Segurança alimentar da população árabe tem potencial de alavancar parcerias comerciais com Brasil

Fonte: Brasil Export (08 de maio de 2020)


 
O potencial de produção do agronegócio brasileiro é o mais importante ativo do País para estabelecer parcerias comerciais com os países árabes. A Liga dos Estados Árabes, hoje formada por 22 países, a maioria deles instalados em territórios áridos, tem a questão da segurança alimentar da população da região como prioritária, afinal aproximadamente 70% do consumo local é importado, informou Tamer Mansour, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. Ele participou na tarde desta quinta-feira, 7 de maio, de videoconferência organizada pelo Fórum Nacional Brasil Export. O Produto Interno Bruto (PIB) das nações árabes é calculado US$ 2,78 trilhões. O bloco possui cerca de 60% das reservas mundiais de petróleo e se constitui em importante hub logístico e portuário, com valorosas conexões com a Europa, a África e a Ásia.
 
Mansour indicou que a Câmara de Comércio trabalha com a possibilidade de parcerias envolvendo a criação de projetos no Brasil para atração de investimentos diretos dos países árabes, aportes financeiros em obras de infraestrutura – ainda muito longe do ideal no território nacional -, especialmente no Arco Norte e na região denominada MATOPIBA, e na junção de fundos árabes e de tecnologia brasileira para viabilizar unidades de produção no continente africano. No caso deste último “modelo de negócios”, o secretário-executivo explicou que a ideia é aproveitar as terras férteis de países da África para abrigar parcerias de longo prazo que possam suprir a segurança alimentar do povo árabe. A produção excedente poderia ser exportada para outras nações interessadas na compra de grãos e de proteína animal.
 
Outro objetivo relacionado aos trabalhos da Câmara de Comércio, destacou Mansour, é viabilizar a implantação de linhas marítimas diretas entre o Brasil e os países árabes, possibilitando a redução do transit time. As linhas hoje disponibilizadas pelos armadores têm escalas em portos europeus e da África do Sul, fazendo que o trajeto dure até 45 dias. “Dessa forma seria possível tornar o Brasil um hub logístico de nossas mercadorias para toda a América Latina”.
 
De acordo com informações da Secretaria de Comércio Exterior do Brasil (Secex), o bloco árabe consolidou-se como terceiro maior parceiro comercial em 2019, atrás somente de China e Estados Unidos. A corrente de exportação de cargas brasileiras totalizou US$ 12,24 bilhões (incremento de 6,7% em relação a 2018), tendo como base proteína animal, açúcar, milho e minério de ferro. As importações de produtos árabes somaram US$ 6,99 bilhões (queda de 8,3% se comparado ao ano anterior), sendo em sua maioria petróleo, derivados petroquímicos e peixes congelados. Os países que mais participam dessa corrente comercial com o Brasil são Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
 

 
O governo saudita, lembrou Mansour, anunciou o investimento US$ 10 bilhões no Brasil por meio de fundos soberanos durante a visita do presidente Jair Bolsonaro e de ministros de Estado à região em outubro de 2019. Ele ressaltou o poderio financeiro de outros fundos árabes, vários deles entre os 10 maiores do mundo, como os de Abu Dhabi, Kuwait e Catar. “Já são vários os investimentos árabes de forma indireta no Brasil como em frigoríficos, no setor de hotelaria e em joint venture com a Shell, trabalhando forte no Rio de Janeiro e no Espírito Santo”.
 
Em relação ao setor portuário, o secretário-executivo elogiou o sucesso da DP World, um dos mais importantes terminais do Porto de Santos. A companhia recebeu investimentos superiores a R$ 2 bilhões da Dubai Ports World, grupo empresarial que, entre outros ativos, opera o Porto de Jebel Ali, o décimo mais movimentado do planeta em volume de TEUs. Mansour alegou, entretanto, que o ambiente de segurança jurídica e de regulação no Brasil ainda deve muito em relação às boas práticas internacionais, sendo necessários avanços para atrair o interesse de mais investidores estrangeiros.
 
Ações para minimizar crise de saúde
Mansour afirmou que todos os portos da Liga Árabe funcionam ininterruptamente mesmo com a disseminação dos casos de COVID-19 em todo o mundo. Porém, foram tomadas algumas ações pelas autoridades locais como a proibição de troca das tripulações após atracação, evitando contaminações, além do impedimento da operação de embarcações turísticas. Nesse mesmo sentido, foram implantados procedimentos documentais extras para melhor controle da fiscalização sanitária, o que acabou resultando em atrasos no desembaraço aduaneiro e aumento do frete.
 

 
(Texto: Bruno Merlin)