Onda de covid cria gargalos em cadeias na Ásia
Fonte: Valor Econômico (14 de junho de 2021)
À medida que as economias ocidentais aceleram a atividade, uma nova onda de focos de covid-19 na Ásia – onde a vacinação ainda está em estágios iniciais – cria novos gargalos nas cadeias globais de suprimentos, o que ameaça elevar preços e afetar a recuperação pós-pandemia.
Um surto da doença em um dos portos mais movimentados do mundo no sul da China levou a atrasos no transporte marítimo internacional, enquanto novos casos de covid-19 em pontos-chave da cadeia de semicondutores em Taiwan e na Malásia pioram a escassez mundial de chips que tem prejudicado a produção nos setores automotivo e de tecnologia.
As novas dores de cabeça se somam às preocupações com a inflação, depois que a China e os EUA registraram semana passada seus maiores saltos anuais nos preços ao produtor e para o consumidor, respectivamente, em mais de uma década. Se esses problemas continuarem – e piorarem -, podem prejudicar o crescimento global.
Durante boa parte de 2020, China, Taiwan e outros países da Ásia foram mais bem sucedidos em controlar a pandemia do que EUA e Europa. Mas, graças ao avanço da vacinação, governos no Ocidente passaram a suspender restrições.
Na Ásia, entretanto, os esforços de imunização têm sido mais lentos e as autoridades mantiveram controles de fronteira mais rígidos. Mesmo assim, a covid-19 se espalhou. Nos últimos dois meses, a Tailândia foi assolada pelo seu pior surto de novos casos, enquanto o Vietnã – outro centro de manufatura que evitou boa parte das ondas anteriores – vê alta de casos.
As taxas baixas de vacinação na Ásia podem manter em vigor distanciamento social e proibições de viagens, o que provocaria transtornos na indústria e reprimiria os gastos do consumidor.
“Isso acontece em um momento verdadeiramente frágil, quando mal começamos a ver uma recuperação do comércio mundial”, disse o analista-chefe de comércio mundial da Economist Intelligence Unit, Nick Marro, de Hong Kong.
No porto de Yantian, na cidade de Shenzhen, no sul da China, um surto de covid-19 entre estivadores praticamente paralisou o tráfego, elevando a pressão sobre o setor do transporte marítimo internacional, que já luta com escassez persistente de contêineres vazios e os efeitos de um bloqueio no Canal de Suez ocorrido no início do ano.
Alguns navios tiveram que aguardar até duas semanas para receber cargas em Yantian, com 160 mil contêineres à espera para serem carregados, segundo despachantes. Pelo Freightos Baltic Index, o preço do envio de um contêiner para a costa oeste dos EUA saltou para US$ 6.341 – alta de 63% desde o início do ano e três vezes acima do preço de 2019.
Em 2020, Yantian teve movimento de cargas quase 50% maior do que o de Los Angeles – o porto de contêineres mais ativo dos EUA – e no primeiro trimestre deste ano viu o volume de contêineres disparar 45% em relação a 2020. A atividade no porto, que processa mais de 13 milhões de contêineres por ano, está em 30% do nível normais e atrasos podem persistir por semanas, diz Hua Joo Tan, da Liner Research Services, em Cingapura.
Lars Mikael Jensen, chefe de rede da A.P. Moller-Maersk, a gigante da navegação dinamarquesa, disse que os atrasos em Shenzhen serão sentidos em todo o mundo, e afetarão os produtos vendidos pelo Walmart e pela Home Depot, empresas que estabeleceram bases logísticas em torno do porto.
“É um porto enorme e muito ativo, e quando há um atraso lá, isso tem um efeito cascata sobre as cadeias de suprimentos no mundo”, disse Jensen, cuja empresa já desviou 40 navios cargueiros de Yantian para portos como Hong Kong. Ele contou que durante o bloqueio do Canal de Suez, que durou uma semana, foram necessários 10 dias para resolver os atrasos. “Não há uma luz à vista. Os chineses manterão tudo fechado até terem certeza de que a covid não vai se espalhar.” Enquanto isso, Taiwan, que responde por um quinto da capacidade mundial de fabricação de chips – incluindo uma proporção significativa na indústria automotiva – sofre a pior onda de covid-19. Na King Yuan Electronics, uma das maiores empresas de testes e embalagem de chips da ilha, mais de 200 funcionários testaram positivo, enquanto outros 2.000 foram postos em quarentena.
Outras empresas de semicondutores nas proximidades também enfrentam surtos nas fábricas localizadas em Miaoli, que concentra os focos mais recentes.
A Taiwan Semiconductor Manufacturing (TSMC), que responde por 92% da produção dos chips mais sofisticados, diz não ter sido afetada, mas o local do surto é vizinho de sua sede em Hsinchu.
A Malásia, que abriga fábricas que produzem chips, capacitores, resistores e outros módulos usados em eletrônicos e automóveis, também teve a atividade produtiva prejudicada por onda de casos.
A Infineon, fabricante alemã de semicondutores com duas fábricas na Malásia, recebeu ordens para fechar uma delas no início do mês, resultando em atrasos nas remessas. Ao todo, a Associação do Setor de Semicondutores da Malásia estima que as quarentenas reduzirão a produção entre 15% e 40%.
Além de atingir cadeias de suprimentos automotivas e de tecnologia, as paralisações podem afetar o setor de exportação da China – um dos pilares de sua recuperação – e aumentar pressões inflacionárias em todo o mundo.