Protestos nos EUA ameaçam afetar reabertura de cidades

Fonte: Valor Econômico (01 de junho de 2020)

Manifestantes protestam contra a morte de George Floyd diante de policiais, na frente da Casa Branca, em Washington — Foto: AP Photo/Alex Brandon


 
A retomada da atividade econômica dos EUA seria já tensa, com temor de novos surtos de vírus e de colapso econômico. Agora, cidades de todo o país, de Nova York a Chicago e Los Angeles, foram sacudidas por protestos e distúrbios que poderão agravar ambos.
 
A violência irrompeu em dezenas de cidades após a morte de George Floyd, um homem negro de Minneápolis após um policial branco ter se ajoelhado sobre o seu pescoço por mais de oito minutos. Alguns manifestantes arrombaram lojas e incendiaram carros da polícia e prédios públicos.
 
O caos, em meio a manifestações em geral pacíficas, se abateu num momento em que a economia enfrenta dificuldades para sair de sua hibernação gerada pelo coronavírus. Após mais de 104 mil americanos morrerem de covid-19, da intervenção governamental sem precedentes e da enorme desestabilização da atividade econômica e da vida cotidiana, as cenas de de agitação em todo o país fazem um contraste sombrio com o recente otimismo das bolsas.
 
O mercado futuro da Dow Jones estava em queda ontem à noite, com a temor com os distúrbios.
 
“Acho que as pessoas começaram a entender que seu emprego pode não voltar ou não voltar logo. Tudo isso está convergindo com as tensões raciais e saindo completamente do controle”, disse Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics. “Isso chama a atenção para a profundidade do desespero nos EUA”, disse ele, referindo-se à taxa de desemprego chegando a 20% e aos 50 milhões de trabalhadores que perderam o emprego ou tiveram corte de salário.
 
A violência levou a Amazon a reduzir entregas e a fechar postos de entrega em várias cidades, incluindo Chicago, Portland e Los Angeles. A varejista Target, que já tinha fechado 32 lojas em torno de sua sede em Minneápolis, disse estar suspendendo a atividade de dezenas de outras em todo o país temporariamente. A Apple soltou nota em que diz: “Tendo em vista a saúde e a segurança das nossas equipes, tomamos a decisão de manter várias de nossas lojas nos EUA fechadas no domingo [ontem]”.
 
As cenas de carros incendiados, saques e prisões violentas por policiais se multiplicaram, num momento em que empresas tentam atrair de volta clientes que já estavam temerosos de sair em público.
 
Após atingir o pico em meados de março, o novo Índice de Distanciamento Social da diretoria regional do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) de Dallas, que mede a magnitude de distanciamento físico e sua relação com a atividade econômica, tinha começado a cair quando os Estados americanos começaram a suspender restrições à atividade econômica e às interações com os consumidores.
 
“O impacto dos distúrbios pode ser maior nas mensurações diárias e semanais do grau de confiança do consumidor, que exibiam uma leve tendência de alta desde meados de abril, mas que agora poderão revelar uma retração por um bom período no começo de junho”, disse Mike Englund, economista-chefe da Action Economics.
 
Cidades cujos orçamentos foram fortemente abalados pela epidemia terão dificuldade de arcar com os custos extras de policiamento e segurança e com os danos decorrentes das manifestações. Antes mesmo dos protestos, o Fed e o governo federal vinham sofrendo pressão para ajudar mais os Estados e municípios.
 
A agitação lança dúvida sobre a reabertura em Chicago, prevista para esta quarta-feira, e em Nova York, no dia 8. A prefeita de Chicago, Lori Lightfoot, impôs toque de recolher das 21h às 6h e limitou o acesso ao centro da cidade a quem trabalha ou mora ali e a funcionários de serviços essenciais.
 
Lightfoot disse que a violência obrigou a cidade a estudar a possibilidade de adiar a reabertura parcial no dia 3. “Em vez de um momento de comemoração, o que eles estão fazendo é vivenciar um momento de desespero”, disse.
 
A prefeita de Washington, Muriel Bowser, disse estar preocupada com a possibilidade de as manifestações desencadearem um novo aumento dos casos de coronavírus na cidade, que começou a primeira fase de sua reabertura no dia 29 de maio. “Vimos uma aglomeração de massa. Temos nos esforçado muito nas últimas semanas para não ter nenhuma aglomeração.”
 
O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, disse ontem que a violência não retardará o projeto da cidade de retomar suas atividades de construção, produção industrial, atacado e varejo. Mas o gasto com policiamento vai pressionar um orçamento já tensionado pelos custos econômicos da epidemia.
 
A fúria com a morte de Floyd ocorre num momento em que os negros americanos enfrentam um impacto desproporcional desfechado pelo coronavírus, seja na saúde como na economia. Em Nova York, os afro-americanos têm um índice maior de contágio, segundo dados municipais. Um relatório da consultoria McKinsey detectou que 39% dos empregos ocupados por negros estão ameaçados pelas demissões e suspensões temporárias de contratos de trabalho voltadas para reduzir a propagação da pandemia, uma proporção maior que a de outras etnias.