Ações de exportadoras sobem em maio com alta do dólar

Fonte: Valor Econômico (19 de maio de 2020)


 
O Ibovespa acumula queda de 3,66% em maio, mas um grupo de ações destoa deste movimento e acumula ganhos de até 21%. São as exportadoras, beneficiadas diretamente pela disparada do dólar, que terminou a semana passada a R$ 5,8384 – alta de 7,33% no mês.
 
As units da Klabin lideram este movimento no mês, com valorização de 21,95% até o fechamento de sexta-feira. Na sequência aparecem BRF ON (17,23%), Suzano ON (13,65%), Marfrig ON (8,96%) e Vale ON (7,33%).
 
Ilan Arbetmam, analista da Ativa Investimentos, explica que o câmbio tem impacto diferente na receita e dívida das companhias. Na Suzano, o benefício vem da receita, sendo 83% oriunda do mercado externo no primeiro trimestre de 2020.
 
“Klabin ainda tem 80% da dívida em moeda estrangeira. Então, para ela, acaba sendo benéfico [alta do dólar] na demanda, mas tem a questão da dívida”, detalha Arbetmam.
 
Segundo o Bank of America (BofA), em estudo obtido pelo Valor, um terço do Ibovespa é favorecido pela desvalorização cambial, principalmente as companhias exportadoras e empresas do setor de commodities.
 
Em um cenário de depreciação do real, com o dólar subindo de R$ 5,50 para R$ 6,00 em 2020, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) do setor de commodities deve subir, em média, cerca de 14%, de acordo com o Bank of America. Neste grupo, estão empresas como CSN, Gerdau, Klabin, Suzano, Usiminas e Vale.
 
Já em bens de consumo (Ambev, BRF e Marfrig) e energia (Cosan e Petrobras), a alta do Ebitda pode chegar a 5%.
 
Em outro cenário traçado pelo banco, com o dólar a R$ 6,50 até o fim deste ano, o Ebitda pode ter um aumento de 27% para commodities e de 9% para empresas de bens de consumo.
 
“A bolsa tem uma exposição relativamente razoável ao câmbio do lado positivo. O resultado das empresas se beneficiam”, comenta David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America no Brasil.
 
O Bank of America também pondera que, se por um lado a depreciação do real pode elevar o Ebitda, para três companhias – Sabesp, Petrobras e Vale – pode afetar o resultado financeiro devido a dívida denominada em dólar. Assim, o enfraquecimento do real impacta negativamente os resultados dessas empresas.
 
Mas o cenário hoje é diferente de cinco anos atrás, já que as empresas passaram por um processo de desalavancagem. “Elas têm feito um esforço para reduzir a dívida em dólar, como a Petrobras, que não eliminou o passivo, mas reduziu”, comenta Beker.
 
No caso da Vale, há a pressão no resultado financeiro, mas a receita na moeda americana providencia um hedge natural à dívida, segundo o BofA. Em maio, o papel já subiu 7,33%.
 
Em relatório divulgado recente, o Credit Suisse reiterou a recomendação de compra das ações da mineradora, em meio à resiliência do minério de ferro, mantendo-se em torno de US$ 90 a tonelada, e com performance inferior ante os pares australianos. O banco também menciona, entre as razões para compra, que uma depreciação de 10% do real gera um aumento de 5% no Ebitda.
 
Para o analista de investimentos da Daycoval Investimentos Enrico Cozzolino, a alta recente deste grupo de ações não significa que deverá seguir nesse mesmo ritmo indefinidamente, com muitos desses aspectos já embutidos nos preços dos papéis.
 
“É um benefício limitado. Antes, falávamos que dólar forte significava uma bolsa em alta, mas eu tenho mudado um pouco minha visão sobre isso. E acho que o avanço desse grupo de ações se dá não apenas porque a valorização do dólar não deve continuar neste ritmo, mas porque, para essas ações continuarem avançando, precisamos de outras condições”, afirma.
 
Entre os fatores citados pelo analista está a necessidade de crescimento da própria economia brasileira, já que não haveria espaço para as ações chegarem a um preço justo sem isso. “Os cálculos previam um PIB de 3% no futuro, mas isso não vai mais acontecer. Sem isso, não há espaço para continuar subindo sem parar”, diz o analista.