Índia pode ganhar espaço em agrotóxicos

Fonte: Valor Econômico (30 de novembro de 2020)


 
Terceira principal origem dos ingredientes ativos e produtos formulados importados usados pelas empresas de agrotóxicos no Brasil, a Índia pode ganhar mercado em meio aos esforços de Nova Déli para banir o uso de alguns produtos no país e à estratégia da indústria brasileira de diversificar seus fornecedores.
 
Segundo dados do Sistema de Controle de Registros de Importação (Siscori) da Receita Federal, no total as compras desses insumos no exterior somaram US$ 7,4 bilhões em 2019, ante faturamento gerado pelas vendas domésticas de defensivos agrícolas estimadas em US$ 13,7 bilhões pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). A China respondeu por 24,1% do total, os EUA por 17% e a Índia, por 10,8%.
 
Mas o banimento de agrotóxicos em território indiano, a exemplo do que acontece há anos na Europa, poderá diminuir a diferença da terceira colocada no ranking para a líder. Após proibir o uso de 12 produtos em 2018 e programar para o fim deste ano o veto a outros seis, o Ministério da Agricultura e Bem-Estar dos Agricultores da Índia publicou, em maio, um pedido para a revisão de mais 27 registros, sob a justificativa de que envolvem risco para o ser humano e para espécies da fauna, como abelhas e peixes. Entre eles estão alguns dos agrotóxicos mais vendidos no Brasil, segundo o Ibama, como 2,4 D, acefato e atrazina.
 
As principais razões apontadas pelo governo da Índia para proibir o 2,4 D, por exemplo, são a presença de dioxina que, “por ser cancerígena, deve ser monitorada”; dados incompletos submetidos para uso na cana, milho e batata; e a aparição em listas de análise de risco na União Europeia e nos Estados Unidos para sistemas hormonais humanos.
 
No Brasil, o 2,4 D está em reavaliação desde 2006 por causa de seu alto potencial tóxico e, por problemas de deriva, seu uso chegou a ser suspenso no Rio Grande do Sul no fim do ano passado. O agricultor brasileiro, contudo, o considera uma ferramenta importante no manejo de ervas daninhas resistentes. Sobre o acefato e a atrazina, o governo indiano informa que pesou também sobre sua decisão a proibição dos produtos em 32 e 37 países, respectivamente, e o veto da UE para ambos.
 
Segundo Jai Shroff, CEO global da UPL, uma das principais empresas de agroquímicos da Índia, naquele país as vendas internas do segmento são de cerca de US$ 3 bilhões por ano, ao passo que as exportações alcançam US$ 4 bilhões. Com o deslocamento de oferta do mercado interno para o externo, essa diferença poderá crescer.
 
Presente em mais de 130 países e uma das cinco maiores empresas de defensivos do mundo, a UPL tem a América Latina como principal mercado no exterior, responsável por 43,5% da sua receita de US$ 4,5 bilhões no exercício encerrado em março de 2020. Somente no Brasil, onde tem presença expressiva, as vendas foram de R$ 7 bilhões e a expectativa é de alta de até 36% neste ano fiscal, que terminará em março.
 
Shroff afirma que, na Índia, muitos produtores não têm renda suficiente para acessar tecnologias de proteção de cultivos, o que motiva um avanço da indústria do país sobre outros mercados. Com mão de obra barata, a retirada manual de ervas daninhas das lavouras ainda é uma alternativa comum no campo. Shroff lembra que evidências ainda podem ser apresentadas nas reavaliações dos agrotóxicos na Índia para demonstrar sua segurança, e que alternativas “mais sustentáveis” também estão surgindo.
 
No portfólio da UPL, que tem mais de 13,6 mil registros, ele estima que 25% sejam de produtos biológicos. No Brasil, novos investimentos nessa área estão a caminho. “Ainda não posso dar detalhes, mas pretendemos investir mais de R$ 1 bilhão em um projeto de biológicos”, disse.