Os efeitos da pandemia nos profissionais de meia-idade

Fonte: Valor Econômico (21 de agosto de 2020)

Entre os muitos desafios que a pandemia trouxe para os profissionais do mercado, um que começa a merecer certa atenção é o alerta do risco que correm as pessoas na meia-idade, que em muitos casos já estão sendo considerados na categoria de idosos.
 
Um dos dilemas que vem afetando este grupo populacional é o de encontrar o momento certo para se aposentar. Mais ainda quando avaliamos todos os efeitos provocados pelo crescente aumento da longevidade, que tem sido considerado como um dos impactos marcantes do século XXI.
 
Pesquisa feita nos Estados Unidos, pela TD Ameritrade, concluiu que “muitos trabalhadores mais velhos, com mais de 40 anos, dizem que precisarão trabalhar mais por causa da crise econômica. Por exemplo, entre os entrevistados, 37% dos baby boomers e 39% da geração X disseram ter adiado a aposentadoria ou pensam em fazê-lo.”
 
Um dos fatores considerado mais importante para a decisão pela aposentadoria é quanto tempo você trabalha. Afinal, cada ano adicional proporciona um aumento dos benefícios anuais da Previdência. Trabalhar mais também pode significar economizar mais. E dependendo das reservas é possível avaliar as condições de vida e seu equivalente em tempo. Além de, eventualmente, contar com algum plano de saúde ainda patrocinado pelo empregador.
 
Segundo observações de W. Johnson, diretor do programa de política de aposentadoria do Urban Institute, dos Estados Unidos, “a taxa de desemprego e subemprego para trabalhadores acima de 65 anos foi de 26% em maio, cerca de 5% a mais do que a taxa de trabalhadores entre 25 e 54 anos.”
 
Johnson prossegue afirmando que é observado uma tendência de longo prazo, na qual as vantagens baseadas na idade estão diminuindo gradualmente, devido ao declínio do poder dos sindicatos e o encolhimento do poder de barganha dos profissionais mais velhos. Ele enfatiza ainda que esses riscos vêm aumentando desde o surgimento da covid-19, especialmente pelo fato de que todos aqueles considerados como idosos estão no “grupo de maior risco”.
 
Um outro dado que tem sido levado em consideração nestas análises sobre o impacto da crise – tanto econômica como de saúde – a respeito do mercado de trabalho para os idosos são as exigências no domínio de tecnologias, largamente ampliadas pela crescente utilização do “home-office”. Reforçado pela constatação, já bastante evidenciada, de que essa mudança, do trabalho a distância tende a se tornar permanente, como alternativa ao trabalho presencial.
 
Ao olharmos para estes desafios e mudanças, em nosso panorama corporativo, é possível prever e constatar os fortes impactos que estão ocorrendo nos níveis de profissionais na meia-idade e que ocupam posições de média e alta gerência. Em geral, se caracterizam por uma forte dedicação ao vínculo empregatício em uma organização, encantados por uma série de símbolos de ‘status’ que o cargo lhes proporciona. Além de uma formação muito especializada vertical e usufruindo, socialmente, do sobrenome corporativo.
 
Atendendo executivos em projetos de pós-carreira desde os anos 80 podemos manifestar uma forte preocupação com o despreparo da grande maioria – prioritariamente figuras masculinas – para encararem um processo de aposentadoria de forma produtiva e positiva. Uma vida inteira dedicada – quase que exclusivamente – à carreira, têm impedido muitos profissionais de adotarem outros papéis na sua existência. Ou seja, poucos são os que desenvolveram um claro Projeto de Vida, que leve em conta todos os diferentes papéis que todos nós vivemos, além das naturais mudanças que ocorrem em cada nova etapa de vida.
 
Momentos de crise, como esta que estamos vivendo, servem de alerta para assumirmos o compromisso de manter um claro olhar na dinâmica que nos oferece uma análise do passado, presente e futuro de nossas vidas. Este artigo tem apenas a pretensão de servir como alerta. Afinal, o compromisso é de cada um.