Brasil diminui presença e perde influência na África
Fonte: Valor Econômico (23 de novembro de 2020)

Natália Dias, do Standard Bank: é importante um parceiro ou sócio local para compreender especificidades do mercado africano — Foto: Divulgação
A presença do Brasil na África diminuiu fortemente na última década – período em que o continente teve crescimento do PIB acumulado de 55%. De 2011 a 2020, considerando sempre os nove primeiros meses de cada ano, a corrente de comércio encolheu de US$ 20,3 bilhões para US$ 8,3 bilhões. As exportações brasileiras caíram, sem exceção, para todas as dez principais economias africanas. Para Nigéria e África do Sul, os dois maiores PIBs, a queda foi respectivamente de 48% e 47%. A corrente de comércio é a soma de exportações e importações.
A presença do Brasil na África diminuiu fortemente na última década – período em que o continente teve crescimento do PIB acumulado de 55%. De 2011 a 2020, considerando sempre os nove primeiros meses de cada ano, a corrente de comércio encolheu de US$ 20,3 bilhões para US$ 8,3 bilhões. As exportações brasileiras caíram, sem exceção, para todas as dez principais economias africanas. Para Nigéria e África do Sul, os dois maiores PIBs, a queda foi respectivamente de 48% e 47%. A corrente de comércio é a soma de exportações e importações.

O Itamaraty de Bolsonaro já fechou duas embaixadas – Libéria e Serra Leoa – e reestruturou a área responsável pelo continente. Até a gestão passada, uma secretaria cuidava especificamente das relações com a África e com o Oriente Médio. Na reorganização do organograma feita pelo chanceler Ernesto Araújo, as duas regiões se juntaram à secretaria que se ocupa de toda a Europa. Resultado: embaixadores de países africanos em Brasília relatam, nos bastidores, perda de acesso e de qualidade na interlocução com altos funcionários do ministério.
Em outra vertente importante da política externa, houve corte no número de projetos da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), braço do Itamaraty que executa programas de assistência técnica e humanitária com países menos desenvolvidos. A África tem, atualmente, menos da metade dos projetos ativos no início da década (ver matéria abaixo)
No comércio, especialistas veem a perda das exportações como uma consequência direta do encolhimento das construtoras brasileiras, na esteira da Lava-Jato e da nova política de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As vendas à África, no período entre janeiro e setembro, foram de US$ 8,7 bilhões em 2011 para US$ 5,6 bilhões em 2020.
O financiamento do BNDES para grandes obras no exterior era concedido em reais, para as empreiteiras no Brasil, com exigência de uso de equipamentos e bens nacionais no âmbito do contrato. Com isso, movimentava-se uma extensa cadeia produtiva. As construtoras puxavam a exportação de aço a caminhões, de madeira a turbinas de hidrelétricas, passando até por gêneros alimentícios que abasteciam os trabalhadores em seus canteiros.
“Na construção pesada, onde as empresas brasileiras têm uma capacidade técnica reconhecida no mundo todo, estamos deixando de gerar emprego no Brasil e divisas em moeda forte. Um grande contrato de exportação beneficia dois mil fornecedores na cadeia produtiva, em média, dos quais boa parte são pequenas e médias companhias”, diz Alexandre Tostes, presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon).
O Valor procurou a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, empreiteiras com maior presença na África, para fazer uma comparação das suas participações no início da década e agora. A Odebrecht informou que tinha um “backlog” de US$ 1,548 bilhão no continente, em 2011, e hoje ele está em cerca de US$ 1 bilhão.
“Backlog” é o termo usado, no mercado de construção, para se referir à carteira ativa de cada empresa. São contratos efetivamente assinados com os clientes, mas não com obras necessariamente em andamento – de fato, alguns acabam ficando apenas no papel.
A Andrade Gutierrez informou o valor, em reais, de sua carteira na África. Ela era de R$ 4 bilhões em 2011, chegou a um pico de R$ 5,1 bilhões em 2014 e voltou para o patamar de R$ 4 bilhões em 2020. A diferença é o câmbio. No começo da década, esse valor correspondia a mais de US$ 2 bilhões. Atualmente, significa menos de US$ 800 milhões.
“Exportar serviços de engenharia não é para quem quer. É para quem pode. E nós abandonamos o mercado internacional de construção”, afirma o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Ele observa que hoje as construtoras brasileiras prestam serviços em obras financiadas por bancos de fomento de outros países ou por instituições multilaterais, mas sem um crédito atrelado à exigência de uso de bens “made in Brazil”, principalmente manufaturados. Países como China, França e Espanha avançaram no mercado de infraestrutura.
A Vale reduziu sua participação acionária na mina de carvão de Moatize, em Moçambique, e a Petrobras encerrou suas operações de quatro décadas na África no início deste ano. A estatal chegou a Angola em 1979 e passou por países como Nigéria, Líbia, Guiné Equatorial, Gabão e Benin.
Mathias Alencastro, doutor em ciência política pela Universidade de Oxford e especialista em África, avalia que o trio Odebrecht-Vale-Petrobras ajudavam na abertura de portas do continente para empresas brasileiras e serviam como instrumento diplomático. “Atrás desses três grandes tubarões vinham os peixes menores, que comiam pelas bordas. Quando essas três multinacionais encolheram ou desapareceram da África, a política externa do Brasil [para a região] também derreteu”, observa.
“Sem esses mastodontes puxando as relações econômicas, temos dois caminhos possíveis: apostar no mercado, na destruição criativa, e acreditar que as empresas por si só vão entrar no interior do Maláui; ou estimular um novo catalisador das relações, que agora poderia ser o agronegócio.”
É para esse ponto que Natália Dias, CEO do Standard Bank no Brasil, gosta de chamar a atenção frequentemente. A África importa US$ 30 bilhões por ano em alimentos, mas detém 65% das terras agricultáveis não cultivadas em todo o mundo. Com o crescimento da renda e a urbanização, há enorme potencial de parcerias em torno de uma agricultura moderna e de larga escala, área em que o Brasil tem conhecimento de ponta, lembra.
Natália enfatiza a importância de contar com um parceiro estratégico ou um sócio local para compreender especificidades do mercado africano – como, por exemplo, a elevada informalidade no varejo e a volatilidade das economias dependentes de recursos naturais. “A África não está necessariamente no radar das grandes empresas brasileiras, mas é a região que mais cresce depois da Ásia emergente e pode saltar várias etapas de desenvolvimento.”