Novos CEOs assumem direto do home office
Fonte: Valor Econômico (18 de maio de 2020)

Ricardo Neves, novo CEO da everis, diz que tem falado e se exposto mais estando remoto do que se estivesse falando em um auditório. “As discussões são mais abertas”, diz — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Descalço e com uma calça de moletom, Ricardo Neves veste uma camisa para entrar na primeira videoconferência do dia. São 9 horas. Ele está penteado, de barba feita e perfumado. Pela imagem que aparece na tela do computador, da cintura para cima, está vestido da mesma forma como iria ao escritório. “Há uma certa liturgia do cargo. Tenho a sensação de que as pessoas querem me ver um pouco como o presidente”, diz ele, que assumiu como CEO da everis no dia 2 de abril, em plena pandemia, já em home office.
Como ele, outros CEOs assumiram o cargo mais almejado das empresas de uma forma como nunca imaginaram: em casa e por aplicativos de conversa. “Sempre sonhei chegar ao topo da carreira. Mas nunca imaginei que começaria sem conhecer os escritórios, os clientes e os funcionários”.
A descontração é a maneira que Neves encontrou para driblar as dificuldades em conhecer mais profundamente a cultura da consultoria global de serviços na área de tecnologia com 2.600 funcionários no Brasil, dos quais 150 ocupam cargos gerenciais. Logo cedo é hora do “Café com Ricardo”, no qual cada um traz a sua caneca. Todos os dias, às 18:30, tem happy hour com grupos com dois ou três gerentes. Com uma cerveja na mão, a conversa fica mais leve.
Sua surpresa tem sido verificar que mesmo atrás da tela as discussões têm sido mais abertas. “Talvez por estarem presas, as pessoas estejam mais soltas. Por ser uma empresa de tecnologia, o time é jovem, muitos têm entre 28 e 30 anos. É gente que sente muita falta dos amigos”, diz ele, que também tem falado e se exposto mais do que se estivesse em um auditório.
“Sinto que os funcionários querem me conhecer e conto um pouco da minha história. Falo que tenho 55 anos de idade, vim do Recife, viajei muito, fiz curso em Harvard e trabalhei no México. Para aquecer falo em espanhol a parte mexicana e em inglês a americana, coloco até música para conversar”, conta Neves, que foi executivo da IBM e era sócio da PwC Brasil até recentemente, quando se aposentou precocemente. “Comecei como trainee na PwC e achei que tinha encerrado um ciclo”.
Se tornar CEO já é uma transição de carreira difícil, agora esse desafio é duplo, diz Tatiana Iwai, do Insper
Em casa, sua responsabilidade aumentou com a pandemia. Sua mulher, Claudia da Costa Leite, é cientista e médica do Hospital das Clínicas sai para trabalhar fora todas as manhãs. Ele ficou com a missão de ocupar os filhos: Ana Beatriz, de 11 anos, e Gabriel, de 14, que estão estudando de forma remota. “Boto todo o mundo para arrumar a cama e lavar a louça. Eles reclamam”.
Seu colega na everis, o português Miguel Teixeira, 46 anos, CEO da empresa em Portugal nos últimos seis anos, atravessou o Atlântico e assumiu o mesmo cargo no Chile em 5 de abril. No mercado português, a empresa tem 1.100 funcionários. Teixeira já vinha sendo sondado para uma missão internacional e acabou escolhendo o Chile que lhe permite participar da direção das Américas.
A pandemia, claro, o pegou de surpresa em plena mudança com a mulher e as duas filhas adolescentes, de 16 e 12 anos. Para seguir o calendário escolar, ele veio com a família no fim de fevereiro, mas ainda contava regressar à Lisboa para fechar os resultados anuais e passar os contatos comerciais para os colegas. Acabou fazendo tudo de forma remota.
Por sorte, Teixeira já conhecia os escritórios da everis em Santiago e os funcionários que chefiaria. São 1.700 pessoas e 14 clientes principais, um deles a Latam, que sofre a crise do setor aéreo. No entanto, ele acredita que este é o momento de dar um salto, usando maior tecnologia e apostando na meritocracia. “Temos um espectro de crescimento elevado para os próximos anos, mas estamos mais preocupados com o valor agregado do que com porcentagens. Se conseguirmos os melhores profissionais, o crescimento será natural”.
Teixeira lembra que em fevereiro, durante uma conversa com seu colega responsável pela Itália, que já estava trabalhando em casa, se deu conta de que esse vírus não ficaria restrito à China e iria se espalhar. Mas ele já tinha nos planos um país novo, uma língua nova e uma casa na qual muita coisa ainda falta.
Para o novo CEO da Serasa, Valdemir Bertolo, o fato de ser do grupo e de conhecido as pessoas antes ajudou
O teletrabalho é um desafio, diz Teixeira, que trabalhou dois anos na Noruega. “Eles são frios, nós somos latinos, temos necessidade de conviver. A parte remota não vai nos largar mais porque funciona bem, mas não abrirei mão do contato pessoal para uma celebração na primeira oportunidade em que o encontro for seguro. O contato humano é insubstituível”.
Assumir o cargo de CEO, neste momento, há o acúmulo de dois grandes desafios, avalia a professora de comportamento organizacional e liderança do Insper, Tatiana Iwai. Se em tempos normais o cargo é uma transição na carreira que implica em mudança de prioridades e na adaptação a uma visão mais global, o que já é difícil, agora o desafio é duplo.
“Vivemos uma fase de incerteza, de turbulências e é muito difícil fazer qualquer planejamento nesse cenário. A quarentena se acumula a todos os outros problemas que enfrentamos”, diz Tatiana. “O que acontecerá depois? Qual será o novo normal? É quase um exercício de futurologia. Haverá mudanças de mercado e as preferências dos consumidores irão pressionar novas alterações. Quais? Não sabemos”.
Assim, ela acredita que se o momento é complexo para os CEOs que já estavam no cargo, é mais ainda para quem chega. “Os antigos, teoricamente, estão mais à vontade e sentem maior legitimidade. Os novos ainda precisam construir pontes entre os funcionários e as prioridades da empresa, de forma a garantir a viabilidade do negócio e os cuidados com as pessoas”.
O fato de já estar na empresa há sete anos e de conhecer bem sua organização foi um facilitador para Valdemir Bertolo, de 57 anos, ao tornar-se CEO da Serasa Experian no início de abril. A mudança organizacional se deu em consequência da saída do CEO José Luiz Rossi, que assumiu o mesmo cargo na Serasa UK.
Nos últimos três anos, Bertolo respondia pelos países hispânicos da América Latina e, apesar de viver em São Paulo, diz que sua base era o avião. “Estou até com saudades, mas tenho convicção de que as coisas acontecem por um motivo e aceito com bom humor e otimismo a missão que me foi confiada”.
A necessidade de fazer cortes foi a prova de fogo da nova CEO da Grey Brasil, Luciana Rodrigues, que assumiu o cargo em 27 de janeiro e teve uma vivência presencial muito curta. Quarenta e cinco dias depois teve que se afastar e tomar complexas decisões de forma remota. Um dos clientes mais importantes da agência de publicidade, a XP Investimentos, saiu do portfólio, o que implicou em um corte de 15% dos funcionários.
“Estamos passando por um momento muito difícil e se não houver uma liderança humanizada, o fracasso é iminente. Nós temos que dar o exemplo, trabalhar a transparência e a empatia”, diz ela, que considera este o maior desafio de sua carreira. A Grey tem 170 funcionários e dez clientes com diferentes situações diante da crise econômica. A P&G, por exemplo, não foi tão afetada, já que produz de shampoo a amaciante, mas como também é dona da conta da Volvo sente o impacto negativo num período em que ninguém compra carros.
O mais interessante, na avaliação de Luciana, são os impactos positivos do trabalho remoto. Ela tem conversado com todos os funcionários, de supervisor a assistente, por meio do Zoom. “Isso não é comum na vida das corporações. Agora a gente fala com todo o mundo, compartilha pensamentos, problemas familiares, sugere livros e séries de TV. Ao serem ouvidas, as pessoas se sentem parte de um todo como nunca haviam sentido. É um ganho enorme e já nos comprometemos a manter esse diálogo para sempre”.
As demissões, um ônus dramático para as famílias, também foram feitas com cuidado, por meio do vídeo. “As pessoas precisam de respeito”, acredita Luciana, que teme pelo futuro de grande parte da população brasileira que em breve não terá o que comer. “Essas pessoas estão abandonadas e dependem da nossa solidariedade”.
Luciana tem 44 anos, foi gerente geral da BuzzFeed e vice-presidente de inovação da Warner Media para a América Latina. É casada, tem duas filhas, de 10 e 7 anos, e agora conta até com a ajuda do marido para pintar os cabelos. “Estou trabalhando dez horas por dia, não esquento muito com a casa, mas cuido da aparência. Como fico o dia todo no vídeo, preciso dar o exemplo”.