Para especialistas, só isolamento contém variante
Fonte: Valor Econômico (25 de maio de 2021)

Para Eliseu Waldman, medida em fronteira tem baixa eficiência em país continental — Foto: Reprodução/Twitter
Com os primeiros casos de infeção pela cepa indiana do coronavírus confirmados no Brasil – e a despeito de autoridades avaliarem a adoção de medidas sanitárias em terminais de transporte e fronteiras -, sanitaristas são categóricos ao dizer que o meio mais eficaz para frear o avanço da variante a esta altura é o distanciamento social.
“A primeira complexidade é que somos um país continental, então é quase inevitável que se espalhe rapidamente. Não vejo com entusiasmo as medidas que estão sendo avaliadas agora”, diz o epidemiologista Eliseu Waldman, professor do Departamento de Epidemiologia da Escola de Saúde Pública da USP.
Para ele, esse recurso só funciona para países muito ricos e de pequena extensão. A velocidade com que as confirmações e suspeitas de casos da cepa avançaram no país nas últimas horas dá medida dessa realidade.
O Brasil registrou 841 mortes por covid-19 ontem, segundo o levantamento do consórcio de veículos de imprensa junto às secretarias estaduais de Saúde. Com isso, o número total de óbitos pela doença chegou a 450.026.
O Instituto Evandro Chagas (IEC), ligado ao Ministério da Saúde (MS), havia confirmado até ontem seis amostras de sangue provenientes do Maranhão com a variante indiana – todas de tripulantes do navio que veio África do Sul fretado pela mineradora Vale. Ou seja, casos importados.
A equipe investiga ainda outras duas amostras do mesmo Estado e mais duas do Pará, o que indicaria que já há transmissão local, e a previsão é que os resultados saiam até o fim da semana. Ceará, Distrito Federal e Rio de Janeiro complementam o grupo de Estados que já investigam casos suspeitos.
Ministério da Saúde, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e autoridades municipais discutiram no fim de semana medidas para barrar a cepa indiana. Na sexta-feira, a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo solicitou à Anvisa ações nos aeroportos de Congonhas, na capital, e de Cumbica, em Guarulhos – principal porta de entrada do país para viajantes que vêm do exterior. No porto de Santos, Anvisa detalhou a ampliação dos protocolos para prevenir a variante indiana, segundo o Santos Port Authority.
Mas, desde o início da pandemia, a adesão a medidas sanitárias foi uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas equipes de saúde, ressalva Eliseu Waldman. Isso significa dizer, na visão do médico, que as aglomerações registradas diariamente nas cidades brasileiras e as quebras de protocolos de saúde darão o ritmo do avanço da cepa da Índia, uma vez que a variante já está se espalhando.
Segundo ele, o país nem sequer conta com quantidade de testes suficientes para averiguar todos os entrantes em aeroportos, portos e divisas rodoviárias. “E não há efetividade em testar apenas pessoas febris, pois sabemos que em torno de 60% são assintomáticas.”
Ele ressalta ainda que já era esperado que a cepa chegasse ao Brasil em questão de dias. “Quando vemos que países vizinhos já identificaram uma variante em seu território, é sinal de que a transmissão está acelerada e até já entrou no nosso país, antes de nos darmos conta disso”.
Intensificar a vigilância em terminais e fronteiras é importante para conter o avanço da cepa indiana ou de qualquer outra, diz Ana Freitas Ribeiro, coordenadora do Serviço de Epidemiologia do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas. Mas os protocolos de saúde são rigorosamente os mesmos já recomendados, reforça a epidemiologista, que defende medidas de distanciamento social também como forma de evitar o surgimento de novas variantes do vírus, inclusive domésticas.
“Então aderir aos protocolos de saúde, manter o distanciamento e usar máscaras são também posturas para evitarmos o surgimento de novas variantes, não só conter a cepa indiana.”
Sem isso, aponta a Ana, o país continuará a ver altas nos casos, com pessoas vulneráveis podendo desenvolver a forma grave da covid, e o impacto disso no sistema de saúde, que seguirá em risco de colapso. “As pessoas morrem mais não é por causa das variantes, mas pela falta de oxigênio, de vagas em UTIs, de estrutura”, diz a médica.
Waldman pondera que o aspecto menos grave é que ainda não há estudos que comprovem que a cepa indiana é mais letal. Para o Brasil, porém, acrescenta ele, significa mais um problema a ser gerenciado, pois já havia variantes em circulação que impactaram a alta dos casos e ainda vai levar tempo até se alcançar a imunidade coletiva. (Com Agência O Globo)