Açúcar derrete em Nova York; suco continua em alta
Fonte: Valor Econômico (05 de maio de 2020)

A queda da demanda e o recuo de preços do etanol – maximizado pelo tombo do petróleo -, somados à alta do dólar ante o real, fizeram o açúcar perder mais sustentação no mercado internacional em abril.
Cálculos do Valor Data baseados nos contratos futuros de segunda posição de entrega apontam que, na bolsa de Nova York, o preço caiu até pouco ao longo de abril, por causa da mudança do vencimento, mas mesmo assim o valor médio dos papéis (que agora vencem em julho) recuou 13,6% em relação à média de março (quando o contrato de açúcar de segunda posição vencia em maio) e atingiu o menor patamar desde setembro de 2007.
Ainda sem uma luz à vista, diante das incertezas geradas pela pandemia da covid-19, o túnel só não é mais sombrio para os exportadores do Brasil, que lidera as exportações mundiais da commodity, porque o câmbio tem compensado o baque e também em razão do elevado volume fixado antecipadamente pelas usinas, a preços melhores.
Em larga medida, essa estratégia, que passa pela destinação de um percentual maior do caldo da cana para a fabricação de açúcar, tem colaborado para manter as cotações sob pressão – e, assim, a tendência é que o achatamento continue. A perspectiva de deterioração do consumo em países produtores por causa da pandemia, notadamente a Índia, também pesa no prato baixista da balança.
A ampla oferta no Brasil, que começa a colher a safra 2020/21, é igualmente sentida no mercado de café, embora a bebida esteja se mostrando uma companheira de todas as horas para a população confinada em dezenas de países.
Também com a ajuda do câmbio, que incentiva países produtores como Brasil e Colômbia a exportar, os contratos de segunda posição de entrega da commodity recuaram 11,7% em abril em Nova York, mas a média mensal ficou estável em relação à média de março. A questão é até quando o “efeito coador” nos lares será capaz de segurar os preços do café.
Assim como o açúcar, os preços do algodão seguem sob pressão. As indústrias têxteis estão paralisando as operações em meio ao fechamento do comércio e a queda livre do petróleo barateou as fibras sintéticas, que concorrem com a natural. De acordo com o Valor Data, os contratos de segunda posição de entrega da pluma ainda registraram alta de 12,6% e em abril, mas, mesmo assim, o valor médio mensal dos papéis foi 6,8% menor que o de março.
Assim, das commodities agrícolas mais exportadas pelo Brasil e negociadas em Nova York, apenas o suco de laranja continua a mostrar algum fôlego, mas menor, ainda fortalecido pela sensação – não comprovada – de que a vitamina C pode ser um escudo contra a covid-19, sobretudo entre os americanos. Os preços do suco concentrado e congelado (FCOJ, na sigla em inglês) caíram 7,6% ao longo de abril, num típico movimento de correção, mas a média do mês ainda foi 5,5% superior a do mês anterior.
Na bolsa de Chicago, os principais grãos exportados pelo Brasil perderam sustentação, embora para os players do país o câmbio também tenha eliminado o efeito das quedas das cotações.
No caso da soja, a baixa dos papéis de segunda posição de entrega ao longo de abril foi de quase 4%, e a média mensal dos papéis foi 2,7% menor que a de março. No mercado de milho, as cotações recuaram mais no mês (7,5%), por causa da redução da demanda pelo etanol feito do cereal nos Estados Unidos, e a média mensal foi 9,5% inferior.
Por mais que esses grãos sejam básicos para a alimentação humana e animal, suas robustas ofertas globais, puxadas por EUA e Brasil, poderão pesar sobre as cotações caso a pandemia perdure e continue a maltratar o poder de compra da população. (Colaborou Fernando Lopes)