Metas de inclusão chegam à cadeia de fornecedores
Fonte: Valor Econômico (16 de outubro de 2020)
A Intel está lançando este mês um índice global de inclusão para praticar, mensurar e estimular a diversidade na cadeia de fornecedores da área de tecnologia. A iniciativa, adiantada ao Valor pela general manager da Intel no Brasil, a espanhola Gisselle Ruiz, será realizada por uma coalização de 15 empresas do setor que irão se comprometer com um conjunto de metas de diversidade e com a publicação do progresso delas. “Nosso objetivo é trabalhar em maior escala o tema da diversidade, principalmente da inclusão de mulheres e minorias em cargos de liderança, na área de tecnologia. Queremos não só trazer à tona as melhores práticas no mercado, mas aprender com outras empresas e acelerar essa jornada”, afirma.
O índice irá analisar fatores como números de representação e equidade salarial, e progresso na promoção de mulheres e funcionários de grupos subrepresentados em cargos seniores. “Também buscaremos destacar os esforços para aumentar a acessibilidade à tecnologia para aqueles que fazem parte de comunidades carentes e pessoas com deficiência. Com base nessas discussões, a coalizão desenvolverá de três a quatro metas mensuráveis comuns para mover o pêndulo da diversidade e inclusão na indústria”, afirmou Barbara Whye, diretora de diversidade e Inclusão da Intel e a responsável pela iniciativa em escala global.
A empresa não revelou quais são as empresas que farão parte da iniciativa e como o índice será aplicado. Mas informou que o índice pautará a empresa na escolha de fornecedores. “Vão ser compromissos que envolvem maior representação de minorias, linguagem não racista, desenvolvimento de produtos acessíveis a todos e trabalho com comunidades”, disse Gisselle, confirmando que valerá para a operação do Brasil. Cinco anos atrás, segundo Barbara, a empresa se comprometeu a investir US$ 300 milhões para melhorar a diversidade dentro de casa. As metas foram atingidas em 2018. Além disso, há orçamento de US$ 1 bilhão anual para apoiar fornecedores diversos em sua cadeia.
Levar a diversidade para a cadeia de fornecedores, priorizando aqueles que têm uma agenda de inclusão ou representam minorias, é um movimento que começa a ganhar adesão, inclusive no Brasil. A Dow, por exemplo, afirma que “quer levar a agenda de inclusão para o mesmo patamar que a agenda de sustentabilidade ganhou”. “Assim como a Dow busca fazer negócios com outras empresas pelos valores e compromissos de práticas de sustentabilidade, queremos criar um canal com nossos fornecedores com relação a diversidade”, afirma Tiago Betti, gerente de Inclusão, Diversidade, Equidade e Experiência do Funcionário para América Latina.
Em setembro, a empresa fechou uma parceria com a Integrare, instituição de inclusão e desenvolvimento empresarial de fornecedores provenientes de grupos minoritários, para encontrar e fazer negócios com fornecedores liderados por pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência. A Integrare fica responsável por montar uma base de dados com esses negócios e capacitá-los para que concorram aos processos de licitação e estejam adequados ao compliance da multinacional. Também realiza um processo de certificação deles. O custo dessa associação para Dow foi de US$ 10 mil e o movimento faz parte de um programa global da empresa que já investiu US$ 1 bilhão desde 2018 para aumentar a diversidade nos fornecedores.
No Brasil, esse movimento, até o mês passado, estava focado em questões de gênero, por meio de uma parceria com a WEConnect, para trazer fornecedores liderados por mulheres. Essa parceria, segundo Betti, aumentou em 20% a diversidade de fornecedores no processo de compras, tanto no transporte a granel, quanto no transporte executivo, na área de engenharia, peças e equipamentos. O executivo descreve esse trabalho como de “formiguinha”. A primeira razão é que não adianta realizá-lo, afirma, sem trabalhar a diversidade internamente. “Não basta mudar a fachada da casa, sem reformá-la por dentro”, diz, citando vários programas que a Dow desenvolve em frentes de inclusão há mais de dez anos.
Depois, é preciso entender que a multinacional tem um pool diverso de fornecedores, de pequenos negócios a grandes organizações – cada uma em um estágio dentro da jornada de diversidade. Em terceiro lugar, mudar a relação de contratação de fornecedores exige treinar funcionários e lideranças para que eles conheçam o programa e estabeleçam relação com negócios diversos. “Estamos fazendo workshops em várias áreas”, diz Betti. Ajuda nesse processo, diz o executivo, a política da companhia que dispensa contratos de até US$ 5 mil serem submetidos à área de compras. Isso permite maior autonomia dos funcionários ou de uma área na escolha dos fornecedores e uma abertura maior para contratar pequenos negócios.
A diversidade nos suprimentos também virou um cargo formal dentro da área de compras global da empresa (‘supplier diversity’). “É uma diretora negra que coordena essa estratégia de diversificação, com objetivo de trazer inovação para nós e crescimento econômico das minorias na sociedade”, diz Betti. Atualmente, a Dow faz negócio com mais de 1000 fornecedores diversos globalmente.
Outra organização que desenvolve programas nessa direção no Brasil é a Ambev. A empresa divulgou, em setembro, a meta de ter pelo menos 200 fornecedores liderados por negros em 2021 e se comprometeu a dobrar gastos com esse pool em 2022. Há também o compromisso de trabalhar com agências de comunicação e marketing de sua cadeia para aumentar a inclusão nos times dessas empresas. “Fazemos parte de um ecossistema e não podemos construir as mudanças olhando apenas para dentro de nossos muros. Nós estamos olhando para a sociedade e passamos a ter consciência do nosso papel, como uma das maiores empresas brasileiras”, disse a empresa ao Valor.
A iniciativa foi gerada por um comitê que a Ambev criou no início da pandemia, após o caso George Floyd, nos Estados Unidos, e do adolescente João Pedro, baleado dentro em casa durante operação policial, no Rio de Janeiro. “Foi um momento chave e nos levou a refletir como poderíamos assumir compromissos reais em direção à equidade racial”, diz a empresa. O comitê é composto por Adriana Barbosa, da Feira Preta, Liliane Rocha, da Gestão Kairós, Ítala Herta, da Diverssa, e Hélio Santos, do Instituto Brasileiro de Diversidade. Do comitê, saíram ações como a expansão de um programa de estágio só negros e a meta de ter 60 trainees negros nos próximos três anos.