. “Mesmo entendendo que a mudança climática traz um impacto para os negócios, nem sempre a empresa consegue traduzi-la para a linguagem do relatório financeiro”, reiterou a sócia da KPMG.
A pesquisa identificou ainda que 73% das empresas relatam metas de redução de carbono, indicador superior aos 65% da média mundial. Porém, a estimativa da KPMG é que este número chegue próximo ao 100% na próxima edição do estudo, considerando que o tema está cada vez mais sob os holofotes do mercado.
“Os investidores, os reguladores e as organizações financeiras que dão acesso à capital para essas empresas estão olhando a emissão de carbono como um risco para todo o tipo de negócio. Portanto, é difícil imaginar o setor que não vai ter metas voltadas para a redução”, conclui.