Boicote a empresas “não sustentáveis” nem sempre gera benefícios sociais
Fonte: Valor Econômico (02 de outubro de 2020)

‘O assunto [responsabilidade social] está sob o olhar do público e, com a covid e questões como a mudança climática, isso continuará assim’, diz o Nobel de Economia Oliver Hart — Foto: Michael Dwyer/AP
Qual é a forma mais eficaz de pressionar uma empresa para que ela atue de maneira socialmente responsável? Considere duas possibilidades. A primeira delas toma como princípio a intimidação, o confronto. Nesse caso, as armas empregadas são o boicote e o desinvestimento. A ideia, aqui, é punir a companhia tida como “desairosa”. A segunda opção é mais suave. Em vez do embate, busca-se o engajamento. Para essa alternativa, o principal instrumento é a conversa e o alvo perseguido, o convencimento.
Pois foi a partir dessa dúvida que três nomes da academia se debruçaram sobre a questão da responsabilidade social. Oliver Hart, professor de Harvard e Prêmio Nobel de Economia em 2016; Luigi Zingales, da Universidade de Chicago e coautor de best-sellers como “Salvando o Capitalismo dos Capitalistas” (Campus); e Eleonora Broccardo, da Universidade de Trento, na Itália, lançaram um estudo inédito em torno do assunto. No trabalho, o trio concluiu, para a surpresa de muitos analistas, que engajar é melhor do que brigar na maioria das situações.
Análises desse tipo têm adquirido relevância crescente. Mesmo porque, advertem Hart, Zingales e Eleonora, é notória a exigência para que companhias dos mais variados setores alcancem metas sociais e ambientais, além das econômicas e financeiras. Somente em 2019, indicam os autores do ensaio, US$ 20,6 bilhões fluíram para fundos de investimento que explicitamente se desfazem de organizações tidas como “não sustentáveis”. Uma década atrás essa quantia era dez vezes menor.

“Alguns dos maiores fundos que estão com a gente deixam bem claro que investem muito em quem tem práticas sustentáveis e nada em quem não te m ”, diz Fabio Faccio, CEO da Renner — Foto: Claudio Belli/Valor
“As empresas não podem escapar dessa situação”, diz Oliver Hart ao Valor, referindo-se à necessidade de abraçar o tema responsabilidade social. “O assunto está sob o olhar do público e, com a covid e questões como a mudança climática, isso continuará assim. Acredito que as pessoas perderam a confiança nos governos. Elas pressionarão as empresas para ocupar esse vazio.”
É isso o que tem acontecido, e não falta tensão nesse cenário traçado pelo economista de Harvard. Uma pesquisa divulgada pela CompareCards, especializada na comparação de cartões de crédito, mostrou que 38% dos americanos estavam boicotando pelo menos uma companhia à época do levantamento. Na ocasião, em um grupo de dez, havia quatro cidadãos furiosos com marcas de todo o tipo. Em janeiro de 2019, a turma que aderia ao boicote era bem menor. Reunia 26% dos americanos.
O tamanho da bronca, mostrou o levantamento, variava de acordo com a faixa etária da freguesia. Entre integrantes das gerações Z (nascidos a partir de meados dos anos 1990) e Y ou “millenials” (nascidos a partir de 1980), mais da metade estava aderindo a boicotes. Os números nesse caso eram, respectivamente, 51% e 52%. A cota caía para 37% na Geração X (nascidos entre as décadas de 1960 e 1970), 22% entre os “baby boomers” (a turma do pós-Segunda Guerra) e 16% na Geração Silenciosa (de 1925 a 1942).
Havia um agravante. A pesquisa mostrou que não é tarefa simples evitar represálias em sociedades cada vez mais polarizadas. Entre os americanos, por exemplo, 19% protestavam contra empresas que apoiavam o movimento Black Lives Matter. Em contrapartida, 18% boicotavam companhias que não apoiavam o mesmo grupo. Quem apoiou, sofreu retaliação. E quem não apoiou? Sofreu também. Nesse mesmo sentido, 16% dos entrevistados queriam punir estabelecimentos comerciais que não obrigavam seus clientes a usar máscaras contra a covid-19. Outros 15% faziam o contrário. Retaliavam as firmas que exigiam o uso da proteção facial.
O Brasil tem dado mostras de também ser um terreno fértil para a difusão de dissonâncias desse nível. Em setembro, por exemplo, a Magazine Luiza anunciou que incluirá somente negros em seu programa de trainees em 2021. A empresa tem 53% de funcionários negros ou pardos, mas apenas 16% deles ocupam cargos de liderança. A medida, informou a rede, tem como objetivo ampliar a diversidade racial no topo da organização. Ainda que sem boicotes, os protestos proliferaram. O deputado federal e vice-líder do governo na Câmara, Carlos Jordy (PSL-RJ), entrou com uma representação no Ministério Público de São Paulo para apurar crime de racismo no processo seletivo.
É nesse contexto, com empresas sob pressão, que a contribuição de Hart, Zingales e Eleonora ganha ressonância. No trabalho, o trio define as ações de boicote e desinvestimento como estratégias de “saída” (“exit”, no original, em inglês). Isso porque elas desembocam no rompimento das relações. Tendem a ter como protagonistas consumidores e investidores, mas podem incluir qualquer grupo interessado no negócio (os “stakeholders”), como trabalhadores, fornecedores e acionistas. As iniciativas de engajamento, por sua vez, são chamadas de “voz” (“voice”), em uma alusão ao poder do diálogo. Elas são mais usuais entre acionistas e investidores.

Larry Fink, da BlackRock, anunciou ter votado contra a administração de 53 empresas em reuniões de conselhos, por identificar falta de compromisso com as questões climáticas — Foto: Alex Kraus/Bloomberg
Uma constatação importante do artigo, diz Hart, é que a opção individual de uma estratégia de “saída”, ou seja, de confronto, nem sempre gera os benefícios sociais esperados. “A ‘saída’ pelo desinvestimento, por exemplo, provoca uma redução do preço das ações de uma empresa. Isso pode servir de incentivo para que a companhia se tornasse ‘verde’ até para compensar essa queda”, diz o economista. “No entanto, investidores puramente egoístas podem aproveitar essa oportunidade para comprar as mesmas as ações subvalorizadas.” Com isso, conclui o acadêmico, a tentativa de retaliação teria um impacto social minúsculo. Isso se houvesse algum impacto.
Os boicotes, por sua vez, tendem ainda a flertar com uma espécie de armadilha criada pela falta de comprometimento. No artigo, os três economistas advertem que os consumidores podem anunciar que comprarão apenas produtos “limpos”, fazendo até com que algumas empresas instalem uma tecnologia compatível com tal exigência. Mas, questiona o trio, o que garante que as pessoas não vão descumprir essa promessa e adquirir produtos “sujos”, principalmente quando estiverem mais baratos? A resposta, frisa Hart, é: “Nada garante”.
O antídoto para essa barreira do comprometimento estaria na possibilidade de conferir o resultado dos boicotes. “Se os autores desse artigo anunciarem que vão se desfazer de ações de empresas de petróleo, vai ser difícil para qualquer um verificar isso”, apontam os três acadêmicos. “Em contraste, a decisão do fundo da Universidade Harvard de atingir a neutralidade dos gases de efeito estufa até 2050 pode ser facilmente comprovada.” De forma semelhante, mencionam os economistas, a Unilever informou em junho que não iria anunciar no Facebook ou no Twitter pelo resto do ano. Isso por conta da proliferação do discurso de ódio nesses canais. “A ação da Unilever pode ser facilmente verificada”, diz Hart. “Assim, é provável que ela cumpra seu compromisso.” Sem essa possibilidade de checagem, portanto, o boicote perde efetividade.

“Ninguém mais quer comprar uma ação que amanhã pode perder 50% do valor porque a empresa teve problemas nas áreas ambiental, social ou de governança”, diz Paulo Eduardo Sampaio, da S&P Dow Jones Indices — Foto: Reprodução do YouTube
A pressão pela “voz”, por sua vez, tem a vantagem de nascer de dentro para fora das empresas. Mas as mudanças que ela provoca, por isso mesmo, nem sempre se tornam públicas, uma vez que ocorrem a portas fechadas com “investidores se reunindo com administradores”. Ainda assim, observa Hart, existem exemplos de sucesso desse tipo de ação. Muitos deles são descritos em livros lançados neste ano nos EUA, como “Accountable: The Rise of Citizen Capitalism” (Responsável: A Ascensão do Capitalismo Cidadão), de Michael O’Leary e Warren Valdmanis, ou ainda, “Grow the Pie: How Great Companies Deliver Both Purpose and Profit” (Crescer o Bolo: Como Grandes Empresas Entregam Tanto o Propósito Quanto o Lucro), de Alex Edmans.
O economista destaca casos como o de Andrew Behar, CEO da As You Sow, organização sem fins lucrativos voltada para conscientizar acionistas sobre a relevância do tema responsabilidade social. “Behar convenceu a Monster Beverage [fabricante de energéticos] a monitorar a questão de direitos humanos em sua cadeia de suprimentos. Os acionistas da ExxonMobil, por sua vez, forçaram a empresa a relatar o impacto das mudanças climáticas”, afirma o vencedor do Nobel. “Em 2018, um acionista pediu ao McDonald’s que publicasse um relatório sobre seus esforços para desenvolver um substituto para os canudos de plástico. A proposta foi rejeitada, mas, no mês seguinte, e a partir daí, a rede anunciou que eliminaria os canudos de plástico no Reino Unido e na Irlanda em 2019.”
Entre equações e fórmulas, o artigo do trio de economistas reconhece, porém, que a “saída” pode ser mais eficaz do que a “voz” em algumas situações. Isso ocorre, por exemplo, em campanhas e movimentos específicos. Como exemplo, Hart menciona episódios históricos como o boicote dos negros contra o transporte municipal em Montgomery, no Alabama, em 1955, um marco da mobilização antirracismo nos EUA. “Ele informou todos os americanos sobre o custo da segregação, mudando as preferências de muitos.” Lógica similar aplica-se a movimentos insurrecionais, o que inclui desde o boicote das colônias americanas ao chá inglês, em 1773, até os protestos dos indianos contra os têxteis britânicos, em 1921.
A ação global contra o uso de peles de animais em roupas, impulsionada pela Humane Society, também mostra a força das estratégias de “saída”. Para Hart, a partir da divulgação, ela tenta envergonhar os consumidores que utilizam peças e acessórios desse tipo. A ideia, aqui, é levar “indivíduos puramente egoístas a se comportar como pessoas socialmente responsáveis”. Mas Hart conclui: “Ainda assim, acredito que o principal resultado do artigo, que afirma que o envolvimento pode ser mais eficiente do que o desinvestimento ou o boicote, se mantém”.
Esse debate não é novo. Há 50 anos, o economista Milton Friedman (1912-2006) esbanjava liberalismo ao estabelecer apenas um objetivo para a responsabilidade social das empresas: aumentar os lucros. Nos anos 1970, as discussões encorparam, embora fossem vagas e claudicassem no campo do marketing. Em 2004, Kofi Annan (1938-2018), então secretário-geral da ONU, conclamou as instituições financeiras a considerar fatores ambientais, sociais e de governança na alocação de capital. Firmou-se, ali, o conceito de “Environmental, Social and Governance”, formando a sigla ESG. Com o tempo, essas três letrinhas ganharam força como parâmetro para a análise do valor das ações de uma companhia.
A Aliança Global para Investimentos Sustentáveis (GSIA, na sigla em inglês) estima que, em 2019, os investidores detinham mais de US$ 30 trilhões de ações de fundos ou empresas com certificação do tipo ESG. Essa quantia representava um aumento de 34% em relação a 2016. Só na Europa a soma desses recursos atingiu US$ 14,1 trilhões no ano passado, o equivalente a mais de 50% dos ativos sob gestão em todo o continente.
Marcella Ungaretti, analista de ESG da XP, ressalta que, nos EUA e no Japão, a representatividade dos investimentos sustentáveis é menor. Ela gira em torno de 26% e 18%, respectivamente. “Mas esse percentual era de 22% nos EUA e 3% no Japão em 2016”, diz. “Isso mostra que a taxa de crescimento tem acelerado. No caso japonês, houve um salto de 400% até 2019.”
Movimentos de adesão a parâmetros ESG têm sido frequentes e por vezes ruidosos. O Calpers (California Public Employees’ Retirement System), órgão responsável pelas aposentadorias e um dos maiores acionistas americanos, realiza campanhas chamadas de “ativistas” para mudar a política das empresas nessa área. No ano passado, pressionou a Red Rock Resorts a alterar práticas de governança. O Calpers ameaçou mudar seu voto nas eleições do conselho de administração caso não alcançasse seu objetivo.
O Norwegian Sovereign Wealth Fund (Fundo Soberano de Riqueza da Noruega), com mais de US$ 1 trilhão em investimentos, responsável por 1,4% dos ativos globais, também exerce pressão sobre as empresas para a adoção de medidas como a separação das funções de CEO e presidente, mais diversidade nos conselhos de administração e igualdade no pagamento dos salários, independentemente do gênero. Na prática, as iniciativas do fundo norueguês e do Calpers não deixam de ser variações da estratégia de “voz”, como definem Hart, Zingales e Eleonora.
Investidores profissionais como BlackRock, Fidelity e Capital Group há tempos também oferecem produtos que permitem aos acionistas aplicar recursos somente em empresas que seguem a cartilha da responsabilidade social. No início de julho, Larry Fink, o CEO e fundador da BlackRock, que gerencia recursos da ordem de US$ 7 trilhões – o equivalente a quatro vezes o PIB brasileiro -, anunciou ter votado contra a administração de 53 empresas em assembleias ou reuniões de conselhos de administração. Fez isso por identificar falta de compromisso dessas companhias com as questões climáticas.
Diante desse conjunto de ações, alguns analistas e acadêmicos passaram a acrescentar adjetivos como “moral”, “social” ou “inclusivo” ao termo capitalismo. Carolina da Costa, professora de inovação e pensamento crítico da escola de negócios Insper, em São Paulo, e sócia da gestora de fundos Mauá, vê razoável exagero nesse tipo de leitura. “Não estamos criando uma nova utopia”, diz. “O que fazemos é precificar o risco das empresas, a partir da exposição a eventuais problemas ambientais, sociais e de governança.” Assim, os padrões ESG tentam embutir novas variáveis aos modelos de análises do valor das empresas. “Mas as mudanças que isso acarreta não deixam de ser significativas”, afirma Carolina. “Em muitos sentidos, elas podem redirecionar a maneira como o capital gera e mantém seus negócios.”
Usar as ferramentas ESG para avaliar o preço de ações é a rotina de Roberto Chagas, sócio e cofundador da gestora Trafalgar, em São Paulo. Ele lida com o tema há mais de uma década. Chagas observa que os riscos em áreas como a ambiental, social e de governança (ESG) podem reduzir em até 30% o preço que um investidor está disposto a pagar por uma ação. Afirma que os papéis da Vale, por exemplo, têm um desconto de 20% em relação a seus pares no mercado, por causa do desastre ambiental de Brumadinho, em janeiro de 2019.
Diante desse conjunto de ações, alguns analistas e acadêmicos passaram a acrescentar adjetivos como “moral”, “social” ou “inclusivo” ao termo capitalismo. Carolina da Costa, professora de inovação e pensamento crítico da escola de negócios Insper, em São Paulo, e sócia da gestora de fundos Mauá, vê razoável exagero nesse tipo de leitura. “Não estamos criando uma nova utopia”, diz. “O que fazemos é precificar o risco das empresas, a partir da exposição a eventuais problemas ambientais, sociais e de governança.” Assim, os padrões ESG tentam embutir novas variáveis aos modelos de análises do valor das empresas. “Mas as mudanças que isso acarreta não deixam de ser significativas”, afirma Carolina. “Em muitos sentidos, elas podem redirecionar a maneira como o capital gera e mantém seus negócios.”
Por meio de sua assessoria, a Vale informa que reitera seu compromisso com as ações de reparação e compensação dos danos causados pelo problema. Até o momento, a companhia investiu mais de R$ 11,5 bilhões na reparação dos danos causados e em ações com barragens. Até setembro de 2020, mais de 7 mil pessoas tiveram seus acordos de indenização pagos – ao todo cerca de R$ 4,1 bilhões.
Chagas afirma que não exclui empresas de sua carteira: “Não tenho uma lista negra”. O gestor observa que pode comprar papéis de companhias com “desafios” na área de responsabilidade social. “Mas, uma vez dentro do negócio, é possível defender e propor mudanças que levem a uma mitigação desses riscos”, diz. “No médio prazo, isso pode elevar o preço das ações e temos um ‘ganha-ganha’. Ele inclui os investidores, a empresa e a sociedade.” Nesse caso, e ao agir dessa forma, Chagas também está aderindo, ainda que involuntariamente, a uma estratégia de “voz”.
Especialistas como Marcella, da XP, apontam ainda para a existência de uma correlação entre a prática de ESG e o resultado econômico/financeiro das companhias. Ela observa que a bolsa americana NYSE, por exemplo, avançou 295% desde 2009 até o ano passado. Já o índice que contém as empresas melhor posicionadas em ESG, o FTSE4Good US Index, alcançou uma valorização de 345% no mesmo período – abriu uma diferença de 50 pontos percentuais. Em uma perspectiva global, a situação é similar. O MSCI ACWI é um indicador que representa o desempenho de ações de grande e médio porte em 23 mercados desenvolvidos e 26 emergentes. Desde 2014, a performance da versão ESG superou em 18 pontos percentuais o índice geral.
No Brasil, deu-se o mesmo. O Ibovespa acumulou alta de 202% desde 2006, quando foi criado o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). Desde então, o ISE, porém, cresceu 269% (33 pontos percentuais a mais). Tais números são importantes, mas, observam analistas, devem ser vistos com parcimônia. Isso porque as empresas que compõem os índices de sustentabilidade, não raro, são líderes em seus setores. Assim, é esperado que tenham um desempenho superior às demais, ainda que não estejam totalmente alinhadas com os preceitos da responsabilidade social.
Marcella Ungaretti observa que, mesmo assim, é inegável a adesão de empresas a métricas e princípios que contemplem aspectos ambientais, sociais e de governança. A analista da XP aponta que tal fato fica evidente quando observados os dados do Princípio para o Investimento Responsável (PRI, na sigla em inglês). O PRI também foi criado a partir do compromisso firmado entre a ONU, investidores e gestores de fundos para fomentar aportes em negócios sustentáveis. Isso ocorreu em 2006. Hoje, o acordo conta com mais de 3,1 mil signatários. O número aumentou 15 vezes em 14 anos. O Brasil, porém, tem uma participação modesta no PRI. Entra com 62 companhias (2% do total).
Por aqui, contudo, há sinais nítidos de uma movimentação pró-ESG, principalmente na indústria de investimentos. Em setembro, por exemplo, a B3 e a S&P Dow Jones lançaram o índice S&P/B3 Brasil ESG, com 96 ações de empresas brasileiras. Entre as dez companhias mais bem posicionadas constam, pela ordem, Lojas Renner, Banco do Brasil, Itaúsa, Natura, Itaú Unibanco, Bradesco, Cemig, Telefônica Brasil, TIM e Klabin. A S&P Dow Jones é a maior provedora de índices do mundo e tem um portfólio com cerca de 700 mil deles, todos ativos, cobrindo 70 mercados. O Dow Jones Sustainability, lançado em 1999, foi o pioneiro entre os índices de sustentabilidade.
De acordo com Paulo Eduardo Sampaio, diretor da S&P Dow Jones Indices para o cone sul da América Latina, a criação do novo S&P/B3, focado em ESG, nasceu de uma demanda de clientes. “Agora, esperamos o lançamento de um produto associado ao índice, o que deve acontecer em breve”, diz Sampaio. Ele faz parte da turma que acredita em um fortalecimento irreversível da relação investidor-responsabilidade social. Sampaio justifica: “Ninguém mais quer comprar uma ação que amanhã pode perder 50% do valor porque a empresa teve problemas nas áreas ambiental, social ou de governança”.
Fabio Faccio, CEO das Lojas Renner, a líder do ranking do novo S&P/B3 Brasil ESG, diz acreditar que a companhia tem uma peculiaridade que a empurra para uma postura sustentável. “Temos 100% do capital pulverizado desde 2005”, diz Faccio. “Assim, a empresa não é resultado da visão de um dono, de uma pessoa. Somos escolhidos para cuidar de algo que pertence a muitos, o que exige transparência.” Ele observa que os acionistas exercem pressão constante nesse sentido. “Alguns dos maiores fundos que estão com a gente deixam bem claro que investem muito em quem tem práticas sustentáveis e nada em quem não tem”, afirma o CEO. “Isso é externado publicamente e cobrado internamente.”
Apesar dos avanços, aprimoramentos são imprescindíveis. Para Marcella Ungaretti, existe um problema agudo de regulamentação nesse setor. Isso acontece no Brasil, mas no restante do mundo a situação não é muito melhor. As empresas, por exemplo, não são obrigadas a incluir informações sobre ESG em seus relatórios. A consequência disso é que algumas acrescentam coisas demais e outras, nada. Não existem normas sobre o que divulgar e nem padrões para estabelecer como isso deve ser feito.
“Em geral, as companhias só falam sobre o que é bacana”, diz Marcella. E nem sempre isso se traduz a realidade. “Algumas empresas dizem que têm programas de diversidade estruturados”, afirma a analista. “A gente vai ver de perto essas iniciativas e percebe que os indicadores não melhoram com o tempo. Às vezes, até pioram.” Assim, a analista diz que é difícil separar o discurso da ação real. O mercado usa o termo “greenwashing” (algo como “lavagem verde”), para definir esse tipo de comportamento, em que a sustentabilidade existe no papel – e com maquilagem pesada.
Oliver Hart também observa que algumas dessas ações são apenas “cosméticas”. Ele diz acreditar que existam limites claros para a atuação da responsabilidade social corporativa, ou mesmo individual. “Ela nunca será suficiente para dar conta dos problemas globais”, diz o economista de Harvard. “A mudança climática, por exemplo, não será resolvida dessa forma. Para isso, precisamos de leis e regulamentos governamentais, de preferência um imposto mundial sobre o carbono.” Isso, porém, pondera o ganhador do Nobel, não quer dizer que corporações e pessoas não tenham importância nesse processo. Ao contrário, o peso dessa responsabilidade, como se viu, só faz aumentar.