Importado já tem quase metade do mercado químico

Fonte: Valor Econômico (01 de julho de 2020)

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A crise imposta pela covid-19 afetou o consumo de produtos químicos de uso industrial no Brasil, mas não conteve o avanço contínuo das importações sobre o mercado cada vez menor atendido pela produção nacional. O maior excedente de químicos no mercado internacional e a queda dos preços, na esteira do menor consumo global com a pandemia, resultaram em aumento das importações em volume e, em 12 meses até maio, a fatia dos importados já estava em 46% do consumo aparente nacional, a maior na história. Frente aos 12 meses acumulados até abril, o avanço foi de um ponto percentual.
 
Os números preliminares mais recentes mostram que essa participação tende a seguir elevada. Conforme o relatório de comércio exterior da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), as quantidades movimentadas em produtos químicos foram recorde no acumulado de janeiro a maio.
 
Nesses cinco meses, as importações alcançaram 18,8 milhões de toneladas, enquanto as exportações ficaram em 6,4 milhões de toneladas, com altas de 12,4% e 18,7%, respectivamente, em relação às marcas históricas anteriores para o período. Ao mesmo tempo, a produção do setor caiu 1,92% em maio, após o recuo de 19,35% em abril, e as vendas internas cresceram 16%, após o pior resultado histórico mensal em 30 anos visto em abril, conforme o Relatório de Acompanhamento Conjuntural (RAC) da Abiquim.
 
Em nota, a diretora de Economia e Estatística da entidade, Fátima Giovanna Coviello Ferreira, alerta que a ociosidade de 39% na indústria combinada à defasagem dos preços domésticos das principais matérias-primas em relação ao mercado internacional resultou em custos unitários de produção elevados, agravando o quadro de falta de competitividade das fábricas brasileiras.
 
Mas a queda dos preços dos produtos químicos no mercado internacional, acompanhando o petróleo, reduziu o déficit comercial do setor em 2,6% no acumulado dos primeiros cinco meses do ano, para US$ 11,4 bilhões. O saldo negativo resulta de importações de US$ 16,1 bilhões, 5,3% menores do que o verificado no mesmo intervalo de 2019, e exportações de US$ 4,7 bilhões, com queda ainda maior, de 11,3%.
 
Ainda assim, a balança comercial da indústria química caminha para um dos piores resultados da história em 2020, com importações que se estabilizaram em um nível médio de US$ 3,2 bilhões ao mês. Em 12 meses até maio, mostra a Abiquim, o déficit ficou em praticamente US$ 31,5 bilhões, valor somente inferior ao recorde de 2013, de US$ 32 bilhões.
 
A maior entrada de produtos relacionados ao combate da covid-19 ajuda a turbinar o saldo negativo. Intermediários para fertilizantes e produtos farmacêuticos para uso humano foram os principais grupos da grupos da pauta de importação, com compras superiores a US$ 2,5 bilhões até maio cada um. Juntos, esses dois grupos representaram um terço do total importado pelo Brasil em produtos químicos no período – no agregado, os produtos químicos responderam por 23,3% do total de US$ 68,9 bilhões em importações e por 5,5% dos US$ 84,5 bilhões das exportações totais realizadas pelo país nos mesmos cinco meses.
 
Do lado das exportações, os grupos de produtos inorgânicos diversos, particularmente a alumina calcinada, e de resinas termoplásticas foram os destaques no período. Mas, enquanto o primeiro grupo viu as vendas externas crescerem 2,7%, para US$ 1,5 bilhão, o de resinas registrou recuo de mais de 22%, a US$ 610,8 milhões.
 
Com a retomada das atividades em diferentes regiões que foram afetadas antes que o Brasil pela covid-19, a tendência é a de que a oferta de produtos no mercado internacional seja ainda maior neste momento. Com o nível de atividade ainda comprometido nas empresas brasileiras, é provável que esse excedente no mercado global chegue a preços competitivos no mercado doméstico e conquiste mais participação no consumo aparente.