Itamaraty tem ‘dança das cadeiras’ e faz mudança em postos estratégicos
Fonte: Valor Econômico (19 de maio de 2020)

Sarquis, vice-presidente do Banco dos Brics, assumirá Secretaria de Comércio Exterior e Assuntos Econômicos — Foto: Claudio Belli/Valor
Pela segunda vez no governo Jair Bolsonaro, o Itamaraty começa uma “dança das cadeiras” em seus postos estratégicos, no Brasil e no exterior. Uma das mudanças mais relevantes é a repatriação do diplomata Sarquis Buainain Sarquis, vice-presidente de risco do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, também conhecido como Banco do Brics), para chefiar a Secretaria de Comércio Exterior e Assuntos Econômicos.
De volta à sede da chancelaria em Brasília, após uma temporada no NDB em Xangai, Sarquis terá como responsabilidade a condução de temas ligados ao G-20 e ao próprio Brics, além do pleito brasileiro de entrada na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Doutor em economia pela London School of Economics, ele ocupará o cargo exercido hoje pelo embaixador Norberto Moretti, que seguirá para a missão do país na Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), agência das Nações Unidas situada em Montreal.
Um dos nomes mais respeitados pelos colegas, ex-secretário-geral do Itamaraty e autor de um livro já clássico sobre diplomacia presidencial, Sergio Danese deve assumir a embaixada brasileira na África do Sul. Ele está em Buenos Aires desde meados de 2016, considerado o segundo posto mais importante da carreira no exterior (atrás de Washington), mas teve atribuições bastante limitadas depois que Alberto Fernández substituiu Mauricio Macri na Casa Rosada.
Desde a reta final da campanha presidencial no país vizinho, a ordem dada pelo chanceler Ernesto Araújo foi de restringir contatos com auxiliares próximos de Fernández – atacado diversas vezes por Bolsonaro – e centralizar o diálogo com a Argentina diretamente no gabinete do ministro.
Quem o substituirá é o chefe da Secretaria de Ásia, Pacífico e Rússia, Reinaldo Salgado, que tem ampla experiência em assuntos relacionados ao Mercosul e já serviu como ministro-conselheiro na embaixada em Buenos Aires.
Para o lugar de Salgado, que fica na linha de frente das negociações com a China, migra a embaixadora Márcia Donner. Ex-chefe da representação brasileira no Cazaquistão e com passagem pela delegação junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), ela é a atual secretária de Comunicação e Cultura do Itamaraty. Salgado ocupará temporariamente a cadeira de Donner enquanto sua indicação não for apreciada pelo Senado.
No tabuleiro de remoções do ministério, em que uma peça tem implicação sobre outra, o embaixador Nedilson Jorge (África do Sul) deve seguir para o consulado-geral do Brasil em Montreal (Canadá). Já o diretor do Departamento de ONU, Luís Fernando Abott Galvão, assumirá o consulado-geral na Cidade do México. Para esse tipo de posto, que lida diretamente com a assistência a cidadãos brasileiros no exterior, não há necessidade de “agrément” (concordância formal dos países para a indicação) ou de sabatina pelo Senado.
Outra mudança esperada é a do diretor do Departamento de Defesa, Alessandro Candeas, que será designado para um posto considerado “sensível”, mas há grande cuidado no Itamaraty sobre qual seria. Fala-se, nos corredores, na representação diplomática em Ramallah (Cisjordânia), sede da Autoridade Nacional Palestina.
Uma enorme curiosidade, entre todos os diplomatas, é o destino da embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo. Um dos quadros mais experientes da diplomacia e chefe da delegação permanente do Brasil junto às Nações Unidas em Genebra, desde o governo Dilma Rousseff, presume-se que ela voltará ao Brasil quando o marido, Roberto Azevêdo, deixar o comando da OMC em setembro. Há pouca expectativa, porém, de que o próprio Azevêdo reassuma um posto interno no Itamaraty, pois isso teria ficado pequeno para um diplomata com a trajetória dele.